Quarta-feira, Abril 16, 2008

The last written word

Não é drama algum. Este é apenas o meu último post. Ando a adiar o fim deste blogue já há algum tempo. Adiei, adiei, a pensar que talvez aqui, em Nova Iorque, conseguisse escrever, impulsionada por todas as coisas fantásticas, que iria certamente encontrar. A mesma sensação que tive, por exemplo, em Barcelona. E lá, de facto, escrevi bastante nos primeiros tempos. Mas, poderei dizer que não sou a mesma pessoa? Sou, mas há coisas na minha vida, hoje, mais importantes do que a minha escrita ou do que tudo o que possa encontrar nesta cidade e que me faça escrever. Hoje, só consigo dizer que tenho saudades. Tenho saudades do meu marido (incomensuráveis saudades), da minha família, dos meus amigos, da minha carrinha. Tenho saudades de calçar as minhas sapatilhas, colocar o ipod em shuffle e andar pela cidade, pensar em todos os problemas que assaltam o meu pensamento. Perder-me nas dúvidas, nas entrelinhas, nas histórias que construo. Tenho saudades...

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

First we take…

Berlin, then we take Manhattan... Uma pequena inversão à canção de Leonard Cohen. Pelo meio, uma viagem rápida a Londres, cujo único registo, a valer a pena, é o da memória da exposição de Louise Bourgeois, na Tate Modern. Regressei desolada, desencantada, de Londres, uma das cidades do meu imaginário que ainda não tinha visitado. Deverei, talvez, resguardar algum sentimento de carinho que possa, um dia, eventualmente, sentir ainda por Londres. A visita foi rápida, também. Apenas um fim de semana para ver a exposição de Louise. O parênteses devido: um maravilhoso encontro. A exposição estava, extremamente, bem montada, acompanhada por pequenos textos sobre as obras em cada uma das salas, muito precisos, sem aqueles erros comuns sobre a obra de Louise. Porque, depois de Berlim, todas as cidades parecem ridículas. Com a excepção de uma: Nova Iorque. A Nova Iorque, regresso daqui a quinze dias e para ficar. Pelo menos, algum tempo, que será precioso neste momento. Há uns dias atrás, temia imenso esta viagem. Mais do que a mudança definitiva para Lisboa, a mudança para Nova Iorque vai ser demasiado violenta, demasiado brusca. Receio mesmo ainda não estar preparada. Mas o que é que eu posso fazer? Não podia adiar mais a minha ida. Há demasiadas coisas em jogo. Agora, com a proximidade da viagem, começo a sentir a ansiedade de rever aquela cidade extraordinária, começo a sentir aquela vontade louca de ir ali e acolá, a escassez do tempo, fazer isto e aquilo... Já só penso em Nova Iorque. Revejo filmes, imagens tão familiares, mas sempre sedutoras. Não consigo deixar de pensar em Nova Iorque. Entretanto, a minha cabeça entrará em modo de abstracção pura. Sim, creio que passa lá a maior parte do tempo. Mas, desta vez, terá de ser mais eficaz. Há sentimentos, emoções, sensações, dos quais é difícil abstrairmo-nos. Por enquanto, o grau de excitação ainda é superior a tudo isso. Mas... depois... Adiante.
De volta a Berlim. Já há muito que devia ter escrito sobre Berlim. Berlim, apenas. Vou conter-me e limitar-me a falar da cidade! Ainda este fim de semana, ao reencontrar o José Manuel Rodrigues, com quem tinha imensas saudades de conversar, relembrámos, alegremente, por entre exclamações de saudades, as coisas fantásticas de Berlim. Os cafés. Em palácios antigos, casas de literatura, o melhor Apfel Strudel do Mundo! O pequeno-almoço, a qualquer hora do dia. Longo. Pela tarde fora, saltando o almoço. Não querendo saber do almoço, saber do tempo. O tempo em Berlim é, exactamente, aquele das Asas do Desejo. Lento, extenso, intenso. E o cinzento do céu não é senão aquele cinzento de uma espera longa num dia infinito... Em Berlim, dormíamos a sesta. Ao fim da tarde, antes de nos prepararmos para sair para jantar e dançar. Se nos deixassem (os nossos corpos, também, de algum cansaço), ficaríamos acordados até de manhã. A luz é sempre a mesma. A temperatura, também. Muito frio. Mas Berlim é perfeita para se andar a pé. Mesmo de noite, duas, três da manhã, sem avistar uma única pessoa, pelas avenidas imensas de Berlim Leste, com seis graus negativos... Berlim fervilha. É preciso estar atento. É muito diferente de Nova Iorque, por exemplo. Como James Murphy canta, o ritmo alucinante de Nova Iorque dá cabo de nós, fazendo-nos sentir pequeninos, impotentes, fazendo-nos ficar para trás... Arrasa connosco. É quase impossível mantermo-nos a par. Berlim, não. Mantém aquele tempo, de que ainda há pouco falava, e, ao mesmo tempo, não pára. Há imensas coisas a acontecer. Há sempre imensas coisas para fazer. Mas há, também, tempo, aquele tempo... De uma espera, que não é espera alguma, mas o tempo que é preciso para se apreciar as coisas. Para viver intensamente. Não consigo esquecer a imagem contemplativa de Maximiliam Hecker, mesmo ao nosso lado, enquanto passava música... Agora, depois dos dias em Berlim, consigo compreender por que é que existem tantos músicos a escolher Berlim para viver: Erlend Oye, Maximiliam Hecker, Jamie Lidell... Por que é que tantos escolheram um dia lá viver: Nick Cave, David Bowie, Iggy Pop... Por que é que tantos realizadores filmaram Berlim de uma forma única. E Berlim, passados alguns anos da Berlim que também povoava um dia a minha imaginação, continua incrível como sempre... Não sei quando é que lá regressarei. Sei que desejo voltar um dia. Para já, preparo o regresso a Nova Iorque.

A Susana L., um dia, enviou-me uma mensagem, extremamente magoada comigo, a reclamar o seu direito de leitora assídua deste blog. Tinha saudades de me ler, dizia. Também eu tenho saudades de conseguir escrever. Não tem sido fácil. Ainda não consegui perceber o meu novo mecanismo. Acho que é isso. Ainda não consegui ter espaço, dentro de mim, para escrever. E não me estou a referir a esta escrita de circunstância, como as conversas de circunstância que se têm ao longo da vida, mas àquela escrita, em que me sinto dentro de cada uma das palavras. Eu, disseminada, em cada, por cada, uma das palavras... Farei um esforço. É engraçado, porque, normalmente, os meus períodos de escrita correspondem a períodos de introspecção, de afastamento, de solidão quase... Voltarei a escrever. Quem sabe, a partir de Nova Iorque?

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Publi #02

Depois de "E o elevador irrompeu em direcção ao céu, atravessando as nuvens, rumo ao infinito..." (em NADA 10), a história "O ovo e a galinha" aparece em www.dafne.com.pt (colecção opúsculos).

Publi #01

NADA 10: JÁ NAS BANCAS!

Domingo, Novembro 11, 2007

O mistério do texto desaparecido

Diz, quem lê este blog, que um dia um texto desapareceu. Talvez tenha mesmo existido um texto e talvez eu o tenha apagado. Talvez eu já não gostasse dele. Talvez nem sentido fizesse. Talvez entre a existência (virtual) do texto e o seu desaparecimento se tivessem passado pouco mais de horas. Se alguma vez o texto existiu. Se alguma vez desapareceu. E, agora, aqui, neste texto, talvez o mais importante não seja esse outro que desapareceu, mas o tempo – oh, o tempo! – entre os dois momentos. O tempo entre a existência do texto e o seu desaparecimento. Ou, simplesmente, o tempo entre dois acontecimentos.
Tudo, porque já não escrevo há algum tempo. A verdade é que não tenho tido paciência para escrever. Talvez não seja paciência. Talvez vontade. Um mau começo. Este texto já se escreve com demasiados talvez. Talvez não precise de o escrever sequer. Ou talvez precise. Chega ao ponto de irritar. Sentir-me amorfa. Os últimos dias. O que é contraditório com tudo o que sinto dentro de mim e que é totalmente novo. São sentimentos novos, inexplorados até há meses atrás. A diferença do tempo. Às vezes, apetece-me escrever um texto sem nexo. Um texto talvez com demasiados talvez. Textos sérios já escrevo demasiado. E, mesmo nesses, tento dar sempre a volta. Dar a volta. Dá-me vontade de rir! Quantas vezes não queremos dar a volta a alguma coisa? Dar a volta ao tempo? Oh, quem me dera! Acelerá-lo até... Até? Ah, é fácil pensar até quando. Dezembro. Fim de Dezembro. E escrever um texto com demasiadas interjeições? Não me apetece fazer qualquer esforço para escrever, para pensar, pensar enquanto escrevo, escrever enquanto penso. Perdi-me. Perder-me nas palavras, parece que nem isso já sei fazer. Perder-me a mim nas palavras. Cada bocadinho de mim em mil e uma palavras alastradas por um texto infinito. Eu, completamente dissipada. Sobre o que é que eu queria escrever? Ah! Sobre o tempo entre dois acontecimentos. E quanto o tempo não significa coisa alguma. A minha recordação dos dois concertos dos Interpol (o primeiro no SB SR, no dia 5 de Julho e o último na Quarta-feira, dia 7 de Novembro) confirma esta regra. Mas, neste caso, nem é o tempo entre os dois concertos, mas o tempo específico de cada um. O dia. Aquele dia. Aquelas horas. E o intervalo do tempo que, ao contrário dos meses que passam rigorosos e austeros, amplia todas as noções que tinha e tenho de mim. Um passado longínquo e um presente infinito. Como é que é possível reunirem-se assim?
Ah, sobre o concerto! Já não tenho mais interjeições para escrever e os talvez não fazem sentido. Foi real. É tudo real.

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

"São apenas palavras."

“São apenas palavras,” Martin Frost.

Confesso: estava nervosíssima. Não tinha motivo algum, apenas o de vislumbrar de longe um dos meus escritores preferidos. Mas, a imagem que dele construíra, ainda que desse olhar de longe, distante em tudo, era essa de um homem inatingível. Creio que as palavras quando são sublimes, perfeitas, parecem-nos irreais (como quase todas as coisas sublimes e perfeitas), fazendo-nos acreditar que jamais poderiam sair (nascer) dos confins do pensamento de alguém, que é idêntico a nós, que gosta de coisas simples como nós. E Paul Auster é tão simples, que a sua simplicidade confunde-nos ainda mais. Já não bastava duvidar da existência das palavras como reais, como elas, afinal, dizem coisas tão simples quanto a sua própria banalidade. “São apenas palavras.” O que são as palavras comparadas com um grande amor? Martin não hesitou. Não são nada. E esta foi apenas uma das coisas em que me revi em “The inner life of Martin Frost.” Tal como nos livros de Paul Auster, o caminho até às palavras não é directo. Não é o caminho até ao seu significado, mas o salto que se tem de dar, para se compreender o reflexo da palavras em nós. A sua ressonância. O seu eco. Por isso tanto admiro Paul Auster (e já aqui escrevi várias vezes sobre esta minha admiração ou sobre a sua contaminação nas minhas próprias palavras, no meu pensamento). As palavras serão sempre insuficientes, quando dizem a melhor coisa do mundo. Nada mudou desde há alguns posts atrás.
Logo no início do filme, Martin conta como as histórias aparecem, de repente, na cabeça com uma estranha definição. Num minuto não estão lá e, quando menos se espera, na volta de outro e novo minuto, já lá estão, como se tivessem sempre estado lá. E a definição é estranha, porque os contornos estão todos definidos, com uma clareza assustadora, impedindo-nos de corrigir um pormenor que seja. Já há muito que sinto isto. Lembro-me de outro post sobre este assunto. Não é por Martin ser escritor que revejo nele muitas das ideias que já passaram algum dia pela minha cabeça. Mesmo quando estou ocupada a pensar num projecto, numa pequena ideia para algum objecto, acontece-me, exactamente, o mesmo. Apetece-me pensar que é próprio do mundo das ideias. Da ciência das ideias (recuperando o título desse post). Uns minutos à frente, perto do fim do filme, Martin é confrontado com a sua tristeza e responde a Fortunato (a personagem divertida de Imperioli) que acabara de escrever uma história, dando-lhe essa impressão de um sentimento de vazio, de ressaca, de melancolia, quando se termina de escrever uma história, uma vida, que lhe ocupara todos os minutos da sua existência até então. É verdade. É uma outra vida paralela, que nos faz esquecer a nossa, que corrói a nossa, tão forte que surge na nossa cabeça, que deixamos de pensar por nós e passamos a ser outros e outras coisas (para relembrar outra minha paixão...). Na realidade, Martin apenas dera esse sentimento como desculpa, pois o que sentia era a ausência de Claire. Mesmo desculpa, no entanto, esse sentimento atingia-o. E Claire existia apenas na história. Só a história lhe dera existência.
Depois, existem aquelas imagens lindíssimas que, quando fechamos os olhos a pensar num determinado filme, nos vêm à cabeça. O filme não é um filme extraordinário (como disse o Gonçalo), embora lendo-se Paul Auster não se possa senão gostar daquele filme, das sucessivas e subtis citações à sua própria escrita. Ali, o que está em causa, talvez não seja mesmo o cinema, mas a palavra filmada. A sublinhar o facto da própria história ser sobre um escritor e tudo o que acontece dentro da cabeça de um escritor, quando este se apercebe que as palavras são apenas palavras e, no entanto, nunca deixam de ser palavras vivas. Que dizem até a sua própria vida. Que criam a sua vida, que não existe sem elas. Retenho com uma enorme precisão os momentos que achei mais bonitos. Uma sequência em particular: o escritor/narrador fala sobre formas. Uma primeira imagem das estranhas formas que o fumo, de um cigarro talvez, desenha sobre um fundo preto. O fumo de uma chaleira, era, no entanto, esvaindo-se lentamente no ar. As formas onduladas de uma cortina que deixa passar as pequenas partículas de luz para dentro da sala que não se vê. As formas, a estranheza das formas, como são tão belas que não conseguimos explicar, mesmo com palavras. Talvez seja essa outra das dificuldades das palavras: igualarem-se a imagens tão belas quanto aquelas. É aí, também, que a palavra filmada se torna mais complexa e difícil. Outras imagens inesquecíveis: Claire a desmaiar e a cair na relva num gesto perfeito. A inclinação do seu corpo, a rotação do seu torso, o peso que desaparece da própria imagem. Não é o corpo de Claire a cair que é filmado, mas o desmaio, enquanto perda total de um peso que nos prende à terra. E outra: a imagem do pneu, que Martin tivera de comprar para trocar o pneu furado, a deslizar, com toda a velocidade, pela estrada. Mais uma vez, não é o pneu que é filmado, mas a sua velocidade e, no fim, a sua aleatoriedade e diversão. É uma sequência única que nos faz querer ser pneu. Tudo o que a imaginação permite. Afinal, o que seria da nossa vida interior sem imaginação? E a imaginação sem coincidências?

Sexta-feira, Setembro 28, 2007

F...


Há dias que trago um texto na minha cabeça. Aparece de vez em quando com uma extraordinária definição que, julgava eu, assim que me sentasse para o escrever, ele se escreveria a si próprio. Mas, não. Aliás, cheguei agora mesmo à conclusão, que ele só aparecia na minha cabeça, porque eu sentia a necessidade de o escrever. De escrever as frases que passavam pelo meu pensamento àquela hora. Poderia começar este texto de outra forma. Há dias assim, em que nos apetece escrever FUCK no vidro da frente do nosso carro e passar, em câmara lenta, por uma avenida infinita, com árvores de um lado e de outro, e imaginar-nos rente aos seus ramos, às suas folhas, fechando os olhos, esquecendo toda a revolta que ficou uns metros, quilómetros, talvez, atrás... E quando esse dia se multiplica, que deixo de ver o que está à frente dos meus olhos e embato numa árvore? O capot do carro desfeito e eu intacta, a sair do carro, perplexa a olhar para o fumo cinzento que dele sairia. A mesma razão por este texto já não ser o texto que aparecia com extraordinária definição na minha cabeça. Num momento pensei que deveria escrevê-lo para esquecer definitivamente todas as frases que ocupavam e obstinavam o meu pensamento. Ainda ontem julgava sentir essa necessidade. Iria ser um péssimo texto (não que este seja melhor...). Um texto cheio de frases amargas, revoltadas, irritadas. Pôr um ponto final antes mesmo da existência de um texto. Todos os pontos finais deste serão certamente esse ponto final. Tudo o que fica para trás. A imensa avenida de árvores de um lado e de outro. Todos os pensamentos obstinados e revoltados. Tudo o que seja cinzento. Rewind. Em nenhum dia me apetece escrever FUCK no vidro da frente do carro. Mas apetece-me todos os dias fechar os olhos (não me apetece, fecho interminavelmente, sem noção do tempo ou do espaço) e sentir o vento tocar a minha pele como se eu não soubesse que era o vento que me tocava.

Quinta-feira, Setembro 06, 2007

De regresso

para G
Regressei a Coimbra já há alguns dias. Aliás, agora que penso no tempo dessa forma, regressei, precisamente, há uma semana. Mentiria se dissesse que tinha uma vontade enorme de voltar a escrever. Não tinha, é verdade. Mas, então, por que escrevo? Agora, neste momento? Até poderia dar uma resposta bonita, a mim própria, mas, mais uma vez, iria enganar-me. Poderei eu ter deixado de gostar de escrever? Creio que não... E, no entanto, coloco reticências. Há momentos assim. Creio que desta vez é a sério. Que as palavras serão sempre insuficientes para dizer as coisas, para dizer as sensações. Não estou a atravessar uma fase. Esta, será eterna. Nem partilho a angústia de Hofmannsthal, por exemplo. Não conseguirei abandonar a escrita a esse ponto, porque ainda continuarei a precisar dela para sobreviver. Porque ainda preenche uma parte de mim. Mas, agora, essa parte é ínfima, para não dizer prescindível. Porque continuo a gostar de escrever. Apenas sei, no meu íntimo, que não voltarei a escrever como antes. Agora, neste momento, escrevo, porque regressei à escrita de outra forma. Cumpro o que propus fazer, escrever. E faço-o com prazer (nem poderia ser de outra maneira!). Mas, por tudo o que sinto, as palavras não correm nas minhas veias como antigamente... e, novamente, um esforço terei de fazer para voltar a escrever. Hesitei. Hesitei por entre esse medo enorme de as palavras perder para sempre. O custo? Não existe. Como em tudo quando se ama. Mas, aqui e agora, tenho de fazer esse esforço para conseguir voltar a escrever. E resistir a contaminar as minhas palavras com a maior alegria de sempre.
Não escreverei sobre o meu tempo de exílio. Simplesmente, não consigo e duvidarei um dia conseguir. Talvez sejam, agora, as palavras a precisarem de tempo, para se acomodarem à sua nova condição. O meu, terminou. Uma ilha visitei. E, de certo modo, continuo a visitar, a ir lá na minha imaginação, em todas as coisas que faço e vejo e sinto. A imagem serve, apenas, para confundir. A ilha que aparece na minha imaginação tem outro nome. Mas, de regresso: não deixarei de escrever. Volto, apenas, ao início deste blog: a um exercício das palavras, quando preciso de as escrever melhor do que nunca. E, novamente, a esse medo terrível de as palavras falharem. E, no entanto, com essa certeza: falham sempre quando dizem a melhor coisa do Mundo!

