quarta-feira, outubro 19, 2005

As três irmãs Luísa, Lurdes e Laura

Uma tinha ar de escritora ou até de pintora. Extremamente bem arranjada, sofisticada não obstante os setenta e poucos anos que aparentava. Lábios pintados de um rosa claro mas opaco, uma pérola em cada orelha, o cabelo arranjado. Ao seu lado, a irmã mais nova, mais recatada, mais discreta. Tinha uns óculos pendurados no peito, os mesmos brincos de pérola, permaneceu quase sempre de olhos fechados, a dormitar. De vez em quando, degustava uma pastilha de chocolate. Era a mais gulosa. À sua frente, o pacote de pastilhas de chocolate e o pacote de Mentos de menta. A terceira irmã viajava de costas. Vi-lhe, inicialmente, apenas o cabelo nos mesmos tons dos das outras duas irmãs e as pernas cruzadas denotando um certo ar de sofisticação e ao mesmo tempo de autoridade (era a irmã mais velha), confirmado pelos apliques dourados nas hastes dos óculos de sol de massa castanhos. Os óculos de sol da primeira irmã eram mais simples, também de massa, mas pretos e com um formato rectangular ultramoderno. As duas primeiras irmãs eram tão diferentes e, no entanto, tão idênticas. As semelhanças físicas eram tremendas. Se não fosse a diferença de idades visível, podia mesmo indagar se não seriam gémeas. Mas depois eram tão diferentes. A primeira vestia um fato de saia e casaco castanhos e uma camisola fina de malha em tom pérola por baixo. Atenta à moda ou porque já seu costume, uma pregadeira em forma de flor com as pétalas em âmbar na lapela do casaco. A segunda irmã era sem dúvida mais pragmática: umas calças castanhas e um casaco impermeável. Além dos brincos, não tinha qualquer outro adorno. Nem lábios pintados, nem mãos arranjadas. A terceira irmã, continuava, a revelar-se-me de costas. Os lábios, num movimento delicado do torso, apareciam pintados também, embora num tom mais sumido. As mãos, no entanto, destacavam-se. Entrelaçadas uma na outra, mais ou menos ao nível dos seus olhos, o tom prateado das suas unhas deixava transparecer um outro cuidado e, no entanto, uma posição de quem já tinha visto tudo na vida e pouco queria saber para além de estar e divertir-se com as duas irmãs. Nenhuma das outras irmãs tinha as unhas pintadas. As mãos cuidadas, mas nuas.
Sentia-me fascinada a olhar as três irmãs, a desvendar a cada gesto um pouco do que eram ou do que transportavam em si. Lembrava-me daquela peça de Peter Handke "A Hora Em Que Não Sabíamos Nada Uns Dos Outros" e de como eu sempre gostara de observar as pessoas, os seus movimentos, o seu olhar, tendo muitas vezes que distrair o meu com outras coisas para não criar suspeita. Mas era inevitável. As três irmãs haviam prendido o meu olhar desde o primeiro instante em que me sentei num lugar que não era o meu naquela carruagem. E tornaram a minha viagem muito mais divertida.
Tinham apanhado o comboio no Porto. Iam a Lisboa visitar um amigo que tinha uma colecção de arte sacra fantástica. Até há poucos dias, não suspeitavam sequer o seu interesse por esse tipo de arte e foi uma surpresa enorme quando descobriram. O Pestana demonstrava sempre uma certa repugnância, resmungando entre dentes quando o assunto vinha à tona, pelos temas do Sagrado. As irmãs sorriam entre si maliciosamente, nada diziam, mas tudo pensavam. Elas, por outro lado, interessavam-se por esses temas, porque sempre haviam estado presentes ao longo da sua educação. Os pais colocaram-nas, desde cedo, num colégio interno de freiras, embora não processassem fé alguma. Mas reconheciam-lhes, às freiras, certas qualidades de boas preceptoras e desejavam a melhor educação possível para as suas filhas. Cada uma aceitou à sua maneira. E cada uma é diferente da outra.
Chegámos ao Oriente. As três irmãs levantaram-se calmamente e dirigiram-se para a porta. Certamente que apanhariam o metro para o Chiado
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