Segunda-feira, Julho 23, 2007

Dar tempo

Simplesmente, não escreverei. Hesitei até tomar uma decisão. E, agora, ei-la. Preciso, neste momento, daquele tempo que nunca tenho. Não tem a ver com férias. Mas, com uma necessidade que venho a sentir já há algum tempo. A de tê-lo na palma das mãos e passá-lo, de uma para a outra, lentamente e ver o mundo todo sem me tocar. Preciso assim de um tempo sem tempo. Sem mundo. Sem escrita. Imaginarei sem palavras à beira-mar. Imaginarei sonhos mudos. Ouvirei tudo, todos, o ínfimo som, menos a mim mesma. Bem sei, é sempre nesta altura que me dá para isto. É qualquer coisa no som que só ouço aqui. O som imenso do vazio. E o vento nos eucaliptos junto à janela do meu quarto...

Terça-feira, Julho 17, 2007

5 livros e...

O Nélio (www.ventosdosul.blogspot.com) fez-me um convite, que aceito humildemente. Já há muito que penso nos livros que vou ler nos próximos tempos, que não sejam aqueles que tenho de ler por obrigação (que, no meu caso, é sinónimo de pretexto apenas, porque arranjo sempre uma desculpa, perdão!, justificação, para o que leio por obrigação ser o que leio por paixão), o que me fez pensar nessa lista de 5 livros que nos acompanham sempre (até à eternidade). Introduzo, no entanto, uma pequena variante. Consequência dos meus sempre pensamentos desorganizados, disformes, múltiplos. Por que não pensar em cinco músicas como banda sonora desses cinco livros?
1. Alice's Adventures in Wonderland, de Lewis Carroll & Silly Lily, Funny Bunny, de Maximilliam Hecker. Não é apenas a afinidade que existe entre as personagens de ambos, nem porque este blog tem muito de um e de outro, mas talvez porque preciso, constantemente, de os relembrar. Assim, juntos!
2. The Brooklyn Follies, de Paul Auster & NYC, dos Interpol. Ainda no outro dia estava a falar com o Gonçalo sobre as músicas fantásticas que existem sobre Nova Iorque e parece quase óbvio relacionar Paul Auster e Nova Iorque. Mas, naquela cidade, as aparências seguem um outro curso... E a escrita nunca deve ser aparente. Ou, deve ser aparente para seguir outro curso, também...
3. A Morte em Veneza, de Thomas Mann (deveria aqui colocar, também, o filme magistral de Visconti, porque nem um nem outro consigo ler e ver a não ser em determinados momentos, perfeitos... tremo ainda e sempre) & F- word, de Jens Lekman.
4. Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf & She's Lost Control, dos Joy Division. Virginia Woolf e Joy Division têm em mim um poder comum: quando deixo de acreditar por momentos, breves momentos, nas palavras e nas músicas, ouço as suas vozes. É incrível o poder que têm! Talvez as suas vidas, também, se misturem de uma forma única...
5. O Amor, de Marguerite Duras & Summer On the Westhill, dos Kings of Convenience. Para mim, não existe autora alguma que escreva o tempo como Duras o escreve. Aquele tempo que nos mostra os nossos próprios movimentos em câmara lenta. E os kings of Convenience têm essa particularidade, também, de cantar o tempo, um outro tempo, uma atmosfera, carregada de partículas de água a flutuar e a pousar lentamente na nossa pele. Um súbito calafrio. Ah! E porque adoro o cheiro a protector solar e ainda tenho areia no meio do livro... Existem livros assim. Este é um deles, para mim.

6. Convidam-se 5 (ou mais) pessoas a pensar nos seus 5 livros (com ou sem banda sonora...).

Domingo, Julho 15, 2007

A Ciência das Ideias

Ontem, enquanto arrumava um dos armários do sótão, apeteceu-me imenso rever as fotografias de Nova Iorque, que aí guardara. As saudades já são muitas. Coloquei duas de parte, ambas tiradas no MOMA: uma da maqueta do Eyebeam Museum of New Media, de Diller + Scofidio, e outra de uma mesa em contraplacado. Muitas vezes, desconhecemos de onde vêm determinadas ideias que temos, parecendo-se com memórias vagas, que não conseguimos localizar no tempo, porque nunca existiram. Outras vezes, são imagens que aparecem, espontaneamente, na nossa cabeça, mas como se já nos perseguissem há muito. Outras vezes ainda, reconhecemo-nos, repentinamente, como nunca, numa coisa, que parece concentrar, em todas as suas partículas, todo o nosso ser.
Nos últimos meses, tenho andado completamente, completamente, apaixonada por curvas e, no meu percurso "back to the classics", regressei, também, a Aalto. Uma pequena aventura a que os Eames, por exemplo, também, pertencem. Ainda não consigo localizar, com precisão, esta minha paixão. É um hábito que tenho. Também, sobre ele já falei aqui, sobre as coisas de que gostamos e que, constantemente, reaparecem na nossa história, construindo em nós mesmos, outras histórias, paralelas, que são apenas delas. Creio que, para mim, essa é uma tarefa facilitada por um outro hábito que tenho, o de guardar tudo: papéis, caixas de perfumes, extractos de jornais, recortes de revistas, etiquetas... enfim, um conjunto de coisas inúteis, sem um significado específico, mas que eu, passado algum tempo, resgato e construo sobre elas uma memória em nada acidental, atribuindo-lhes, se for preciso, todo o significado do mundo! Como se estivesse sempre ali e eu apenas o pudesse ver naquele momento (é por isso, também, que tenho esse outro hábito, de vez em quando, ver tudo quanto já guardei). Inevitavelmente, a minha mãe sofre imenso com este meu hábito e não consegue, simplesmente, não consegue perceber a quantidade de desperdícios, que eu teimo em guardar nos armários. A minha justificação é sempre a mesma: muitas das ideias que tenho são inseparáveis desse amontoado de desperdícios. Não posso dizer que exista uma relação causal. Não, não creio. É bastante mais complexo do que isso. No outro dia, estava a ver, pela primeira vez (sinceramente, nem sei como demorei tanto tempo a vê-lo, fazendo-me sentir que perdera algum tempo de mim mesma), "A Ciência dos Sonhos", de Michel Gondry, e, na sequência inicial, Stephane explica como é que se constroem os sonhos. Fiquei empolgadíssima, pois é exactamente (e inconscientemente, também, tal como no próprio filme... ou não?) o mesmo "método", que sigo para as minhas ideias.
Regressando às curvas. Consigo, perfeitamente, construir um percurso, juntar algumas imagens marcantes, que me influenciaram e continuam a influenciar: a jarra Savoy de Aalto, a folding wall screen dos Eames, a parede semicircular da casa Tugendhat ou, ultimamente, as curvas da Fundação Iberê Camargo de Álvaro Siza, que, quando vejo a maqueta, me sinto impelida a acariciar, a sentir na palma das mãos aquela superfície, como se as minhas mãos pudessem compreender melhor a beleza daquela paisagem... sim, uma curva será sempre uma paisagem e relembro os últimos quadros de Bacon! Oh, há muito que não os via na minha cabeça, que agradável surpresa! Continuando, até consigo encontrar referências concretas. Lembro-me, por exemplo, do que o Professor Hestnes e o Professor Vítor Figueiredo diziam sobre as curvas, transformando-as num objectivo a perseguir. Saber desenhar uma curva: um sonho, um desejo. E agora, agora ando a pensar e a desenhar um projecto que persegue tudo isto, que contém tudo isto. Mas, de que me serve estar a pensar sobre esse caldeirão que contém todas as minhas ideias, quando elas só aparecem quando querem? De nada. Mas gosto de pensar por que é que determinadas ideias ocorrem na minha cabeça...
(Fica aqui essa sequência inicial de "A Ciência dos Sonhos".)

Domingo, Julho 08, 2007

I am happy


Difícil tarefa a de contar como foram os concertos do SB SR. Poderia não o fazer, ninguém me obriga, a não ser eu própria, como um teste que tenho de efectuar, por mais que não queira ou sinta medo. Ultimamente, tenho medo de escrever. E as palavras não me têm facilitado a vida. Não tenho gostado do que escrevo. Em tudo, falta intensidade. Férias, preciso mesmo de férias. Na Sexta-feira, conversava com o José sobre os próximos passos na tese. Nem hesitei. "Agora, vou de férias. Preciso mesmo de férias!" Respondia-lhe desesperada e, ao mesmo tempo, contendo-me. Suspirei de alívio ou de compaixão quando o José respondeu que, também, ele precisava de férias. Depois, depois, em Setembro, começo a leitura da infindável lista de referências bibliográficas. Ainda não é esta semana, mas é na próxima. Depois da defesa da tese de mestrado do Quim, no dia 18, vou de férias. Levo o computador, tenho dois artigos para escrever, mas vou esbanjar tempo, assim mesmo, esbanjar tempo. Adoro esse ritmo. E a minha escrita está a precisar de tempo. Sinto que preciso de ficar sem escrever umas quantas semanas, para conseguir regressar a um estado inicial, mais primário, mas mais intenso e assertivo, da minha escrita. Confesso que ultimamente nem tenho tido paciência para escrever! O quê? Como é que é possível? A mais pura verdade. Nem me reconheço. Nem a ela.
Mas não poderia deixar passar em branco alguns momentos fantásticos dos concertos do SB SR. Curiosamente, encontro aqui uma semelhança. Ocorreu-me agora mesmo, enquanto escrevia e pensava no concerto de que mais gostei (difícil decisão, também) e nas fotografias que escolheria para ilustrar as minhas pobres palavras (serão mínimas, ridículas até). Uma característica em comum: essa intensidade que vejo diminuir nas palavras e que se sente em determinados sons e, particularmente, em determinadas maneiras de cantar. A forma como cada músico se coloca em palco, a forma como agarra o microfone, a forma como dança e balança os braços e atira as pernas lentamente para o lado e sacode a cabeça, elevando-a um pouco ao jeito de apanhar qualquer coisa que ali paira no ar, mas não se vê, só se sente. Tv on the Radio. Nem hesito (coisa estranha...). Ver Tunde Adebimpe cantar, faz-nos crer que não podemos estar sequer a ouvir aquilo que canta, tal é a sua grandiosidade em palco. Os seus gestos presos num ritmo que só os seus pés conhecem, o ar que passa subitamente pelos seus pulmões e fá-lo encolher a face, retrair-se num movimento inexplicável do seu corpo. Os Tv on the radio não precisam de cenário, de personagens fictícias, grandes aparatos tecnológicos ou instrumentais. Nada disso! São tão simples que assustam. E, no entanto, os sons e os movimentos que os sons descrevem (qualquer coisa que acontece em nós, no nosso corpo) são magistrais (cabe nesta palavra tudo o que possa ser da ordem do grandioso).

Os outros concertos têm outras histórias por trás. Ouvir os Jesus ao vivo, por exemplo, foi "concretizar um sonho". Muita da música que ouço e mais gosto, comecei a ouvir por influência do meu irmão João. Creio que já o referi aqui, mas não me canso de o dizer, porque sempre fui muito influenciada pelos meus irmãos e os adoro! A minha paixão pela escrita, o meu gosto pela fotografia, o meu humor e a paixão pelos Pixies, pelos Jesus and Mary Chain, pelos Sonic Youth, pelas Breeders, pelos Violent Femmes, pelos The Cure... quando tinha 12 anos. E, naquele momento, estavam ali, os Jesus, mesmo à minha frente. O som está um pouco diferente. Talvez um esforço em actualizá-lo. Mas não interessava, na minha cabeça tocavam como há anos atrás. Quando o negro era ainda negro.
Queria falar sobre os outros concertos. Mas, subitamente, deixou de fazer sentido falar sobre eles. Talvez já tenha dito tudo.

(Esta última fotografia é do Eduardo J.)

Domingo, Julho 01, 2007

Back to the classics

Etsab, Coderch, 1978.
Já faz algum tempo que tenho esta imagem junto do meu computador. Chegou o dia de a guardar. Tudo começou com um concurso (com a Ana e a Dori), que avivou uma ideia longínqua. Lembro-me de uma vez o Eduardo A. me perguntar por que é que eu não escrevia sobre arquitectos contemporâneos (creio que referi isso, por aqui, na altura...). Se alguma vez tivesse de registar os nomes dos arquitectos que mais admiro, estudo e recordo, estes pertencem a essas duas eras que precedem a contemporaneidade: Le Corbusier, Adolf Loos, Mies van der Rohe, na categoria de velhos mestres, Eames e Smithsons, na categoria de arquitectos pós-guerra. Tive sempre outras paixões, mas, por mais exemplos que encontre, estes estarão sempre presentes. Logo após ao Eduardo A. ter feito aquele comentário, decidi escrever sobre um arquitecto contemporâneo, ou melhor, sobre uma casa contemporânea, mas que me obrigaria a ler tudo o que Rem Koolhaas tivesse escrito e tudo o que houvesse escrito sobre a sua arquitectura. Claro que a casa não foi escolhida ao acaso... Contém uma pequena história ou é uma história. Para mim, a história é o mistério de que Colomina fala e o qual reconheço, também, nos objectos do meu estudo. Entretanto, íamos avançando na nossa proposta e, pela primeira vez, pensava em soluções "de inspiração koolhaasiana". Deu-me vontade de rir! E atribuía as culpas ao que estava a ler, mas quanto mais lia sobre Rem Koolhaas, mais entusiasmada ficava com as suas ideias. Passei a ver a sua arquitectura de outra forma, mas estava tudo lá! O que eu via em Rem Koolhaas era o que eu sempre vira em Le Corbusier, em Adolf Loos, em Mies van der Rohe... Mas esta imagem apareceu depois, quando estava a desenhar, em pormenor, um dos edifícios da nossa proposta. Andávamos envoltas em curvas e curvas e curvas. A paixão do terceiro ano por Niemeyer. A Dori comentava, também, como cada vez mais estava a voltar a este tipo de exemplos de arquitectura. A este tipo de curvas. Uma curva desenhada na ponta de um lápis, bem marcada, forte, sentida. Uma curva que condensa uma vida e anula qualquer outra. Niemeyer: outro clássico.
Penso noutros exemplos: no cinema e na música. Creio ser este um sentimento constante em mim. Relembro uma ideia de Louise Bourgeois que me conforta especialmente. Quando a interrogavam sobre os novos materiais que utilizava (em esperança que Louise lhes respondesse que tinha de "apanhar" as novas técnicas), Louise respondia quase sempre da mesma maneira. Que era natural expressar-se em diferentes materiais e que um bom conhecimento técnico sobre estes a iria permitir dizer aquilo que sempre quisera dizer. Em mármore, em madeira ou em látex. Se um material o fizesse melhor do que outro, melhor para ela! O importante era dizer o que queria dizer e que sempre fora o mesmo. As suas angústias, os seus medos, os seus traumas. Também ao medo ultimamente pareço voltar sempre!

Terça-feira, Junho 19, 2007

bcn Report

Parte I - Volver
Há regressos que não são regressos. Não penso numa viagem temporária, em que, passados alguns dias, se regressa, nem num regresso definitivo a qualquer lugar, que, anteriormente, fizera parte das nossas vidas (como por exemplo, o lugar natal). A palavra "volver", em castelhano, é muito mais complexa do que a palavra portuguesa equivalente, "voltar". O filme de Almodóvar, com este mesmo título, ilustra bem essa complexidade, não só pelo significado que o regresso tem no filme, mas pelo outro significado (outros significados) que a palavra "volver" vai adquirindo ao longo da história. Neste momento, penso em dois regressos. O primeiro: o meu regresso a Barcelona, um ano depois. O outro: o meu regresso a Coimbra e a tudo o que deixei. E os dois aliam-se nesse segundo significado da palavra "volver": mudar, transformar, virar do avesso (no filme de Almodóvar, o significado é ainda mais preciso, mais forte: é uma transformação que parte das entranhas ou é a partir das entranhas que se tem de mudar... com toda a força!).
Quando chego a Barcelona, é impossível não me recordar da minha rotina naquela cidade, há cinco anos atrás. Não consigo deixar de voltar aos mesmos sítios, mesmo sabendo que a cidade está sempre em contínua transformação. Num ano, consegui reconhecer transformações enormes. No vazio do edifício, cujo desaparecimento lamentava o ano passado, avança a construção de mais um edifício de "luxo" no Raval, que se está a transformar, aos poucos, num bairro fashion. O Sandwich & Friends (S&F), por exemplo, vai aí abrir brevemente (
http://www.sandwichandfriends.com). Ora, para mim, o S&F é paragem obrigatória para almoço: "un enrrollado caliente Fede e una ensalada Mónica". Mas no Born, para matar saudades. O mítico Champion das Ramblas, onde fazia as compras e, como ainda dizia hoje a Mok, "o supermercado com o ambiente mais divertido que já conheci", passou a ser Carrefour. Nome novo, apresentação nova, mas o mesmo caos de sempre, as filas intermináveis e a confusão instaurada de pessoas e bens de consumo. Continua divertido! A rede de transportes urbanos está cada vez maior e mais eficaz. Mais uma vez, num ano fizeram-se grandes avanços e a mobilidade na cidade está cada vez mais facilitada. A adicionar: um serviço de aluguer de bicicletas (que começa a ser um transporte "público", à semelhança de Zurique, cuja imagem de mil e uma bicicletas alinhadas à porta da estação central – os dois grandes transportes públicos em Zurique - não me sai da cabeça). No entanto, digo-o outra vez: não consigo deixar de voltar aos mesmos sítios e claro que é impossível fazê-lo, mas reconhecê-los, nem que seja numa breve passagem. E não consigo explicar as razões... pois não são motivos nostálgicos ou saudosistas... talvez similares àqueles porque tiramos fotografias, por exemplo. Querer captar um momento único e abrupto, que condensa uma memória inesquecível, que temos medo de esquecer, de apagar, de deixar de a sentir dentro de nós. Porque enquanto dura, ela perpetua, mais do que o momento, outras coisas, novas coisas, que dela nascem, que nela têm origem. Não é um simples reviver. O meu regresso a Barcelona nunca é um regresso.
Ainda não foi desta vez que fui ao Fòrum. Guardo uma única imagem do enorme triângulo azul, quando o piloto do avião, para fazer tempo, sobrevoou Barcelona. Mas, regressei ao pavilhão de Mies van der Rohe (back to the classics) e visitei a piscina de Álvaro Siza. Depois da minha visita a São Benedito, creio que não vá sentir tão intensamente uma visita a uma obra de arquitectura. No entanto, é fácil encantarmo-nos com a forma da piscina de Álvaro Siza. É quase sempre referida a cúpula elíptica com as várias clarabóias e o efeito da luz, que perpassa por elas, na água. Mas não é só na água, é em todo o espaço. E, neste, é a forma que adquire uma força maior. Não é a forma da elipse, mas o conjunto das formas – o volume elíptico, os contornos da água e a rampa – que permitem visões diferentes ao longo do espaço-contentor. As clarabóias apenas produzem um padrão (que varia, ao longo do dia, consoante a luz, mas que é, mais ou menos, estável, durante um banho). Se nos colocarmos ao longo da piscina, em vários pontos, e anularmos, por exemplo, a presença do "tecto", temos imagens, percepções, completamente diferentes da forma. Como se o espaço estivesse sempre em rotação. Se introduzirmos o efeito do tecto, temos uma imagem que nos parece sempre comum, denominada fortemente pela luz das clarabóias. Mas o efeito não deixa de ser bonito e sedutor (imprescindível, até).





Parte II – My Sónar (os meus preferidos)
Sónar de Día:
(dj) James Holden
(live) Piana
(live) Clark
(live) Planningtorock
Sónar de Noche:
(live) Beastie Boys
(live) Dizzee Rascal
(live) Digitalism
(dj) Spacek & Benji B Soundsystem
(live) Devo
(live) Mogwai A melhor parte: o Sónar. Infelizmente, de difícil descrição. Receio, ao tentar descrever, cair nas vulgares expressões, "fantástico", "brutal", "excepcional", etc. (todas o resumem bem e todas são insuficientes para o descrever). É, realmente, um ambiente único, especialmente, durante o dia, quando se está em plena Barcelona e se pode sair e dar uma volta e voltar e dançar... Guardo uma imagem curiosa: as pessoas, com o papel amarelo do programa do Sónar, de um lado para o outro, para apanhar o espectáculo que mais querem ver no momento. O programa é vastíssimo e obriga a essa selecção criteriosa (o que, infelizmente, anula um encontro mais acidental com um concerto ou outro), notando-se que existe, de facto, uma cultura digital (de música electrónica, experimental, aliada às novas tecnologias e à arte digital) enraizada. Há vários críticos que acusam o Sónar de ter perdido o seu carácter experimental e de se aproximar, cada vez mais, dos festivais de música de bandas "estabelecidas". Mas não nos podemos esquecer que o digital já não é experimental, já ultrapassou há muito esse discurso, como cyborgs não são ficção científica... Eu gosto, especialmente, de misturas. Quando sonoridades tão distintas se aliam e constroem um som novo. E o telúrico se transforma em digital. E o hip-hop em digital. E o sensível em espacial.
Outra coisa interessante na música electrónica é que ela atinge, muito facilmente, em determinados registos, o nosso sistema nervoso. Não se trata da questão do volume da música (isso pode suceder com qualquer música), mas da composição de determinados sons, só possíveis digitalmente. Pela primeira vez, não consegui suportar um som. E abandonei um concerto (Haswell & Hecker).

Segunda-feira, Junho 11, 2007

My little green book*

Há um pastor alemão bebé que passeia no parque, mais ou menos, à hora da minha caminhada. Lembra-me imenso o nosso pastor alemão, que morreu com apenas seis meses. Apenas o pastor alemão está diferente. Nestes dez dias, cresceu imenso e, quando o vi hoje, pensei para mim: "a única diferença que sinto é nele, tudo o resto continua na mesma". Pensamos sempre que no regresso de uma viagem, vamos encontrar tudo diferente (às vezes, também pensamos o contrário, que as coisas cristalizam no tempo, até ao nosso regresso). E, quando a viagem é tão importante para nós, como foi esta para mim, maior é o sentimento que as coisas vão mudar a uma velocidade estonteante e que, no nosso regresso, já não as reconhecemos mais. Talvez seja apenas um reflexo do que desejamos. Ou do nosso desejo que, também, regressemos diferentes... Mas esta viagem foi tão curta. Como é que poderia ter algum efeito sobre mim? Teve-o, claro! Mas não o revelo... Vou antes anotar algumas memórias, à semelhança do que já fizera após a viagem a Nova Iorque. Um "guia" com conselhos, sugestões e histórias de alguns episódios...
Seis e meia da manhã de Domingo. Eu, o João e o Pedro seguíamos para o aeroporto. Eu e o João seguiríamos para Zurique e o Pedro, para Roma. Os nossos voos sairiam à mesma hora e combinámos tomar café antes do embarque. Ambos voos eram da Tap e, enquanto o Pedro esperava pelos colegas, eu e o João fomos andando para o check-in. Qual o nosso espanto quando chegamos ao pé do balcão e vemos uma fila enorme. Era fila única, única para o check-in de todos os voos, não interessava a hora de partida, e para todos os destinos que as companhias da Star Alliance voassem. O caos estava instalado. O meu irmão ainda brincava com a situação, dizendo que, para a próxima, evitasse qualquer uma daquelas companhias. No meio da barafunda, havia um Senhor, de fato, a dizer alto os destinos cujo prazo limite para o check-in se aproximava. Zurique e Roma, claro! Após uma hora na fila, sem sair do lugar. Apressamo-nos, a empurrar as malas, por entre dezenas de pessoas que viam ali uma oportunidade de passar à frente de quem quer que fosse. Lá conseguimos chegar ao pé de um dos balcões e dizer ofegantes "Zurique", quando a rapariga, de fato, também, nos diz que "Zurique" já estava fechado. Foi a gota de água! Não queria acreditar! O João continuava calmo e sereno. Falso alarme. Ainda poderíamos fazer o check-in e lá vimos as nossas malas desaparecer pelo tapete rolante.
Chegaríamos cedo a Zurique e o programa para a tarde já estava escolhido: ir ao Kunst e ver o Pavilhão do Corbu. Nem queria acreditar, ia ver o meu primeiro Bacon! Julgava eu... Percorri, a passo acelerado, não sei quantas vezes as salas do Kunst, à espera de, a qualquer momento, em qualquer passagem súbita de sala, o vislumbrar, magnífico, na imensidão de uma parede branca vazia (mesmo com quadros ao lado, imagino que, ao lado de um Bacon, todos os outros desapareçam e o espaço se torne abrupto, sem chão). Mas não... Desci, pesarosamente, cabisbaixa, entretida com o desânimo. Não, nem Giacometti me alegrou (e, depois, só me lembrava das palavras de Louise sobre as esculturas de Giacometti e, não é de espantar, tem toda razão; apesar da leveza disfarçada de algumas, estão sempre presas a um chão, pesado, fixo, inerte). Fui ter com o meu irmão, que já me esperava cá fora, seguimos para o lago e, de repente, ficou uma tarde linda de sol. O Pavilhão Heidi-Weber era, talvez, das obras do Corbu uma das que eu menos gostava. Mas as suas cores exuberantes sob aquela luz magnífica deram-me a volta à cabeça e não consegui conter-me. O João abanava a cabeça perante os meus saltinhos de alegria (não consigo evitar, quando estou feliz, dou uns saltinhos quase imperceptíveis, embora às vezes me esqueça e salte mesmo). Demos a volta e fomos até à beira do lago, comer um gelado... Estava uma tarde fantástica e eu andava encantada com tudo o que via. Imensas pessoas a andar de bicicleta, descalças com os pés na água, deitadas na relva, a jogar futebol... Queria registar tudo com a minha pequena máquina, até ao momento que o meu irmão pensou que era exagero meu querer tirar uma fotografia a um grupo de amigos a fazer um piquenique. Qual exagero! "Eu gosto de observar e tirar fotografias às diferentes formas como as pessoas se apropriam do espaço," respondia-lhe eu, prontamente, mas apenas tentando justificar-me com uma razão muito própria de quem passa a maior parte do tempo a pensar em espaço. E Zurique faz-nos pensar sobre espaço.


A Ana e o Eduardo já me haviam contado do fantástico sistema de comboios e que eu não teria qualquer problema algum quanto à mobilidade. E é, realmente, extraordinário! Primeiro, existem variadíssimos comboios e é extremamente engraçado perceber a forma de composição. Imaginemos que estamos a construir, na nossa sala, uma linha de comboios, com vários tipos de comboios. Tira-se uma carruagem daqui, tira-se outra daquele comboio em que a locomotiva já não é grande coisa, junta-se outra locomotiva, adiciona-se outra carruagem do último modelo, que é mais caro e... voilá! Temos o nosso comboio! Os comboios suíços têm esta flexibilidade de composição. A carruagem é um módulo que pode ser adicionado, ou subtraído, consoante a ocasião. E o comboio é um transporte flexível, ao contrário do que a pesada infraestrutura possa indiciar. Há comboios para todos os gostos e quem quiser levar a bicicleta também o pode fazer. É um transporte público e quando a bicicleta tem mais expressão na cidade do que os carros, então, alia-se ao transporte público de excelência. O sistema de eléctricos (os "trams") prolonga a flexibilidade do comboio. E, na cidade, um pouco, também, pelos passeios e vias rodoviárias serem uniformes, com um tom contínuo e uma ligeira diferença de cota, os carris são quase imperceptíveis, tendo pouquíssima expressão. Mal se notam!
Continuamos a construir a nossa linha de comboio. Colocamos as montanhas com vários túneis, um vale, ao longo deste, um rio e, mais à frente, um grande lago! Muitas árvores e, de vez em quando, um conjunto de casas em madeira. Nunca construí uma linha de comboio durante a minha infância, mas não tenho dúvida que seria este o cenário eleito. Ia de comboio para Sumvitg, quando notei noutro aspecto da flexibilidade dos comboios suíços. Consoante o cenário (e que, na maior parte das situações, é o da linha de comboio da nossa infância), o comboio tem diferentes características. Aquele onde ia, percorre uma zona baixa dos Alpes, ao longo de um rio de violenta ondulação, tem um sistema de aberturas, que permite baixar a janela do comboio até meia altura e, desta forma, fazer-se a viagem ao "ar livre". Na volta, enquanto esperava na estação, passou o Glaciar Express. Neste, as janelas de vidro laterais dobram e fazem parte da cobertura. A única parte opaca desta corresponde à área do corredor (onde é fixo o sistema de iluminação).
A viagem a Sumvitg foi uma das experiências mais fantásticas de toda a viagem. Naquela manhã, à mesma hora, o João, na linha dez, apanhou o comboio para o aeroporto e eu, na linha nove, o comboio para Chur. Já em Chur, deixei a mala no hotel e regressei à estação para apanhar o comboio para Sumvitg. Uma hora de viagem. Para descer em Sumvitg, uma pequena aldeia nos Alpes, tem de se carregar num botão, para o comboio parar. Desço e vejo ninguém. Mais ou menos à minha frente, algumas placas com indicações. A que me interessava, dizia que, até São Benedito, seriam 50 minutos a pé. O João V. já me havia avisado. Olhei para o relógio. Eram 12 horas certas. "À uma, estou lá", pensei. E comecei a minha caminhada. À medida que ia subindo, ia ficando cada vez mais ansiosa. Olhava para o relógio: 12h 30m. Começava a ouvir água a correr pelo meio da montanha. Um calor insuportável. A minha garrafa, já quase vazia. E, quando menos esperava, vi-a! Ainda ao longe. Extraordinariamente bela. Uma hora, demorei. Uma hora mais, fiquei ali e muito me custou abandoná-la. Não consigo explicar o que senti durante aquele momento, estava eufórica! Completamente eufórica! Mas sei que me foi extremamente difícil sair dali e quando decidi iniciar o meu percurso de retorno à estação, já a alguns metros de distância, olhei para trás e senti, de forma tão intensa, que tinha de tirar uma última fotografia (já tinha arrumado a máquina e tudo), como se aquela fotografia fosse o último momento em que a veria, para sempre. E foi e, curiosamente, é a fotografia que mais gosto (e tirei imensas!).

Agora, alguns apontamentos: as trufas da Sprüngli são divinais; as sandes do Manta Bar, na Bahnhofstrasse, são óptimas para levar e comer num banco de jardim (quentes ou frias), enquanto se vê os trams a passar e uma loja com frutas secas, na Stadelhoferstrasse...

E o edifício de Herzog & de Meuron!

Sábado, Junho 02, 2007

Next stop

Viajo para esquecer. Creio já haver dito qualquer coisa de idêntica. Desta, é de vez. Viajo para esquecer os últimos dias, os últimos anos. Porque preciso de um início e parece-me que esta viagem tem-no como princípio. É próprio de uma viagem. Até aqui, nada de novo.

“We can have afraid.”

Este post poderia intitular-se, também, “Coincidências – continuação,” tanto que eu gosto de coincidências. Mas, o seu objecto é o do anterior: o medo. O anterior post foi escrito na noite de Quinta-feira e, no dia seguinte, eis que Dominique Perrault responde, com esta frase extraordinária, a Nuno Grande. Tudo, porque Nuno Grande dizia a Perrault que os arquitectos parecem ter medo de fazer edifícios quando fazem edifícios-paisagem ou edifícios quase imperceptíveis na paisagem, por vezes, criando-a artificialmente ou, por outras, prolongando-a numa elaborada simulação de um continuum verde. Sim, os arquitectos, também, podem ter medo. Quem é que não pode?

Sexta-feira, Junho 01, 2007

Do que é que precisamos?

Do que é que precisamos para estarmos prontos? Prontos para alguma coisa que nos atormenta, alguma coisa que receamos, que desconhecemos. A alguns dias de ir em viagem, com um destino conhecido, mas um futuro incerto, surgiu esta ideia, que já não é uma ideia, é mais do que isso, talvez uma constatação, que as pessoas têm medo de expor as suas fragilidades. Têm medo de as dizer em voz alta ou mesmo em surdina ao ouvido de uma pessoa querida. Têm medo de muitas coisas e mais medo têm ainda de dizerem que têm medo delas, como se não dizendo, o medo se consumisse a ele próprio, desaparecesse, como se nunca tivesse existido. O dizer, em voz alta ou em surdina, é evocá-lo. É torná-lo presente, demasiado presente, porque pode ser repetido. E mais uma vez, evocado. Outra vez, evocado. E se redobrasse. E se tornasse maior, maior ainda. Ao ponto de ser insuportável. E torna-se ruído. E os ouvidos, os nossos próprios ouvidos, deixam de ouvir. E tapamos as orelhas, abanamos a cabeça e negamo-lo. Para sempre, fechado em nós. Imagino tudo isto.
Mas eu falo demais. Não me contenho e exponho-me no meu lado mais frágil. Não vejo mal algum e cada vez mais acredito que é algo fantástico! Penso que aconteça o mesmo com a intimidade. Como é que pode existir intimidade, quando não conhecemos os medos da outra pessoa? Quando ela se cala. E consente. Sim, o ditado, neste caso, também vale... Lembro-me de Louise e como aprendi tanto com ela sobre o medo e este medo que agora também sinto, que Louise sempre sentiu, de não conseguir dizê-lo, porque cada vez mais as pessoas não o dizem e cada vez mais não o ouvem. Fica o eco. Que depressa se desfaz. Pensamos que algumas pessoas não nos são íntimas e ficamos deslumbrados quando partilham connosco uma experiência que os torna frágeis aos nossos olhos, aos nossos ouvidos. Eu, fico radiante! Os meus olhos transparecem o que dificilmente outras partes do corpo conseguem dizer. Para mim, é intimidade. E entre nós, uma distância enorme. Um silêncio profundo. Como na partilha de uma dor, de um pesar. Mas, depois... Depois, há sempre um medo que se perde. Ou vai desaparecendo aos poucos...
Noutra fase, ressurge com toda a sua força incalculável. Trememos uma vez mais, maltratamo-nos, vacilamos, fugimos (ou pensamos em fugir, só queremos fugir!). Somos frágeis e daí? Não precisamos de não o ser.

Domingo, Maio 20, 2007

Cidade recriada: a legenda

Depois das imagens, o pequeno texto. Ultimamente, as minhas palavras repetem-se como se eu me repetisse também. O pior, é que não tenho desculpa alguma para essa repetição e sinto mesmo que ando a repetir-me. Por outras palavras: ultimamente, não sinto evolução alguma em mim e nas minhas palavras. E como dependo delas! Comecei há alguns dias a escrever o texto da estrutura da minha tese. Tenho ideias muito claras, a estrutura do próprio texto ordenada ponto por ponto, mas não consigo escrever o quer que seja. Ou o que escrevo, sai forçado, sem fluidez, sem sentido. Como se eu me perdesse por todas as palavras, por todas as sílabas, as letras, os pontos finais. Mas não era sobre esta minha dificuldade que queria escrever, mas sobre o concerto dos Bloc Party. E, de certeza que vou repetir alguns adjectivos, daqueles que digo sempre que deliro com algum concerto. Já me haviam dito que os Bloc Party ao vivo tinham uma força estrondosa e foi, de facto, extraordinário sentir o pequeno espaço do coliseu completamente cheio de pessoas aos saltos, em simultâneo, como uma avalanche difícil de segurar. O suor escorria pelas costas de cada um. O cabelo molhado junto ao pescoço. Um calor insuportável. Mas era impossível parar, impossível não saltar. Era uma força efectiva que se sentia, uma força inexplicável, que vinha, não só da música, como também não vinha apenas da plateia, mas de um acontecimento único, gerado entre as duas, preciso daquele momento. Existia, também, a acentuar, um conjunto enigmático de luzes. Por vezes, serpenteadas. Outras vezes, altas, enormes, fixas. Outras, divertidas, a correr de uma ponta para a outra, em gestos simulados. Flashes rápidos, colorações distintas, abruptas e cada vez mais rápidas, velozes, estonteantes.
Entristece-me. Ultimamente, não assisto a grandes concertos. Ouço grandes bandas a tocar ao vivo (extraordinárias!), mas tenho algumas saudades daqueles concertos em que existe uma perfeita combinação entre cenário, luzes, adereços, a roupa dos artistas, as suas expressões (enfim, toda uma mise-en-scène). O último deste género a que assisti deve ter sido o da Björk no Meco (e que fora igual ao do Sònar nesse ano) e já lá vão alguns anos. O concerto dos Bloc Party espantou-me, também, por isso. O esquema, inicialmente enigmático, era relativamente simples, se prestássemos atenção. Mas a reacção era imediata, não existia tempo para perceber o que é que acabara de acontecer, apenas a ideia de uma pequena cidade lá ao fundo. Sem realismo, sem figuração, sem narração (as músicas encarregavam-se disso). Ou saída de uma bd mais abstracta e com um toque de diversão.

Cidade recriada




Quarta-feira, Maio 16, 2007

Another place, another city

Marion, no início de Another Woman (Woody Allen, 1988), conta que arrendou um pequeno apartamento em Downtown, para escrever o seu novo livro. Escrevia sempre em casa, mas, com o barulho de obras vizinhas, tornou-se impossível fazê-lo. "Um novo livro é sempre um projecto absorvente e requer que eu me isole a sério de tudo o que não seja trabalho," diz-nos. Eu, eu só consigo escrever em Coimbra, em casa, no sótão. Este é o meu apartamento em Downtown. Quando estou em Lisboa, quase não consigo escrever ou o que escrevo nunca utilizo, apago, rescrevo, fica esquecido sob o nome de um qualquer ficheiro. Quando explico isto, são poucas as pessoas que o compreendem. Não é só pelo silêncio que necessito quando escrevo (embora este seja sempre um dos meus mecanismos preferidos para começar a escrever; começar, porque, depois, se a escrita fluiu, não ouço absolutamente nada a não ser a minha própria voz; sim, quando escrevo, ouço-me a falar e é sempre difícil acompanhar-me...), mas, sobretudo, pelo espaço. Existem pessoas que conseguem escrever num café, num jardim, à beira-mar... eu não. E, também, não é um espaço qualquer. Faltam-me as fotografias, a minha orquídea lilás e branca, os livros, o amontoado de livros em cima da mesa.
Há alguns meses atrás, comecei à procura de casa em Lisboa. Com o início desta nova fase, tornou-se fundamental ter, também, um espaço meu em Lisboa, para conseguir escrever. Os meus pais e eu vimos alguns apartamentos e confesso que em alguns me imaginei a viver, a passar os dias, a escrever, a receber os meus amigos. A Ana brincava comigo. Depois de tanto tempo a dizer que não ia conseguir sair de Coimbra para viver noutra cidade, andava à procura de casa em Lisboa. E dizia-me com um sorriso que lhe é único: "Ainda te mudas de vez para Lisboa!" Ao que eu respondia, prontamente: "Não, isso não! Passar aqui metade da semana, tudo bem; mas, a semana toda, não conseguia!" Mas, hoje, reparo que só estou em Coimbra, porque é aqui que escrevo (às vezes, estou em Lisboa com uma vontade enorme de voltar para Coimbra só para poder escrever), é aqui que eu consigo ter um ritmo de escrita (um ritmo que nada tem a ver com cadência, porque não sou nada disciplinada em relação à minha escrita), é aqui que eu tenho os mecanismos de que necessito para escrever (a meio da tarde ou ao início ou ao fim, saio e vou dar uma volta a pé, sem perder muito tempo, por exemplo), é aqui que está a minha mãe, que atura incondicionalmente as minhas birras, os meus desalentos, as minhas frustrações à procura das palavras certas, do ritmo perfeito. Em Lisboa, acontece-me, exactamente, o contrário. Não consigo escrever, a minha cabeça dispersa-se por mil e uma coisas, só penso em andar de um lado para o outro, sair, dançar! Se fosse para Lisboa, de vez, como a Ana apregoa, teria de reinventar Lisboa. E o mesmo aconteceria em Coimbra. Cada vez mais, acredito que temos de reinventar as nossas cidades, os nossos espaços quotidianos. Eu adoro este ritmo, a minha vivência, quase errante, entre duas cidades. Mas, no momento em que eu tiver de parar (talvez brevemente...), terei de as reinventar. E por que não fazê-lo sempre?

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Quinta-feira, Maio 03, 2007

A harpa dourada

Foi quase uma experiência etérea. A sombra parecia a silhueta de um desses estranhos seres. Os dedos desfigurados, desproporcionados, extremamente compridos, como os dos fetos em início de desenvolvimento. Os gestos inquietos, como se quisessem tocar, com todos os poros da superfície da pele, o intocável. Como diz Mr. Z.: "Num segundo, estamos lá". É incrível, o poder da música. Raramente, consegui abrir os olhos. Uma força maior empurrava-me para aquela que foi uma das experiências mais extraordinárias em concertos. De olhos fechados, parecia flutuar (e o verbo parecer é, aqui, demasiado ingrato e, no entanto, não poderei dizer flutuar...).
A imagem é estranha. Uma rapariga, de aspecto frágil, segura, no seu ombro, uma enorme harpa dourada. A harpa não é um instrumento leve e, no entanto, o som que dela sai só conhece a leveza. Talvez não seja apenas o som que encanta (nem a estranheza que também seduz), mas os movimentos das mãos que tocam a harpa e fazem nascer esses estranhos e leves sons. Na sombra, os movimentos das mãos parecem irreais, impossíveis para um corpo banal. Com nenhum outro instrumento, os movimentos das mãos atingem esta beleza e leveza. Nem mesmo com o piano. E, se recordarmos, facilmente virão, à nossa cabeça, imagens filmadas de mãos a tocar piano, num momento em que as mãos atingem uma beleza superior, como se só elas conhecessem a música, como se elas fossem a música que tocam. Mas creio que não igualam a beleza dos movimentos das mãos que tocam harpa.
Já algum tempo que ando a pensar nos concertos a que assisti e assisto (no sentido que recordo frequentemente os que já assisti e penso nos que assistirei ainda). Por exemplo: os concertos dos Pixies. Os Pixies, praticamente, não falam. Não interagem com o público (como muitos repararão). Mas os seus concertos são únicos, extraordinários! Quando sobem ao palco, os primeiros são os últimos acordes. Não param. Não pensam. O ritmo é crescente. De canção para canção, o som é mais forte, o ritmo mais veloz, até atingir o auge. E aí, o concerto termina. O público vê-se aflito para pedir mais uma canção, de tão estonteante que fora tudo até àquele momento. O corpo parece rebentar (o mesmo problema de há pouco com o verbo parecer). Já é tradição ver os concertos dos Pixies com o Gonçalo e acontece sempre a mesma coisa. Os nossos pés mal tocam o chão.
O exemplo contrário pode ser o de um concerto recente, o dos Scissor Sisters. Uma perfeita mise-en-scène seria de esperar. Mas, o que torna este concerto tão especial, é a caracterização de duas personagens, que se desdobram em palco, continua e crescentemente. Mesmo que existam muito próximas do que são (Jake: "Beside the lady I am, another lady... miss Ana Matronic!" E o público ri e aplaude!), esse desdobramento é claramente perceptível e os sucessivos passos rigorosamente estudados, como as entradas e as saídas de palco ou as mudas de roupa. E a ligá-los, precisos diálogos, aparentemente espontâneos, que levam o público ao delírio.
Guardo momentos muito especiais de alguns concertos: a chuva de balões prateados no final do concerto dos Pulp no primeiro aniversário do Razzmatazz; dançar em palco com os Kings of Convenience e com a plateia quase inteira da Aula Magna a saltar e a cantar "I'd rather dance than talk with you..."; o meu estado febril no concerto dos Fischerspooner, que me impediu de estar na primeira fila, mas não me impediu de dançar; o meu primeiro concerto dos Divine Comedy, no fim do qual conheci o Neil Hannon e pude constatar que ele é mais ou menos da minha altura... Bons momentos... E que frustração não poder ir a todos os concertos que gostaria.

Sábado, Abril 28, 2007

Contradição 2


Logo a seguir: grande concerto! Que saudades tinha de dançar assim...

Contradição 1

Para contradizer parte do que disse no post anterior (e ainda bem!).

Ontem, quando cheguei a Lisboa, depois de passar pela Nova, fui directa a casa, onde me pus a escrever o dito post. Havia combinado jantar com o João no Nood e, mal dou por mim, atrasadíssima, saí de casa, a correr. Quando chego ao largo de Camões, já perto das oito da noite, qual o meu espanto, quando o vejo com relva. Relva! Desatei a rir. Era fantástico! Aquela bem poderia ter sido uma proposta para os "Vazios urbanos", pensei. A simplicidade de uma solução mostra como, às vezes, é tão fácil injectar um novo fôlego na cidade. Estacionei o carro e subi as escadas a correr. O João à minha espera, pensava, mas não podia deixar passar aquele momento. A preciosa máquina digital. Clic! Um casal de namorados deitado entrelaçado, um grupo de amigos a fazer um piquenique urbano (como a D. se lembraria, mal visse ali o relvado e eu, fã incondicional desta prática, apoiaria num ápice; os piqueniques fazem sempre bem), imensas pessoas simplesmente ali, sentadas, a conversar, à espera de alguém. Mas não era o número de pessoas (já encontrei o largo de Camões com mais pessoas), era a forma como elas estavam a ocupar o espaço, as suas expressões, a posição dos seus corpos descontraídos, os gestos, que me seduziram.

Contou-me o João, depois, que foi uma proposta do c.e.m. (http://www.c-e-m.org/)

Sexta-feira, Abril 27, 2007

Mais do que nunca

“We know a place where no planes go
We know a place where no ships go.”

“I will never know the names
of these places that I travel through
to reach the coastline –
I’ve been told I will be there in time.
Please oceancloud,
Let there be no storm on the crossing below.”


Mais do que nunca, preciso de sair daqui (de Coimbra, de Lisboa, das ruas que conheço, do país...). Como desejava ser como Deleuze, viajar sem sair do lugar! Não pela mesma razão, porque eu, ao contrário de Deleuze, adoro viajar, mas porque necessito de viajar como uma droga. E, neste aspecto, penso em Deleuze, também: “A droga faz por vezes delirar – por que não delirarei eu sobre a droga?”. Creio que esta minha vontade vem crescendo com o meu cansaço. Até há algum tempo, tive prazos muito rigorosos de entregas de trabalhos, reuniões, defesas, etc. Tinha umas coisas a seguir às outras, como se costuma dizer. Depois da defesa do meu último trabalho de seminário, entrei nesta nova fase. Sem prazos, ou com prazos mais flexíveis, posso gerir o meu tempo de outra forma. Mas estou a detestar. Creio que é desde o Verão que não paro, portanto esta nova fase deveria ser benéfica. Deveria parar a minha cabeça (embora a estrutura da tese de Doutoramento seja urgente e tudo seja urgente) e deixar de pensar durante uns dias. Pegar numa pequena mala e ir passar esses dias a qualquer lado. Vinha hoje na viagem para Lisboa a pensar nisso e como, mais ou menos por esta altura, no ano passado, fiz isso, embora tivesse mesmo de o fazer e tivesse levado o computador atrás. Já escrevi aqui muitas vezes sobre viajar. O que significa viajar e por que é tão importante para mim viajar. Tão importante, que a minha tese de Doutoramento é uma viagem. Depois de perder o Prémio Fernando Távora, escrevi ao José a dizer que, mesmo sem prémio, a minha viagem iria concretizar-se, porque ela é a minha tese. E coloquei, propositadamente, “é” em itálico no e-mail para o José. Salvaguardado (pelo itálico) o meu sempre exagerado entusiasmo, o José compreende, como ninguém, a minha afirmação. E não é só por ser o meu orientador e já me conhecer bem, mas porque aquela viagem me permitirá desvelar segredos profundos... que não descobrirei, se não sair daqui.
Mas a razão por que necessito mais do que nunca de sair daqui é, como dizia hoje ao Gonçalo, a de precisar de delirar. Sinto falta de delirar. Tenho delirado pouco. Não é patetice ou exagero (a maior parte dos meus amigos oscila entre estas duas opiniões pelas minhas posições extremas, em relação às minhas práticas). Estou num profundo impasse. A planear a estrutura da tese, a escrever dois artigos, que já há muito deveria ter escrito e graças à paciência de generosos amigos ainda não os escrevi, a fazer um concurso e... não me sinto dentro de mim. Ultimamente, não tenho delirado, porque não tenho sentido a minha cabeça a delirar. É sob essa condição que eu consigo escrever, consigo desenhar, consigo pensar no que há de mais importante nas variadíssimas ideias que projecto para a tese. Atribuo esta minha incapacidade a várias coisas. Primeiro, a ausência de prazos rigorosos faz-me derivar no tempo. Se, ao menos, fosse no espaço! Segundo, a ausência de grandes acontecimentos: concertos, festas, mais concertos, mais festas! Terceiro, a minha mobilidade: as viagens entre Coimbra e Lisboa já não me satisfazem.
Hoje de manhã, o Eduardo perguntava-me por que é que eu ontem estava tão desanimada. Limitei-me a dizer-lhe que estava em dia-não. Todos temos dias-não e eu também e não vejo problema algum nisso. As razões do meu desânimo são exactamente estas que acabei de escrever. O impasse em que me encontro e em que tudo o que estou a fazer se encontra. De uma forma mais simples: falta-me força. Preciso, mais do que nunca, de um sítio distante, de uma linha de um oceano, de uma vista de um avião. Do sol rasante, de andar à deriva de sapatilhas.

Domingo, Março 25, 2007

Coincidências


(As fotografias foram tiradas pelo João, a partir do telemóvel).

A última surpresa. Dobro a esquina, de passo calmo e solto uma gargalhada. Num céu azul, como o de Nova Iorque? (Louise iria gostar que fosse o azul do céu de Nova Iorque e não o azul, que não é azul, mas cinzento do céu de Paris), chez Louise. chez Louise. Em cima. chez Marcelle. Em baixo. Numa moldura ao alto, a partir de uma outra moldura, de uma janela qualquer. A assinatura inconfundível de António Olaio. A cor. As letras. Não consigo lembrar-me da data. Mas do quadro, sim. Serão Louise e Marcelle, Louise Bourgeois e Marcel Duchamp? Tendo em conta, por exemplo, o que Louise dizia de Marcel... Há enigmas que podem ficar por resolver (que devem ficar por resolver em alguém, porque é inevitável no instante que se segue, construir uma história sobre Louise e Marcel), no entanto, gosto de pensar que Louise é a minha Louise e que naquele quadro de António Olaio escapa, por entre uma janela, uma visão de Louise, tão extraordinária Louise é e a sua capacidade de nos afectar, pelo que nos damos a ela, à sua obra. À sua casa, também. Era esse o sentido de quando escrevi chez Louise. Curiosamente, no título de um dos livros de António Olaio pode ler-se chez Marcel Duchamp. Como diz o próprio Olaio, existem "coincidências engraçadas, coisas que acontecem e que assimilamos nas nossas ficções." De vez em quando, gosto de pensar o contrário, como respondi, um dia, à minha mãe, sobre a escolha dos nomes das personagens de um texto. "Não fui eu quem os escolheu. Eles é que me escolheram a mim." Apareceram, enquanto, eu, por acaso, escrevia. E, mesmo que lhes consiga conhecer o rasto, existe essa coincidência alienável, a razão pela qual apareceram naquele preciso momento em que os escrevia sem pensar. Sem os procurar.
A verdade é que adoro coincidências. Não lhes atribuo muita importância, nem penso nelas exaustiva repetidamente, como se fossem prenúncios, sinais, acasos do destino fatal. Mas divertem-me! Divertem-me imenso. E quando as coincidências se aliam ao movimento repetitivo da história, da minha também, mais graça lhes acho. Um dia destes, explicava à minha mãe como várias coisas, que admiro há anos e anos, coisas que me emocionavam de forma inexplicável, um sentido abrupto, uma força estranha e desmedida, têm retornado a mim. Com um carácter diferente, mas sem perder encanto algum. Ultimamente, tem sido constante. chez Louise, numa tela de António Olaio, é apenas um desses exemplos. Aliás, chez Louise, antes de existir, já se escrevia em mim como o meu reencontro com Louise Bourgeois. Dessa conversa com a minha mãe, fui procurar uma reportagem que havia guardado sobre uma exposição de Louise. 1995. A reportagem era de 1995. De 1996, o postal dos Encontros de Fotografia. Outro momento: o encontro com José Manuel Rodrigues. Foi a partir dos Encontros de Fotografia que também conheci Alfredo Jaar. E, na Terça-feira passada, eis que o vejo no pequeno auditório do CCB. Imaginava-o mais velho. No meu colo, tinha o livro dos "Estudos sobre a Felicidade," que Jaar compôs de 1979 a 1981, em Santiago do Chile. Tinha eu, um ano, dois, três. Das aulas de Molder, recordo muitas coisas. E não preciso de me esforçar um pouco sequer para determinados momentos surgirem no meu pensamento com toda a força com que embateram em mim pela primeira vez. Num, Molder dizia como tudo o que é importante para nós, vem ter connosco, sem o procurarmos. O que é verdadeiramente importante para nós, encontramo-lo espontaneamente e, nesse mesmo momento, reconhecemo-nos no que encontramos. Sem contágio de opiniões. Molder explicava como nós descobrimos os objectos do nosso desejo, do nosso estudo, sem irmos atrás do que ouvimos a alguém dizer que aquele fulano é muito bom e por aí fora. E esse encontro é mágico! Só nosso. As coincidências são mágicas, também. Conseguem despertar a impossibilidade.

Outras coincidências: [A preencher]























Sexta-feira, Março 02, 2007

José Manuel Rodrigues

Alentejo Sagrado, José Manuel Rodrigues (imagem a partir de um postal dos Encontros de Fotografia de 1996).

Desde Terça-feira que andava com uma vontade enorme de escrever sobre os três dias que passei com o José Manuel Rodrigues. Vinha de Lisboa e só queria chegar a casa e procurar o conjunto de postais dos Encontros de Fotografia de 1996, para confirmar se algum era de uma fotografia do José Manuel Rodrigues. E era. A minha memória, também. O postal correspondia à minha memória das fotografias do José Manuel Rodrigues. Com os Encontros de Fotografia, construí muitas das referências que ainda hoje persigo. A minha paixão por Alfredo Jaar, por exemplo. Os Encontros eram uma espécie de instituição na cidade e, quando passaram a ser de dois em dois anos, foi um choque. Todos os anos, por exemplo, ia, pela escola (Avelar Brotero), ver as exposições dos Encontros, de tal forma que estavam enraizados na vida da cidade.
O José Manuel Rodrigues pertencia, até este Domingo, a essa memória e a todo o fascínio que ainda sinto pelos Encontros (talvez agora com alguma nostalgia e não gosto da palavra). Jamais poderia imaginar todos os momentos em que o acompanhei. Jamais poderia imaginar a sua humildade, a sua simplicidade. A forma como olha pela câmara. Observava-o, por vezes, de longe (não queria interferir de modo algum com a sua concentração, embora, muitas vezes, sucumbisse ao desejo de lhe falar sobre tantas coisas, tantas coisas que, afinal, viríamos a partilhar) a espreitar pela câmara, de olhar posto naquele ponto que me disse "depois parece flutuar." A sua silhueta ao longe, pela forma peculiar de se colocar atrás da câmara, lembrava-me, por exemplo, Tati. Mas sem o jeito desconcertado e em vez da bengala, o tripé. Do cachimbo, os óculos. O jeito, o mesmo. Qualquer coisa comum, que não se exprime em palavras. Como as suas fotografias.
Falámos sobre muitas coisas e estou-lhe imensamente grata pelo que aprendi. Falámos, por exemplo, sobre a fotografia de obras de arquitectura. Existe, na obra do José Manuel Rodrigues, uma clara distinção entre fotografia artística (à falta de uma designação minha melhor) e fotografia de obras de arquitectura. O objectivo desta última é, necessariamente, criar um registo de uma determinada obra de arquitectura, sem criar uma fronteira entre a realidade e a fabricação de uma imagem (o uso da imaginação), porque essa fotografia é a apresentação dessa realidade. Num determinado momento, o José Manuel Rodrigues exclamou: "Bem, já estou a fabricar um espaço que não existe!" "É, exactamente, isso!", exclamei de alegria. Para mim, a fotografia de uma obra de arquitectura não deve apenas apresentar essa obra. Fotografia e arquitectura são duas coisas distintas, mas há um momento em que as duas podem construir uma visão nova sobre uma determinada realidade. E, no caso a que José Manuel Rodrigues se referia, não existia sequer manipulação da realidade (que é possível, mesmo antes da manipulação pela fotografia). Essa nova visão é tão mais extraordinária, quanto o olho que a constrói. E esse é o do José Manuel Rodrigues. É o olho do fotógrafo (e não o do arquitecto). Num outro momento, enquanto procurava o "tal ponto," o José Manuel Rodrigues chamou-me a atenção para uma determinada característica do espaço e como esta, nessa procura do ponto preciso, precioso, se revelava. Benjamin diria que aquela fotografia acabara de revelar o inconsciente da realidade e a sua descoberta, como o próprio José Manuel Rodrigues, entretanto, acrescentara, só fora possível através da câmara. Do olho mecânico. É essa a beleza da fotografia. O olho do José Manuel Rodrigues funde-se, totalmente, com o olho mecânico da sua Canon, numa relação íntima indescritível. Jamais o esquecerei.

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

O dom

Ando a escrever menos, mas sem alguma razão em especial. Apenas falta de tempo. No entanto, nos últimos dias voltei a pensar na minha relação com as palavras e com o que escrevo. E antes, na relação das outras pessoas com as suas palavras. Ou quando lemos alguma coisa de alguém, começamos a ler essa pessoa, também. Não quero com isto dizer que percebemos melhor ou começamos a compreender essa pessoa. Não! Quero dizer que ao ler, leio a pessoa, que nas palavras estão inscritos os seus gestos mais subtis. Um pequeno ressalto e vemo-la a corar ou a sorrir timidamente. Umas reticências e vemo-la a vacilar ou sentimo-la perturbada, por entre o ritmo apressado das frases. Nestes dias, aproveitei para me pôr a par do que algumas pessoas têm escrito. A falta de tempo, infelizmente, também afecta a leitura. No primeiro caso, fiquei agoniada. Aquela agonia que precede uma terrível náusea, sem se chegar a vomitar. Como, como é que aquelas palavras que acabara de ler me causem tal sensação? Escrevi, com um sufoco incomensurável na garganta: "Às vezes, dá vontade de escrever não mais uma palavra. Ficar calada. Para sempre. Porque o uso que lhes encontro por vezes, é não mais aquele que amo. E sinto que não as saberei usar uma vez mais. Um arrepio percorre o meu corpo, quando não lhes reconheço a doçura, mas o grito amargo dos que teimam em as usar, para quê? Às vezes, dá vontade de nada escrever." Poderia ser a agonia não a minha, mas a de quem a escrevera? Seria quase sublime. O curioso é que a agonia que senti nas palavras que lia é muito idêntica àquela que por vezes sinto quando estou com quem as escrevera. Prefiro a outra opção. Que essa pessoa escreve cada vez melhor ao ponto de escrever a agonia. E não é a sua agonia, mas a agonia que todos sentimos quando a lemos. No segundo caso, fiquei com vontade de abraçar quem estava a ler. Abraçar aquele olhar. Os olhos azuis que sorriem sempre que vêem qualquer coisa, mesmo que a face diga o contrário e as sobrancelhas se franzam. E não é só o olhar, mas os gestos que são únicos, insubstituíveis e, no entanto, qualquer pessoa que os leia, reconhece-os como sendo daquela pessoa que nem sequer conhece. Uma diferença se salientou de tudo quanto já havia lido dessa mesma pessoa: a simplicidade. Neste momento, está a escrever de uma forma muito mais simples: abandonou as frases complexas, as perguntas retóricas, o sarcasmo intelectual... A escrita flui como se estivesse a falar comigo. E tem aquele tom de voz suave que nunca se mostra exaltado. A voz. Porque a pessoa que vive nela, está constantemente a exaltar-se. Ou a pensar, a questionar todas as coisas que vê. Recuperei todo o meu amor pelas palavras. No terceiro e último caso, deparei com a minha própria experiência. Apesar de todos os medos que atravesso sempre que escrevo, mas sem os quais não conseguiria escrever, reconheci ontem, perante a terrível angústia de não conseguir resolver um problema num projecto de arquitectura, que a escrita era o meu dom. Nem bom, nem mau. Não atribuo à palavra dom um valor e, neste aspecto, aprendi muito com Louise e Corbu. Os dons tanto podem transformar-se em coisas excepcionais, como não... e, no último caso, é a própria pessoa que se deteriora também. Por uns momentos, pensei em desistir. Sou muito mais persistente, quando escrevo. É verdade que também me lêem quando escrevo. Lêem a persistência que é a minha nas voltas que dou, que dou, para regressar ao mesmo.

Domingo, Fevereiro 11, 2007

The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known

(Foi na noite de 17 de Dezembro de 2004, na Aula Magna...)

Nos últimos dias, pensava eu que andava sobreestimulada. A quantidade de coisas que queria fazer, o tempo que parecia escasso para as fazer, a dificuldade em adormecer, o acordar muito antes do sol raiar. Chegara a um limite, ainda que diferente daquele há um ano atrás, sentia uma estranha energia a fluir que me impedia de estar quieta por muito tempo. Andar aos saltinhos, como me costumavam dizer. Voltara a andar aos saltinhos. Mais coisas, outras mais ainda, tudo, tudo o que pudesse aguentar. A única coisa que me assustava era não conseguir dormir o número de horas que necessito (e o meu corpo pede-o sempre). Neste ponto, inventara uma técnica para adormecer. Concentrava-me num buraco negro, negro, sem fundo, que se revolvia em si mesmo numa espiral. A imagem não era estática, mas era totalmente negra. Como perceber o movimento de algo, de alguma coisa, num fundo negro? Porque a imagem negra, também, não era suficiente. Decerto, anulava quaisquer imagens que eu nela pudesse projectar, todas as frases que passavam à frente dos meus olhos, num écran transparente, sem limites, ou apenas aqueles do barulho dos meus dedos, da sua velocidade, da velocidade das palavras. Tudo desaparecia. Todas as imagens, todos os pensamentos. Só um fundo negro permanecia. Mas e o movimento? Como perceber um movimento num fundo negro? Um movimento sobre o branco tem sempre aquele efeito da beleza de uma luz inexplicável que irradia da própria cor. Mas o preto, também, pode irradiar luz. É mais difícil, mas talvez por isso mesmo, seja mais belo, mais estranho e sedutor quando existe dessa forma. O movimento era uma espiral. Concentrava-me na espiral e mergulhava lentamente no buraco negro, negro, negro... Resultava, é tudo o que ainda sei dizer. Resultava.
Este fim de semana sucumbi. Qualquer coisa superior a mim, obrigou-me a pousar, a sentar no sofá. Não foi o cansaço, foi outra coisa que me atingiu naquele ponto certo do meu sistema nervoso de forma a imobilizar-me. Compreendi, então, tudo o que me acontecera nos últimos dias. O sono voltou. Mas aquele sono que impede as palavras de saírem, que aprisiona os sonhos. Aquela inércia melancólica, irritante, que abusa do corpo. Uma recaída? Poderei pensar e atribuir-lhe um qualquer outro significado. Depressa recupero. É fantástica a elasticidade do corpo. Também, só ao meu corpo físico atribuo o que me aconteceu nos últimos dias: às minhas pernas, aos meus braços, à minha clavícula, que não sei por que razão me dói. Ouvir o último álbum do Jay Jay tem, também, efeitos perversos. Contava-me o José que um perverso é aquele que faz tudo para voltar ao mesmo. O último álbum do Jay Jay tem esse efeito e não creio que seja só em mim. Também não creio que seja apenas pela forma como canta anymoreeee... Um outro efeito, no entanto, permitiu-me recuperar a agudez dos sentidos. O título. O título do último álbum do Jay Jay é a pergunta que faço sempre que penso na minha tese. Ou melhor é esse o tema da minha tese, essa pergunta que tem ainda uma resposta incógnita, estranhamente misteriosa, e que depende da identificação dos efeitos físicos que qualquer coisa tem em nós. Determiná-los um a um. Conhecer-lhes os seus poderes. Como aquela qualquer coisa que me atingiu e imobilizou durante o fim de semana. O porquê até posso saber ou, pelo menos, suspeitar. Aliás, não tenho dúvidas. Mas o que aconteceu entre essa razão e o efeito que teve em mim é mais complicado e aí reside o seu poder imenso de me poder atingir, de me afectar de tal forma, que ainda hoje, que já escrevo, duvido de mim. A conversa com o José, na Quarta-feira, foi, como sempre, avassaladora. Soube que tenho três anos para entregar a tese e a responsabilidade enorme de corresponder às expectativas do José. E tudo, na minha cabeça, ainda não passa de um grande sonho. E tudo o que eu quero é não adormecer.

Cores Mágicas

Eu posso garantir os efeitos das cores mágicas da Ana e da Dori... Estão à venda, também, na Fermento (em Lisboa) e na Artimanha (em Castelo Branco).

Domingo, Janeiro 21, 2007

O último número da colecção

Da esquerda para a direita: As Medi(t)ações de Beatriz, com Beatriz Colomina na capa, A Casa de Josephine, com a imagem da maqueta da casa de Josephine Baker de Adolf Loos e Gilles Deleuze e Chez Louise, com Louise Bourgeois e Le Corbusier em Articulated Lair (obra de Louise Bourgeois de 1986).

Chez Louise, afinal, é o último número da minha colecção. Quando o entreguei a Molder, perante o seu espanto, contei-lhe que a sua apresentação em muito se devia à ideia de uma colecção (para vários amigos, que gostam de ler os meus trabalhos). Pensei, desde o primeiro trabalho - As Medi(t)ações de Beatriz - fazer uma pequena colecção com os vários trabalhos, cuja apresentação seria, então, idêntica. A capa reduz-se a uma imagem do trabalho, uma antevisão das páginas que se seguem e o título aparece na contracapa, de fundo negro. Um dia destes, encontrei o Paulo Varela Gomes e, por acaso, tinha os dois primeiros trabalhos comigo. Este, no meio de uma gargalhada, exclamou que a "marca" do darq (Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra) até estava presente na Nova! Sorri e, na altura, contive a minha reacção (talvez pelo respeito que tenho ao PVG). De facto, a "marca" do darq é a aparência. Ao longo do meu curso, debati-me, por várias vezes, com esse excesso de relevância da aparência das coisas. E, no fim, por ironia ou não, caía no mesmo erro. Lembro-me da minha apresentação de Projecto V. Quando andava ocupada a pensar em como seria, falei com o Rui sobre a minha ideia. Este virou-se para mim e disse-me: "Susana, isso é uma imagem, também. Mais forte, ainda, do que se fizesses 3D's." A minha preocupação começava, sempre, com uma espécie de revolta e, depois, apaixonava-me pela mecânica das próprias ideias e sucumbia, completamente, ao seu fascínio. Aí, já não podia deixar de fazer coisas bonitas (pelo menos, para mim ou, em primeiro, para mim). É um resultado de um empenho, sem dúvida. Mas é, sobretudo, o resultado de uma paixão e um prazer enormes.
Com Chez Louise, terminei os meus trabalhos no âmbito dos seminários de mestrado e, como último que é, condensa aquela memória de tudo que acaba e, se fosse possível, se gostava de prolongar. Os dias que passei com os meus trabalhos foram absolutamente fantásticos. Chez Louise tem, além de tudo o quanto aprendi, mesmo a angústia da escrita, impressa em muitas das suas palavras, um significado acrescido. Quando a minha mãe corrigiu Chez Louise (como faz sempre), mais ou menos a meio, segredou-me que o meu pai o deveria ler, também. Acrescentei que todas as pessoas deveriam ler o livro de Louise, pois não só mostra a mulher fantástica, extraordinária, que é, mas porque se aprende muito sobre a vida. E chegamos, mesmo, a prevenir erros, a conhecermo-nos melhor a nós próprios, a olhar para tudo de outra forma, sem medo. Ou com aquela dose de medo que faz parte do perigo e do risco. Quando o comecei a trabalhar para este trabalho, à medida que o ia lendo, ia construindo, numas pequenas folhas, uma espécie de índice. Apontava a página e a ideia que determinada passagem salientava. Como o livro era a minha principal ferramenta para a escrita do trabalho e eu me perdia sempre pelas suas páginas (porque quando o começava a ler ao acaso, não conseguia mais parar), o índice ajudava-me a localizar, de forma precisa, a ideia que queria expressar naquele momento. Sobre o corpo, sobre as emoções, sobre o inconsciente, sobre o chá... Na realidade, o índice revelou-se mais do que isso. É um índice de mim. Olho para ele, com uns círculos nas páginas mais importantes e, por vezes, tenho uma necessidade inexplicável de ler o que marquei. Nunca é o mesmo índice. E é inseparável daquele livro. Daquele meu livro. Posso dizer que é dos livros com quem eu passei mais tempo. É, exactamente, desses livros que merecem ser cuidados, levados connosco, colocados junto a nós...
Há alguns meses atrás, disse que ia abandonar, por uns tempos, a casa de Josephine. Estou a preparar o meu regresso. A Casa de Josephine já está em cima do meu estirador, junto aos desenhos que nunca de lá saíram. O tempo que passei na casa de Josephine, embora de diferente matiz do tempo que passei com (o livro de) Louise, ajudou-me a cuidar das minhas ideias sobre Adolf Loos e Deleuze. Se o facto de se ser último de qualquer coisa (o último número da colecção) guarda e perpetua uma memória única (por vezes, dolorosa, até), o regresso permite-nos re-experienciar tudo outra vez, mas sob uma nova visão. O cuidado, por vezes, implica, também, a distância. E, novamente, pézinhos de lã.

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

Histeria

Arco da histeria, Louise Bourgeois
Assumo, desde já, a desconexão das coisas de que falarei. Há momentos em que preciso, simplesmente, de esvaziar a cabeça. Tornar as coisas exteriores, no limite, públicas, para passar à frente.
O meu irmão João disse-me, no outro dia, que tinha achado o meu texto sobre Nova Iorque provinciano. Parecia escrito, dizia-me, por uma rapariguinha que tinha ido visitar a grande cidade e voltado completamente deslumbrada. Acredito que até possa ser esse o "tom" do meu texto. Aliás, acredito que esse é o meu "tom," sempre que falo de algo que me apaixona. Falarei dessa forma, portanto, a maior parte das vezes que falo. Não consigo, sequer, falar doutra forma, porque, também, desejo sempre viver dessa forma. Esconder o que sinto? Nem pensar! O meu entusiasmo é, muitas vezes, exactamente pela forma como falo, mal compreendido. Em relação a Nova Iorque, é muito simples: senti-me tão bem, que me imaginei a viver lá. Que mais poderemos pedir de uma cidade, quando nos imaginamos a viver nela? Dizia, ontem, ao João V. com um sorriso nos lábios: "o meu mal é as pessoas." O João recordou-se logo da minha experiência em Barcelona ou mesmo em Lisboa. Eu, simplesmente, não consigo estar muito tempo afastada das pessoas de quem gosto: da minha família, dos meus amigos. Entristece-me, por exemplo, ultimamente, estar tão poucas vezes com o meu irmão Miguel. Vê-lo ocupado com coisas, que me parecem tão efémeras, quando lembro os nossos almoços no Evaristo. A época, também, não ajuda.
Ainda sobre Nova Iorque e esse estranho sentimento de familiaridade. Definitivamente, não sou a única a senti-lo. Vários amigos me têm perguntado pelas fotografias de Nova Iorque. Inacreditavelmente, não senti necessidade de tirar fotografias. E não é só pelo facto da maior parte das imagens ser já conhecida por todos, mas sim pela minha habituação ao sítio. No momento em que sinto pertencer a um lugar, deixo de sentir necessidade de o fixar em imagens, mais ou menos, perenes. Talvez seja, por essa mesma ideia, mas no sentido contrário, que algumas fotografias de "lugares comuns" (quando digo lugares comuns, penso, também, em cenas comuns, quotidianas) nos inquietem tanto. Claro que esse é um dos grandes poderes da fotografia (defendido, por exemplo, por Benjamin): numa situação familiar, comum, quotidiana, banal, fazer emergir algo de desconhecido, de inconsciente, de extraordinário, que escape por completo aos nossos olhos e, consequentemente, à nossa percepção (ao nosso pensamento). O Eduardo só me dizia: "se fosse eu, andava sempre com a máquina na mão." Essa era a minha vontade, também, mas antes de chegar a Nova Iorque. Curiosamente, as fotografias que tirei são quase todas do primeiro dia, quando a estranheza do "estar realmente ali" ainda me obrigava a uma prova física. Mas, na realidade, nunca me senti estranha na cidade, nem tão-pouco perturbada, por exemplo, pela sua escala. Já em Moscovo, por exemplo, senti o oposto. A escala de Moscovo é igualmente monumental, mas Moscovo é daquelas cidades desenhadas para oprimir os seus habitantes. As ruas são igualmente largas, enormes, a perder de vista, mas desenhadas para controlo dos transeuntes. Se pensarmos bem, as ruas de Moscovo são autênticos sistemas de controlo (muito superiores às ruas de Paris), antes mesmo da chegada das câmaras de vigilância (que, em Moscovo, existem em cada esquina).
Por último, sobre o meu entusiasmo. É o puro reflexo da minha felicidade, da minha paixão pela vida. Não consigo ser de outra forma (a não ser o extremo contrário). Na Quarta-feira, contava ao Martim o meu desejo de fazer voluntariado. O Martim deve ser das pessoas mais calmas, tranquilas, que conheço. Explicava-lhe, então, que gostava muito de fazer voluntariado, mas algo que me desse prazer, para, também, poder dar o meu melhor. O meu entusiasmo é, inevitavelmente, reflexo da paixão com que vivo as coisas. Sei que faço tudo melhor, sei que sou uma pessoa melhor para os outros, quando sinto essa enorme alegria em mim. E como gosto de a sentir! Nem que, por vezes, possa parecer (ser?) histeria.

16 :)

Obrigada, João V.! Adorei!

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

O quintal da Mok

O quintal (no Porto) já abriu e, tenho a certeza, vale a pena visitar. Fica aqui a imagem que a Mok enviou. E o blog: www.blogdoquintal.blogspot.com

Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

KL-KLM 1692-641 | 642-1693

MOMA

Serei capaz?
Direi, nestas primeiras palavras, ser impossível, para mim, escrever sobre Nova Iorque. Ainda não tinha sequer deixado a cidade e já estava cheia de saudades. O primeiro impacto foi horrível. Enfiámo-nos num daqueles shuttles, que levam nove pessoas do JFK até qualquer ponto de Manhattan, com um condutor completamente louco. Qual experiência de taxi em Roma! E os que conhecem a minha condução, sabem que não me assusto facilmente. Depois, Manhattan ao longe não tem aquele impacto de uma grande objectiva a partir de East River. Li, algures numa revista portuguesa, que Hollywood tornou a cidade de Nova Iorque nossa vizinha. De facto, quando andamos nas ruas e em determinados lugares de Nova Iorque, facilmente os reconhecemos de filmes ou de séries de televisão. No entanto, essa familiaridade, que possamos eventualmente sentir, não nos deveria retirar o fôlego, quando nos confrontamos com aquela que é uma das cidades mais bonitas. No dia a seguir, mal acordei, tive essa vontade enorme de desfazer a desilusão da noite anterior. De, simplesmente, esquecer. O que foi difícil, ao caminhar em direcção ao MOMA, fui-me deparando com sacos e sacos amontoados de lixo. Não se via um único contentor, mas inúmeros sacos do lixo, amontoados na rua e dos quais nos tínhamos de desviar. A produção de lixo em Nova Iorque é exactamente proporcional ao número de pessoas que a habita e ao número de pessoas que a visita. E o cheiro da rua aumentava, ainda mais, a sensação de estar dentro de um enorme caixote do lixo ou de uma lixeira a céu aberto. Afinal, era cedo e até parece existir uma justificação para todos aqueles sacos de lixo no chão.

MOMA

MOMA



OMA IN BEIJING @ MOMA
Precisava, urgentemente, de um café. O que um bom pequeno-almoço não faz! Gostaria de neste texto poder oferecer um pequeno mini-guia de Nova Iorque, com todas as experiências e sítios maravilhosos, que pude experimentar e conhecer, que não vêm em guia algum, nem no da Wallpaper*. Redimi-me a Nova Iorque ao pequeno-almoço. Um enorme cesto com vários tipos de pão de cereais de origem biológica – pão de centeio, pão com passas de uva e avelãs, pão com nozes, pão integral, etc. – e com várias compotas. Uma, em especial, deliciosa: praline de avelã. O sítio chama-se Le Pain Quotidien http://www.lepainquotidien.com/. Reconfortada, segunda paragem: MOMA. E qualquer má impressão desapareceu por completo. Rendi-me, pulava de alegria de obra em obra. Não vou descrever o que senti durante aquelas horas em que visitei uma das colecções mais fantásticas de arte moderna e contemporânea, porque é exactamente disso que se trata: de sensações. Nada mais que sensações. A compreensão das palavras de Deleuze, por exemplo, atingem ali o seu grau máximo e a sua aplicabilidade prática. Uma pequena nota: a exposição sobre OMA in Beijing http://www.moma.org/. Muito bem montada e, coisa rara, hoje em dia, em exposições de arquitectura (tenho, aliás, reflectido muito sobre isso), com informação concreta e objectiva. As horas passam a correr. O tempo é, realmente, diferente em Nova Iorque. Como se anda tão bem a pé, julgamos que as coisas são já ali e esquecemos o tempo que demoramos a percorrer a distância de onde estamos até a esse já ali. Estranhamos, pois, que as horas passem tão depressa e que tenhamos feito tão pouco. Certamente, também tem a ver com o desejo louco de querer conhecer tudo. Todos aqueles lugares que povoam a nossa imaginação e que a um virar de esquina se tornam reais. Assim, me deparei com o Seagram building (Mies van der Rohe, 1958). Ainda só vi dois edifícios do Mies e com os dois tive essa enorme surpresa de chegar até eles e ficar suspensa no tempo, naquele preciso instante da intemporalidade de uma obra magnífica. Da experiência em Barcelona, escrevera: "Ontem [6 de Dezembro de 2001], fomos ver, finalmente, o pavilhão do Mies: uma pequena peça num jogo em que a envolvente se impõe pela monumentalidade, pela atrocidade de um espaço expositivo. Ele, pequeno e belo, suspira baixinho um grito de uma geração: os anos vinte, os anos expoente máximo do modernismo, de uma linguagem nova que se dizia daquele tempo. A linguagem é do nosso tempo, que ainda não compreendemos, que estamos constantemente a reinventar com "ismos" e "neos," atrás uns dos outros, quando acreditamos, também, já não ser possível inventar palavras. Talvez porque não existam realmente. Talvez porque este espaço é de transição para um outro, que há-de vir, com novas palavras, com outras linguagens inventadas após tanta saturação." A sensação perante o Seagram building foi absolutamente contrária. Ele, enorme, não suspira baixinho grito algum, mas fala num tom, que só aqueles que reconhecem a sua beleza, o ouvem. Pode ser um edifício igual a tantos outros que o rodeiam e, no entanto, é único. Compreender a sua beleza, a sua leveza, as suas proporções, o desenho cuidado do pormenor, a subtileza dos materiais... enfim, compreendê-lo como único que é, é compreender como é que a arquitectura é e pode ser de "cortar a respiração." Era noite e regressávamos a "casa." Não fui capaz de abandonar Nova Iorque sem regressar uma vez mais ao Seagram building. Precisava de o ver durante o dia. No Domingo de manhã, saí com essa ideia na cabeça. Tirei mais algumas fotografias e entrei. O porteiro, extremamente simpático, dirigiu-se a mim, perguntando-me o que é que eu estava ali a fazer. Alfred, era o seu nome, ou Al, como gostava que o tratassem, explicou-me que a linha dos visitantes era aquela que estava demarcada com a fita preta e que eu não poderia passar para além dela. No entanto, iria abrir uma excepção. Deixar-me-ia ver todo o rés-do-chão e... o elevador! Com a condição que teria de carregar continuamente no botão para abrir a porta, de modo a não escapar para os pisos de cima. Para mim, já foi extraordinário ver aquele elevador (e pelo que confirmei depois, foi uma experiência rara, pelo que só tenho a agradecer a Al).



SEAGRAM BUILDING
Uma das experiências mais fantásticas estava reservada para essa tarde de Domingo: visitar Louise Bourgeois. O título do meu trabalho sobre Louise iria concretizar-se e, dessa forma, adquirir toda uma nova dimensão. Iria encontrar o seu destino ali. Chegámos às quinze horas e cinco minutos. Brigitte, a assistente de Louise, abre-nos a porta e diz-nos para colocarmos os casacos em qualquer lugar, enquanto se dirige para a rapariga que entrava ao mesmo tempo que nós, dizendo que Jerry [Gorovoy] só a autorizara a tirar duas ou três fotografias. Ao fundo do corredor, que, sensivelmente a meio, abria numa suave curva, a sala onde nos sentaríamos e onde já estava Lucienne, uma das artistas que iria apresentar o seu trabalho a Louise. Louise criou os Salões de Domingo, exactamente, para conhecer a obra de jovens artistas. Molder avisara-me previamente e eu tentei fazer um pequeno caderno com fotografias dos meus últimos projectos (um deles ainda em curso) e com alguns dos meus desenhos. A campainha não parava de tocar. E quase todos traziam chocolates. Brigitte, entretanto, colocara, em cima da mesa, ao pé dos chocolates, águas, coca-cola, vodka e outras bebidas. Marie trouxera uns doces de tâmara, maçapão e chocolate deliciosos, que ela própria fizera. Esperávamos, ansiosamente, a chegada de Louise, enquanto nos íamos conhecendo uns aos outros (éramos catorze, sem contar com Brigitte e Louise). Brigitte advertia-nos de antemão: quando Louise chegasse, ninguém se deveria levantar, nem fazer alarido e, muito menos, se oferecer para a ajudar. Eis Louise. Todo o seu corpo diz os seus quase noventa e seis anos (faz anos no dia 25 de Dezembro). E, no entanto, é impossível sentir pena pela sua condição ambulante precária, o torso tombado nas pernas fracas, o cabelo desfiado pelos anos todos em que o enrolava no cimo da sua cabeça erguida orgulhosamente. Louise estava ali, mesmo à minha frente, e por mais diferente que seja da Louise das imagens que guardava dela (e que ainda guardo), não a esquecerei e muito menos terei pena de a ver assim. A condição invertera-se. Ali estava eu, perante a mulher que sempre teve medo e nunca o teve verdadeiramente, porque sempre disse tê-lo. E eu, a tremer de medo, a uns segundos de entrar em pânico e querer fugir. Chegara a minha vez: era a terceira. Levantei-me e sentei-me na cadeira junto de Louise para lhe mostrar o meu trabalho e explicar a história que estou a escrever sobre ela e Corbu. "Very good," dizia, enquanto observava os desenhos. Aos poucos, fiquei mais calma. Os olhos pequenos de Louise pousavam em mim e não nos meus desenhos ou não fotografias das maquetas. Era como se Louise tivesse pressentido o meu medo, os tremores do meu corpo, e olhando docemente para mim, me dissesse, no seu silêncio, para não ter medo. Louise já pouco fala, mas, para quem a conhece, é fácil saber o que é que se passa na sua cabeça. Hoje em dia, é Brigitte quem orienta os Salões (também filma) e, pelas suas perguntas, conseguimos facilmente perceber, também, o que é que Louise pensa (ou poderá estar a pensar). A partir desse momento, quando regressei ao meu lugar, parecia tudo diferente. Tinha, de forma inexplicável, a resposta a algumas incertezas. Robert, poeta, era o seguinte e ia ler-nos alguns dos seus poemas. Louise adora poesia. Por essa hora, já estávamos todos alegremente a conversar uns com os outros. O casal italiano era, especialmente, simpático e divertido. Ela tinha ido entregar o livro de um amigo seu, Andrea Cometta, fotógrafo, que lhe pedira para entregar o livro a Louise, para esta ver a fotografia que ele lhe tirara há alguns anos atrás. As fotografias de Andrea são extraordinárias (tem uma, inclusive, da Maria de Medeiros grávida). E o namorado, economista, só a tinha ido acompanhar, mas, para espanto de todos, colocava questões extremamente pertinentes. Havia chegado a vez de Marie mostrar os seus filmes. Enquanto Marie preparava o dvd, Brigitte e Angelo preparavam um prato para cada um com uma deliciosa fatia de bolo de framboesas de La Bergamote (169 9th Avenue corner of 20th St). Vale a pena ir até Chelsea só para provar este bolo. Tal como ir ao Soho tomar o pequeno-almoço ou um brunch na Balthazar (80 Spring Street) http://www.balthazarny.com/. Louise já estava cansada e talvez por isso tenha pedido para ver a última peça de Angelo (Filomeno). Angelo é amigo de Louise já há algum tempo e quando regressa à sala com Caviar nas mãos, a reacção de espanto e encantamento foi única. Caviar é um díptico, composto por duas molduras ovais, forradas a uma seda preta lindíssima, com reflexos ondulantes, semelhantes à textura de uma peça de madeira. Na diferença entre as duas, reside uma beluga, minuciosamente bordada em tons de cinza e prata. O olho, uma pedra semipreciosa e as suas ovas, pequenas contas pretas. Entretanto, Angelo explicava a sua tradição de bordar os quadros. Foram os seus pais que escolheram a sua profissão. Trabalhara nas grandes casas de alta costura italianas e sempre que alguém tinha medo de colocar as suas mãos no mais precioso dos vestidos, Angelo não tinha. Hoje é um reconhecido artista, expõe em Nova Iorque, Paris e, no ano que vem, em Veneza, na bienal, juntamente com Louise Bourgeois. O mais importante, dizia-nos Angelo, é não parar de trabalhar: trabalhar, trabalhar, trabalhar. A prova viva é Louise. Para o último dia, tinha reservado mais dois encontros importantes: entrevistar Beatriz Colomina e conversar com John Rajchman. Infelizmente, cheguei atrasada a Columbia e tive de regressar a Portugal sem falar com Rajchman. Dizia-me a Susana que tinha aí o pretexto perfeito para regressar a Nova Iorque. A Nova Iorque, apetecer-me-á regressar sempre.

BALTHAZAR

Outros dados: A Storefront http://www.storefrontnews.org/ que, pelo horário deveria estar aberta, infelizmente, estava fechada (ficam as fotografias da fachada, decadente, mas excepcional na mesma). A Prada (Rem Koolhaas) e a Longchamp (não sei quem é o/a arquitecto/a), do Soho, são lindíssimas. Quem gosta de coisas para cozinha, tem, obrigatoriamente, de visitar a Crate&Barrel (650, Madison Avenue) http://www.crateandbarrel.com/ e a Williams-Sonoma (Time Warner Center, Columbus Circle) http://www.williams-sonoma.com.


STOREFRONT, STEVEN HOLL & VITO ACCONCI
HUDSON HOTEL, PHILIPPE STARCK

ÁRVORE DE NATAL, ROCKFELLER CENTER

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

É tudo uma questão de escala: grande JARVIS!

O Jarvis lançou um novo álbum, a solo, qualquer coisa entre Relaxed Muscle e Pulp. Como sou muito suspeita, não me atrevo a fazer comentários (o título do post, também, diz tudo). http://myspace.com/jarvspace

Domingo, Novembro 05, 2006

Por entre o silêncio

Confesso que tenho alguma dificuldade em perceber A. Uma dificuldade que se alastra a todas as pessoas que não falam. Ou mal falam. Que permanecem caladas, quase sempre caladas, ou apenas deixam escapar frases muito curtas, em jeito de resposta a alguma pergunta que possamos eventualmente ter feito. A primeira sensação é de desconforto. Raramente me sinto bem ao pé de uma pessoa assim. Fico incomodada, começo a pensar em mil e uma coisas para dizer. Não gosto deste silêncio. Gosto do silêncio, mas não deste tipo de silêncio. O resultado é quase sempre desastroso, sobretudo, quando a pessoa em questão não me conhece ou me conhece mal. Fica a pensar que sou uma fala-barato e, ainda por cima, nessas situações, digo, quase sempre, disparates, coisas banais, completamente inoportunas. Eu gosto de falar. Se falo demais? Algumas pessoas dirão que não me calo. A Francisca, quando ainda vivia cá em Coimbra, dizia que ao se deitar, sentia a minha voz a zumbir nos seus ouvidos. O Tiago, quando lhe contei que ia fazer o estágio em Lisboa, perguntou-me como é que eu iria (sobre)viver sozinha, sem ninguém com quem falar. Acrescentei, de imediato, que ia morar com a Ana. Problema resolvido. Louise Josephine conta a seguinte história: à mesa, não parava de falar e o pai, indignado, perguntava-lhe o que é que ela estava a esconder para falar tanto. A interpretação contrária sempre me pareceu mais legítima: que uma pessoa que não fale, esconda alguma coisa. Existem pessoas que não gostam de falar ao telefone. Facilmente, compreendemos. Faltam os gestos, sobretudo os das mãos, falta o cheiro da pessoa, os traços, as rugas, do rosto, o modo como os olhos franzem quando sorri. Mas não gostar de falar? Dificilmente, consigo compreender. Mas quem sabe, ter medo de falar?! Ou ter medo das palavras. Podem ser tão cruéis... Sentia-lhes a falta. Estive sem escrever tanto tempo, que hoje dei por mim a criar sucessivas desculpas para regressar a chez Louise. Um pouco mais pequeno do que o habitual dos meus trabalhos, está apenas no começo, mas ameaça-me como se fosse o maior de todos eles. Nele, todas as palavras terão de ser as correctas. Não existe margem para erros, para palavras erradas, que possam ser substituídas por outras. Inclusive, optei por fazer todas as traduções necessárias, para não interromper a fluidez do texto (se é que a terá...). As palavras podem, realmente, ser muito más. Pior do que as pessoas que as proferem. A propósito do espaço inefável, escrevi, no prefácio de chez Louise (já há algum tempo, antes da tendinite, mas que se mantém e manterá): "Mas não deveremos confrontar o indizível com o dizível? Com palavras? Não deveremos ultrapassar e dominar o medo das palavras falharem na forma em que estas não se apresentam mais do que como palavras que são? Como ficção? É um risco." Eu não consigo desperdiçar essa enorme oportunidade, por mais medo que tenha delas. Uma questão de feitio. Existem pessoas que são, naturalmente, caladas. Mas saberão aquilo que perdem? O outro lado é mais complicado, pelo menos, para mim. Não deveria eu compreender A. no seu silêncio? Em tudo o que não diz, não pronuncia, não grita?
"My favourite thing about you Please don't get me wrong How natural it feels Five minutes without talking Five minutes without talking" (twba)

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Absolute Friends, here's to them!

"Mrs. Dalloway disse que ela própria ia comprar as flores." (Virginia Woolf)
Girassóis. As flores estavam escolhidas. É a flor que os meus amigos me oferecem sempre que faço anos (porque sabem que é a flor de que mais gosto...). Agora, era a minha vez: retribuir-lhes o gesto e oferecer-lhes uma festa. Eu própria compraria as flores. Não que quisesse tudo perfeito, nem que esse dia fosse a minha vida, aquela festa. Mas porque gosto imenso dos meus amigos (e penso na minha família, também) e sempre lhes retribuirei muito pouco do que me oferecem. Penso, por exemplo, em muitas das coisas que faço com tanto prazer, porque me imagino a partilhar esse momento (mesmo que, muitas vezes, póstumo) com eles. O convite. Esse foi o primeiro momento da festa e ainda faltava tanto tempo. Quis escolher algumas das fotografias que tenho dos meus amigos. Digo que são suplementos de memória, mas creio não precisar delas para me recordar de todos os fantásticos momentos que já com eles passei. É certo: quando olho para algumas delas - aquelas que seleccionei, por exemplo - desato a rir! Disse, reafirmo: "São o rosto, muito mais do que uma imagem, de momentos fantásticos que passámos juntos." A esses momentos, caber-me-ia acrescentar esse outro: a festa. Prepará-la, o segundo momento. Comprar as flores, preparar o jantar, escolher as bebidas, arranjar um espaço para dançar. E receber os meus amigos. Uma alegria imensa, em momentos, estonteante, até perder a noção do frio e do calor. Foram chegando e a minha alegria crescendo. O Neil (Hannon) tem essa música sobre Absent Friends, que conta a história de cinco amigos ausentes. A ausência é, na história de Neil, a ausência que esses "seus" amigos tinham de si mesmos (como se a vida se ausentasse deles, também) e não só por estarem ausentes na medida em que não estão connosco fisicamente, mas estão, por exemplo, a sua história e a sua obra. Well... I raise my glass to absolute friends! Não consigo imaginar-me sem eles. Ausente deles. Estar com eles é demasiado importante para mim. A expressão de um rosto é insubstituível. O riso, as gargalhadas são insubstituíveis. As suas vozes. A forma como pronunciam determinadas palavras ou nos sussurram outras baixinho aos ouvidos. Eles são tudo isso e tudo isso eu adoro neles. Alguns não puderam vir. Não são menos "absolutos" para mim do que os outros. Mas a tristeza que ainda pudesse sentir era essa de não os ver ali a conversar, a sorrir, a dançar. A pegar no copo e a levá-lo, lentamente, à boca. Ou a despedirem-se. No fim, o Afonso perguntou-me se eu me tinha divertido, porque era o mais importante, acrescentava. Respondi-lhe que sim, que me divertira imenso. Mas o mais importante para mim, para além da presença de todos eles, era proporcionar-lhes um momento feliz. Era isso. O último momento. E, neste, póstumo: obrigada!

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Louise Josephine

Louise é, afinal, Louise Josephine. Josephine era o nome da sua mãe. Só prestei atenção a este pormenor há pouco tempo, não que seja relevante – não o é – mas porque às vezes precisamos deste tipo de coisas insignificantes para nos divertirmos um pouco com a história. Curiosamente, chez Louise é uma história que acontece na casa e na obra de Louise Josephine. É a história de um encontro e terá de sobreviver através deste tipo de pormenores insignificantes. Como por exemplo, se Louise Josephine bebe chá ou café. Caso contrário, fica muito aborrecida de tantas coisas sérias que fala. Quando pensava na estrutura deste novo trabalho, cheguei à conclusão que este tinha de conter, obrigatoriamente, uma espécie de sub-texto, alojado nas entrelinhas, para quebrar aquele peso que as palavras carregam quando falam de medos, angústias, falhas, rejeições... tudo aquilo que a maior parte de nós coloca dentro de um frasquinho de vidro azul escuro no mesmo armário dos medicamentos. Não se trata de encontrar uma possível harmonia, mas de um simples exercício de leveza, de pôr o texto a dançar. Para mim, é mais difícil fazê-lo, se não recorrer a estes dispositivos de alegria (chamemo-lhes assim, mesmo que continuem a falar de medos, angústias, falhas e rejeições). Uma segunda ideia é mais distante no tempo. Gostava de poder escrever este trabalho - porque é uma história, também - apenas recorrendo a "palavras minhas." Nada de citações. Esta tarefa é ainda mais difícil de cumprir, porque aparecerão ideias muito concretas das duas personagens e estas falam melhor por si do que eu por elas. Algumas citações deverão, por isso, aparecer. Mas reduzir todo o texto ao essencial: ao que quero dizer. Ora, o que quero dizer tem de ser suficientemente forte para se aguentar em pé e não dar cabo do resto do texto ou, pior ainda, do sub-texto. Este, dessa forma, resultaria patético e completamente inútil. Infelizmente, enquanto me divertia a pensar em tudo isto, uma fibrazinha de um tendão do meu braço direito rompeu. Já alguns dias que esta dor me persegue e se intensifica sempre que me sento a escrever. Quando descobri, disseram-me que tinha de imobilizar o braço direito: "E como é que eu vou escrever?" Entrei em pânico, em desespero e, por fim, em rebeldia. Não imobilizaria o braço, acarretaria com as consequências. Os médicos nem sempre têm razão e não percebem coisa alguma de uma vontade e de um esforço que vêm do fundo de nós próprios. Acalmei: não necessitaria de imobilizar o braço e tinha, apenas, de ter alguns cuidados, como colocar um emplastro e tomar um anti-inflamatório. Escrevo com alguma dor, mas já não consigo imaginar-me sem escrever e jamais permitirei que me tirem isso. Terá sido excesso de escrita?

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

O fim é sempre o começo

Hoje, percebi uma vez mais como as palavras são tantas vezes insignificantes. Ou como só provam a sua superioridade quando imprimem em nós uma cicatriz viva. Aí, podemos dizer que nos marcaram de tal forma que realizaram o seu presságio. Já agradeci ao André uma vez as palavras que muitas vezes dá a conhecer (palavras de outros, palavras dele), mas uma vez não basta. Agradeço-lhe uma segunda vez e, desta, transcrevo as palavras exactas:

"Vai até ao fim dos teus erros, pelo menos de alguns, de modo a observares muito bem o género deles. De contrário, parando tu a meio caminho, avançarás sempre cegamente, voltando a cometer o mesmo género de erros, do princípio ao fim da tua vida, realizando aquilo a que alguns hão-de chamar o teu 'destino.' Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado." (Henri Michaux)

Sábado, Setembro 23, 2006

chez Louise


Abandonei a casa de Josephine por tempo indefinido, mesmo que tenha regresso marcado para muito breve. Neste momento, tenho outro objecto de dedicação. Não menos belo, não menos inquietante e misterioso. Começa tudo assim. Uma vaga ideia. Uma intuição. A sedução. A ausência de justificações plausíveis, razões concretas. É algo que preenche a nossa dedicação, o nosso entusiasmo e parece, quase sempre aos olhos dos outros, uma coisa banal. Simples, creio que é esse o seu segredo. Deve ser uma coisa simples para parecer aos olhos dos outros banal. E, no entanto, quando lhe descobrimos uma face oculta, imperceptível, ficamos eternamente gratos pela sua singela existência. Às vezes deparo-me com esta mesma sensação numa outra escala. Saio do meu pensamento abstracto e detenho-me em pormenores insignificantes do meu corpo que, no entanto, celebram a mesma determinação infundada das minhas ideias. Acontece-me, por vezes, sentir os pêlos do meu braço erguerem-se lentamente e ver os seus movimentos em câmara lenta. É uma experiência abismal e pergunto-me, muitas vezes, se não será imaginação minha. Sinto uma ligeira cócega no braço, quase sempre na parte de trás, já muito próximo do ombro, de modo que tenho de rodar o braço e olhar de soslaio para aquela pequena área. Penso que deve ser um mosquito ou um fio de cabelo caído (a sensação é muito idêntica), mas eis que vejo os meus pêlos espetados no ar. O que sinto não é mais do que a contracção dos minúsculos músculos destes, mas parece inexplicável. Ora, os pêlos ainda pertencem a uma superfície exterior. Tudo fica mais estranho quando sinto o interior do meu corpo. Não falo de dores, nem de barulhos (a barriga a dar horas), mas de um outro movimento, que em determinadas ocasiões consigo perfeitamente detectar. Uma vez comentei com o meu médico, ao que ele me disse que as pessoas mais sensíveis apercebem-se desse tipo de movimentos. E ele falava, claramente, de uma sensibilidade intrasensorial, própria aos órgãos do corpo. Foi talvez das primeiras vezes que compreendi totalmente como é que os órgãos são receptáculos de sensações (parafraseando Deleuze). Acontece, por vezes, também, ouvir o meu coração quando estou deitada. Aparentemente, não existe algo de estranho nisso. Mas em determinadas posições, sinto uma espécie de deslocação do meu coração para o meu ouvido. O som amplifica de tal forma que parece que tenho o coração no ouvido. E torna-se tão insuportável, que tenho de procurar rapidamente outra posição para conseguir adormecer. Outras vezes, abano a cabeça. De tão estupefacta que fico. Mas nem o cansaço dos últimos dias me desvia a atenção e, geralmente, acabo por me deter no bater do meu coração e adiar a doce hora do sono. E como preciso de dormir! Um outro estranho episódio sucedeu enquanto escrevia o meu trabalho sobre a casa de Josephine. Inevitavelmente, as culpas recaíram sobre o meu cansaço. Já algum tempo que não me sentia assim. Aliás, esta experiência nunca a tinha vivido. Há dias em que consigo escrever melhor, com mais ânimo, em que as palavras fluem rapidamente e faço uma ginástica incrível para as acompanhar com os meus dedos e fico toda irritada quando detecto um erro por entre a velocidade e tenho que recuar para corrigir a palavra, e há outros dias em que as palavras custam a sair e exijo a mim mesma uma elevada concentração no que quero dizer, pensando nas melhores palavras, medindo as relações entre elas, quando sei perfeitamente que no fim vou ler e detestar e apagar e começar tudo de novo num momento melhor. Houve uma altura em que acreditava que só conseguia escrever se estivesse imensamente triste. E não se tratava de uma ideia vaga, mas de uma certeza decorrida da experiência. Lembro-me da Raquel um dia dizer que tinham, então, de me pôr triste para eu poder escrever a memória descritiva do concurso que estávamos no momento a fazer. Sei, por exemplo, determinar exactamente as passagens que gosto mais da minha prova final e todas elas correspondem a momentos de um sofrimento incomensurável. Foi um tormento escrever a prova final e, ao mesmo tempo, uma alegria imensa. E é rara a vez que não me emocione quando releio algum excerto. Mas enquanto estava a escrever sobre a casa de Josephine e o corpo sem órgãos, acontecia-me, por vezes, esquecer como escrever. Sentia, literalmente, a minha cabeça vazia. Sentava-me ao computador, colocava os meus dedos sobre as teclas e não conseguia escrever uma única frase. Não conseguia. Simplesmente não sabia compor uma frase, a mais simples possível: sujeito, verbo, complemento. Nada. Esta experiência está muito longe daquela do medo e do temor pelas palavras, pela incapacidade de expressão. Mas muito perto da queda num vazio profundo que nos impede um dia de regressar. Foi, também, a seu tempo, uma experiência de uma outra espécie de limite. Não o medo de dizer algo sem importância, algo fútil, irrelevante, mas o medo, o horror, de nada dizer.
Voltando ao meu novo objecto de dedicação. Na realidade não é objecto algum. Mas, também, não posso dizer que seja um tema. É mais complexo que isso. A sua possível descrição (ou explicação) envolve tudo aquilo de que falava há pouco sobre a nossa estranha paixão por determinadas coisas, mas, acima de tudo, a própria não descrição, que não decorre de uma impossibilidade de definição, mas de um conhecimento do limite próprio dessa definição. Trata-se de construir, desenhar o limite, mais do que edificar uma definição. Andarei na corda bamba nos próximos tempos. E tudo, porque tentarei responder a uma simples pergunta que Zumthor coloca com as suas palavras simples e certeiras: "O que é que nos move?" (Em arquitectura, subentenda-se... mas também na vida, quando ambas se tocam nesse limite que vou tratar no meu trabalho sobre Louise Bourgeois.) Comecei de forma lenta, o cansaço dos últimos dias do trabalho para o José ainda não desapareceu e retomei as viagens semanais a Lisboa, com a habitual permanência de dois dias. Mas este trabalho traz um encanto muito próximo daquele que ainda tem para mim a minha prova final: poder criar personagens, ficções, associações livres (mas profícuas, espero), estranhos acasos... Adoro as pequenas histórias que se impregnam em parágrafos sérios e obtusos. Torna o processo tão mais emocionante: desvelar pequenos segredos, ouvir sussurros de palavras que sempre estiveram ali, mas que nos falam de uma forma desconhecida até então, montar cenas de sequências inimagináveis a partir de dados aparentemente banais... Os óculos de Corbu. Vou poder fazer tudo isto neste trabalho, liberta do peso que sentia ao escrever o trabalho para o José. Quando digo peso, este é indicador, apenas, das enormes responsabilidade e angústia em não decepcionar. Mas se me diverti a escrever sobre a casa de Josephine? Muito. Não conseguia escrever de outra forma. No fim, é disso que se trata quando se escreve, mesmo quando as palavras faltam ou se ausentam indefinidamente...

Domingo, Setembro 10, 2006

!

É o que dá juntar o Jarvis, o Neil e os Air...

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Este Verão

Não é exactamente a mesma coisa, mas é inevitável que em determinados momentos, tudo surja de novo na nossa memória. Um novo Verão com tanto do outro e do outro... Não é apenas a casa, a sala, a varanda, o jardim, o mar, o cantar das rolas – são 19 Verões aqui... - é algo que está para além de tudo isso e que, ao mesmo tempo, tudo isso transporta com ele. É como uma memória que não é uma memória do nosso cérebro, mas uma memória do nosso sistema nervoso, uma pequena parte, uma caixinha escondida algures no nosso corpo, que de vez em quando se abre. Chorar sem razão. Sorrir pateticamente quando não existe alguém à volta, só espaço infinito, indiferente. Ambos pertencem a essa caixinha, se é que é uma caixa, se é que tem forma. Este Verão, apesar de diferente de todos os outros, traz consigo algo dos outros todos. E percebo-o, quando menos percebo o que é que estou aqui a fazer. Porque a verdadeira razão, sei-a há muito e já não deveria ser razão para coisa alguma, quanto mais para fugir.
Durante uma das poucas vezes que espreitei pelos blogues de algumas pessoas queridas durante este Verão, descobri num deles, um excerto de uma obra de Michaux. Não tenho aqui as palavras certas, mas diziam qualquer coisa como ir ao fim dos nossos erros. Foi o que retive, foi o que me diziam a mim. Mas como ir ao fim dos nossos erros se só nos apercebemos deles quando descobrimos o seu fim? O que queria Michaux dizer, sei-lo. Mas de tantas vezes que penetrei nos meus erros que percebo que é a única saída possível. Lamentar o que não foi um erro sequer, é realmente uma tolice, um desperdício de tempo. Também não lamento. Nem os erros, nem o seu fim. O mais curioso é que descobri o excerto de Michaux no blogue de uma das poucas pessoas que compreenderão o quanto me afectaram essas palavras. Secretamente. Pareciam estar ali à minha espera. À espera que eu as lesse e compreendesse que ainda não tinha ido realmente ao fim dos meus erros. Uma vez recebi um pequeno texto no meu mail de A. porque havia escrito neste mesmo espaço um pequeno texto sobre uma dádiva de um amigo. As palavras de Michaux foram uma dádiva ainda maior: atingiram-me de imediato, fechei rapidamente o blogue, não queria lê-las outras vez. Nem sequer queria sentir-lhes a presença ainda ali. Ainda em mim. Não foi repulsa! Talvez apenas soubesse que ainda não as podia ler. Apesar de estarem à minha espera. Depois do Verão.
Quando desço as escadas de manhã para tomar o pequeno-almoço, a sala ainda está vazia, apenas uma brisa a percorre e toda a casa é silenciosa. A Maria Ana acorda, habitualmente, pouco tempo depois. Menos esta manhã. A Maria já estava na sala mais a mãe, mas quieta e silenciosa. As manhãs nem sempre são assim e, no entanto, são sempre assim. São infinitamente diferentes. O Tozé deve ter chegado há pouco, como todos os dias, uma hora mais cedo ou mais tarde. A janela do quarto é fechada cerca de uma hora depois. O meu irmão João não consegue dormir, com a Maria à volta dele e vem para o sofá e senta-a ao seu lado, enquanto a abraça e adormece de novo. Esta casa sem o meu outro irmão não é a mesma. Poucas pessoas perceberão uma diferença assim. Em todos os Verões, passávamos, pelo menos, dez dias todos juntos: eu, os meus pais, os meus irmãos e as minhas cunhadas, os meus sobrinhos. Este ano, o Miguel não veio. Não é Verão. Assim me parece. O João M. ainda dorme e continuará assim até o acordarem. Se acorda à hora de almoço, diz que madrugou e não é por se deitar, como o Tozé, às nove da manhã. São os seus primeiros dias de férias... Os meus pais saem, a Rosa também, o João M. e o Tozé dormem, o meu irmão dormita no sofá, enquanto a Maria se entretém a ver televisão. Não tarda vem verificar se eu continuo aqui. Abre a porta e pergunta-me por que é que estamos sozinhos? "Eu estou sozinha, o pai está sozinho, tu estás sozinha." De facto, é mesmo isto. Somos os únicos acordados (ou semi-acordados, no caso do meu irmão) e estamos os três em casa (porque os outros saíram) e estamos sozinhos. Não os três sozinhos, mas cada um sozinho. Cada um entretido com qualquer coisa, sem notar que o outro está entretido com outra coisa qualquer. E apenas a Maria o nota.
Continuámos sozinhos até à hora de almoço. O João M., entretanto, acordou. Todos regressaram. E almoçámos.
A tranquilidade dos primeiros dias começa a esvanecer. No entanto, ainda não consigo perceber porquê. Se é destes dias terem sido diferentes em ritmo dos outros, se eu começo a sentir a aproximação do dia em que me imaginei a terminar o trabalho para o seminário do José e este só ter ainda contornos incertos, dúvidas angustiantes e ideias absurdas, não obstante o seu encanto. A primeira introdução, como lhe chamei, continua válida dentro dessas ideias. Ganhou um limite próprio do dia em que foi escrita. E desde esse dia, também, que não consigo pensar em não a colocar no trabalho. Antes das palavras que a ocupam, ela é essa data. Não existe razão, por isso, para não a colocar no trabalho, mesmo escrita na primeira pessoa. A minha mãe, que corrige, habitualmente, os meus textos, objectou de imediato o uso da primeira pessoa num trabalho da natureza deste. Por uns momentos, umas horas de insónia, o comentário da minha mãe fez-me recuar um pouco nessa minha decisão, mas sempre que releio aquelas palavras, não consigo voltar atrás, não consigo substituir a primeira pessoa do singular pela terceira do singular ou pela primeira do plural e coordenar os respectivos tempos verbais, além de eliminar todas as referências a uma vivência pessoal e íntima. O dilema, se calhar, durou mais de duas horas... Entretanto, tudo se complicava com o virar das páginas de Mille Plateaux. Neste momento, tenho-a aqui ao meu lado, com as anotações da minha mãe a lápis, para corrigir. Hesito sempre que o tento fazer. Creio, também, que não é desta, tal como acredito que as correcções serão todas aquelas que não envolvam a alteração do sujeito ou dos tempos verbais.
Regressei a Coimbra. Optei por regressar ao silêncio absoluto. Neste momento, preciso deste mais do que nunca. Embora o nunca e o absoluto sejam nada. Estive um mês sem voltar a Coimbra e os que me conhecem acharão estranho que diga que não tive saudades, nem tão-pouco vontade em voltar. Parece que ouço as gargalhadas de alguém... ou a sua vontade em atirar-me isso à cara, como se tivesse sido sempre assim e eu nunca o soubesse. Como não sei tudo o resto. Como me enganei em muitas certezas que proferi, não sabendo sequer a proximidade que elas detinham em si dos meus outros erros, aqueles que me conduziram até aqui. Um episódio curioso. Num dia a seguir ao almoço, nos últimos dias nessa enorme casa onde passo o Verão, sentei-me na sala a beber o café e espreitei a televisão, onde passava, sem que eu soubesse, o episódio de onde eu extraí algumas das minhas primeiras palavras aqui. Saudades, tinha, de escrever neste espaço. De dizer disparates, de fazer asneiras.

Sábado, Julho 15, 2006

"She shut her eyes and imagined the desert / No cars, no mobiles, just sun and bread"

(Belle and Sebastian)
Uma decisão difícil. Afastar-me de tudo o que me rodeia, de todos de quem mais gosto, fechar os olhos, pegar no meu carro e ir embora. Sem olhar para trás, sem vacilar. E pensar que "é melhor para mim." Mesmo que saiba que serão poucos os dias em que estarei sozinha naquela enorme casa (os meus pais, os meus sobrinhos, chegarão em menos de uma semana e meia), custar-me-ão como se fossem tantos outros. Mesmo que tenha saudades do cheiro de pinheiros e eucaliptos que entra pelo meu quarto nessa casa e de estar na varanda e olhar a imensidão do mar e sentir o mar a desfazer-se na minha pele, parecer-me-á tudo insignificante. E, no entanto, obrigo-me a isso. Anseio por isso. Imagino o deserto. Sorrio. Estarei a escrever sobre ele.
Terei carro, terei telemóvel, sol e pão. Mas aqui não escreverei durante algum tempo. Algumas coisas ficarão por dizer, antecipo esse concerto de Segunda-feira e os próximos... Estar perdida na casa de Josephine. Descobrir palavras novas. Saborear uma fantástica bola de Berlim. Correr atrás da Maria no jardim. E ralhar com ela para não trepar as escadas (e como as lá de casa são boas para isso!).

Terça-feira, Julho 11, 2006

Eu e as palavras por estes dias

Tenho-me resguardado das palavras, talvez porque esteja a passar por um momento de saturação. Tudo o que vejo à minha volta é palavras. Já não vejo coisas. Nem coisas-palavras. Apenas palavras. Todavia, aconteceu-me algo de curioso há uns dois dias atrás e o acto parece ter permanecido com a mesma brevidade com que apareceu na vontade das minhas mãos. Estava eu a ler Mille Plateaux (e a reler constantemente cada palavra, cada frase que passa, com medo de deixar passar alguma palavra ou frase intermitente), quando, subitamente, esmaguei o livro com o meu computador. Apetecia-me, realmente, coisa que já não acontecia em mim há algum tempo, escrever a introdução do meu trabalho para o seminário do José. A curiosidade está no facto de ter assumido isso logo nas primeiras palavras que saíram de mim. Aquilo que estava no momento a escrever era para ser lido nos mesmos instantes que pulavam quando eu trocava os dedos e constituíam uma história cujo desfecho desconhecia. Seria qualquer coisa como uma introdução "in progress" ou "under construction." Escrevi uma página e meia de enfiada. Hoje, imprimi-a para ver os erros. Continua tudo lá. A vitalidade que senti entre as minhas mãos e as minhas palavras, a força, a sedução de algo que poderá nunca conhecer o seu efectivo lugar no trabalho (mas, pela minha rebeldia, creio que acontecerá, exactamente, o contrário; e agora solto um sorriso atrapalhado com uma gargalhada). Mas também assim permaneceu. As palavras não desapareceram, mas voltaram a obrigar-me àquela exactidão dos enunciados. Talvez seja mais por esta razão que me resguarde das palavras e não tanto pelo devaneio que me causam por vezes. Esse acolho-o sempre. E desejo-o sempre.

Terça-feira, Junho 27, 2006

Ouço, após o meu regresso e enquanto não continuo as "Últimas Memórias"

Domingo, Junho 25, 2006

Entretanto...

Enquanto construo as "Últimas memórias," descubro por entre os flyers de Barcelona...


Últimas memórias (em construção)

Ainda não consigo escrever sobre o meu regresso a Barcelona, quatro anos depois... Tentei, por várias vezes, fazê-lo, mas completamente em vão. Desisto. Tentarei escrever, no entanto, sobre um tema que tem ganho contornos muito diferentes nestes últimos dias. Já tem aparecido nas minhas pequenas notas, sem, no entanto, querer ainda dizer muito. Tal como eu ainda não sei se já apreendi tudo o que me diz a mim. A viagem a Barcelona pode ser um bom princípio.
A primeira memória: o cheiro. Barcelona tem um cheiro próprio, como todas as cidades têm. É impossível, pelo menos para mim, descrevê-lo. Creio, também, que não exista descrição plausível para um cheiro. Talvez por aproximação consiga descrever o de Barcelona... é uma mistura dos cheiros de salsa, maresia e várias árvores. Não consigo! (Abano a cabeça.) Mas, mal saí do autocarro, que faz o trajecto entre o aeroporto e a praça da Catalunha, reconheci-o. Ou melhor, era o mesmo cheiro que estava guardado algures na minha memória. É habitual considerarmos a memória visual a mais poderosa. As fotografias são um bom exemplo disso. Quase todos os autores que já se debateram com essa poderosa função da fotografia (como por exemplo, Sontag), pensaram na substituição da memória (se calhar, mais do que na substituição do real...). A fotografia é, sem dúvida, uma substituição da nossa memória. Tenho vindo a descobrir que em mim, no entanto, as memórias auditiva e táctil são, quase sempre, mais fortes, mais intensas e mais perpétuas do que a memória visual. E, em Barcelona, percebi como é que a memória olfactiva pode conter, também, essa pequena vida, profunda, escondida e autónoma. Tal como os sentidos, as suas memórias são mais intensas quando coexistem (umas despertam as outras, também...). É curioso, por isso, que dos momentos mais marcantes me lembre sempre de pormenores insignificantes, com uma particularidade: a existência de um som ou de um cheiro ou de uma expressão do meu corpo (que é, também, uma memória táctil). Mesmo que a memória visual persista (e a memória visual é a única impossível de anular completamente). Quando os momentos mais marcantes são também os últimos momentos - os últimos momentos numa cidade, os últimos momentos de um acontecimento, os últimos momentos com alguém... os últimos momentos de alguém – como é que são as nossas últimas memórias? E o que é que trazem em si? Que memórias? Não me sinto capaz de responder, senão de contar um dos momentos mais marcantes do meu regresso a Barcelona, notando que este regresso de que falo é aquele à cidade onde vivi durante seis meses, aos espaços que fizeram (fazem) parte de mim, de todos os meus dias, durante esses seis meses (é também fantástica a relação do tempo com a memória...). Quase sempre, ao voltar a casa ou ao sair de casa, passava pela rambla do Raval. Quem conhece, mais ou menos, a história de Barcelona, sabe que a rambla do Raval é uma fronteira entre o antigo bairro Chino e o centro de Barcelona (considerando este a área entre o MACBA, o CCCB e as "Ramblas"). Há uns anos atrás, para combater a degradação física e social daquela área (do antigo bairro Chino), o Ajuntament de Barcelona demoliu uma série de edifícios e, aos poucos, tem vindo a construir edifícios novos e a reabilitar os espaços públicos envolventes. Há, inclusive, um documentário sobre todo o processo, com depoimentos de residentes (de "desalojados") e imagens das demolições. Os edifícios novos assumem-se pela linguagem contemporânea e pelas funções cosmopolitas (por exemplo, são facilmente identificáveis ateliers de artistas, através das janelas de dupla altura). E a rambla do Raval pelo conjunto de palmeiras. A única fotografia que tenho de Barcelona no sótão onde passo grande parte do meu tempo de leitura e escrita é, precisamente, uma fotografia da rambla do Raval, ou melhor, de um edifício da rambla do Raval. Para mim, um dos edifícios mais bonitos de Barcelona. Ali, isolado, sozinho, no meio de todos aqueles que tentavam apagar à força a história de um lugar com cicatrizes profundas. Aquele edifício era a única ainda visível e onde toda a vida parecia concentrar-se. Já não existe. Descobri que a minha última memória era, também, a última memória daquele edifício. Digo a minha memória daquele lugar, não que deixe de identificar a rambla do Raval na minha memória, mas porque era aquele edifício que em muito determinava a minha paixão por aquele lugar e na memória do qual se fundiam sons e cheiros e luzes a cintilar num fechar de olhos em dias solares de Inverno. Também não vou perder a memória que já possuo, mas é certamente diferente. É última. Quando me vejo a passar pela rambla do Raval, vejo-me a olhar para ele. E já não existe.


Legenda: A primeira fotografia é a fotografia que refiro no texto; a segunda é do contexto.

A última palavra: o adeus. O adeus coincide com a última memória. No momento do adeus, existe essa vertigem que obriga a uma fixação atemporal de qualquer coisa, salvaguardando-se assim uma possibilidade de retorno. Sexta-feira foi a última aula de Molder. E as aulas de Molder não retornarão. Poderei sempre frequentá-las, mas serão sempre diferentes. Dizia Molder, nesta última aula, que cada aula tem uma atmosfera diferente, consoante os rostos, as expressões, os gestos, a colocação de cada um na sala e que essa atmosfera a faz recordar quem, por exemplo, esteve ou não na aula. Não é uma questão de controlo, mas um exercício da sua memória. É dessa forma que se recorda da aula, daquela aula. Ao longo das aulas, Molder foi-nos conhecendo (tal como nós a Molder e uns aos outros). Primeiro, os gestos. Depois, o nome e os gostos (as obsessões, em alguns casos). Por último, mas sempre, as fraquezas. De forma muito simples, como também já aqui disse, tudo o que nos dizia, atingia-nos. As suas palavras eram (são) sempre de enorme exactidão. Advertia-nos, constantemente, para o significado exacto de tal palavra. O André, no final de uma das últimas aulas, lamentava o facto destas não terem sido gravadas, pois nunca mais iria conseguir encontrar aquelas palavras de Molder. Consoante a atmosfera, também eram assim as palavras de Molder. Lembro-me, também, de Molder dizer, no fim de uma das suas aulas, que antes de entrar na sala, julgou não ser capaz de proferir uma única palavra (estava um calor imenso...) e que no fim se julgava capaz de continuar a falar durante mais cinco horas! As memórias das aulas de Molder têm, em mim, um efeito diferente, por exemplo, das memórias das aulas do José. Quando leio os meus apontamentos das aulas do José, recoloco-me, imediatamente, na sala e ouço a sua voz. É uma memória contínua. O mesmo exercício, já não poderei fazer com os apontamentos das aulas de Molder. As palavras de José eram mais complexas, mais difíceis, o discurso mais intrincado, mais denso e, no entanto, possuía uma estrutura interna com uma entrada e uma saída, independentemente das observações feitas por outros ou das oscilações de acontecimentos exteriores (como o bando de pássaros). Uma estrutura muito semelhante à de uma espiral. Curiosamente, Molder evocava, muitas vezes, nas suas aulas, a espiral como imagem de consistência (seguindo, também, a leitura de Louise Bourgeois), mas as suas aulas pareciam seguir um "modelo" rizomático (matéria das aulas de José). Daí os apontamentos das aulas de Molder serem tão ineficazes para mim, na medida em que não conseguem reconstituir uma memória contínua das suas aulas. O que lamento profundamente, porque, tal como o André, queria abraçar todas as suas palavras, para nunca mais as esquecer, tão fortes e exactas que eram. São memórias diferentes. De diferentes aulas, também. Com diferentes efeitos e um comum: o desejo da repetição. Há momentos em que acontece exactamente o contrário, as últimas memórias querem-se últimas. Destes, não.

Terça-feira, Junho 13, 2006

Por estes dias, digo adeus.

Se adeus não soubesse dizer, seria tudo mais fácil.
Lembro-me de Molder perguntar numa aula destas, por que é que ficamos tão perturbados quando alguém não nos deseja "boa viagem." Acrescentando, de imediato, que era natural a nossa perturbação, não porque sejamos tolinhos ou pensemos que seja um prenúncio de qualquer coisa, mas porque sabemos os riscos que uma viagem encerra em si. Sabemos que tudo pode acontecer. Na última aula, retomou a ideia de viagem. Desta vez, porém, pelo que significou durante muito tempo: um momento de purificação.
Sobre tudo o que já disse aqui sobre uma viagem, acrescento estas duas últimas ideias de Molder. Porque, neste momento, são mais fortes do que eu. Por elas, viajo...
A ouvir... quando não ouvir o adeus dentro de mim.

Quarta-feira, Maio 31, 2006

Uma compilação de notas

Não é bem uma homenagem ao meu querido Jens (para quem um cd é uma compilação de canções), porque esta minha compilação não serve mais do que para constatar a minha actual preguiça em escrever. Culpo as minhas leituras por estes dias, que me têm deixado num estado de dormência perpétua. Não! Estou a ser muito injusta com o que leio... Devo rezafer o que acabei de escrever. Eu, eu é que ando em dormência perpétua! E já não são ausências! Passo pelas coisas e não as vejo. Esqueço-me da existência delas e, por fracções de segundo, quando as vejo distantes, regresso a elas a perguntar a mim mesma: como? Como é que eu não vi, como é que desapareceram por entre os meus olhos e eu não tenho uma, uma sequer, memória?!
Estas notas não são mais do que o que o próprio nome indica. No entanto, podem ser mais do que notas e por isso as escrevo aqui.

Os últimos dias de Maio
Ontem [26 de Maio] cheguei a Coimbra e uma nuvem de borboletas castanhas sobrevoava a minha rua, parecendo estranhos e minúsculos morcegos. Nunca tinha visto um fenómeno assim. Estou certa de que se tratava de um fenómeno. Pareciam desorientadas, uma delas embateu com uma feroz velocidade na minha face. Voavam todas demasiado depressa para o bater das pequeninas asas. Cheguei no fim da tarde. A atmosfera estava densa, quase que dava para ver a espessura do calor. Tudo acentuava o espectáculo natural. Lembro-me de numa aula do José, precisamente ao fim da tarde, as árvores, que se avistam das janelas da nossa sala de aula, se cobrirem de pássaros. O barulho era ensurdecedor. Mas bonito. O do voo das borboletas castanhas de ontem, não. E eram imensos pássaros. Formavam manchas e voavam de árvore para árvore com uma velocidade estonteante. O José parou de falar e com as mãos estendidas indicou-nos a janela, dizendo-nos que muitas vezes este tipo de fenómeno, sem uma razão facilmente explicável, era tido como um augúrio. Se isto me veio à cabeça ontem? Não creio... Mas foi estranha a minha reacção. E quando entrei em casa e a senti vazia, estremeci.
Os últimos dias de Maio adivinham-se os últimos dias. De alguma coisa. Entretanto, as borboletas desapareceram.

A felicidade adiada
"Por que é que temos tudo e não somos tudo?"
Perguntava-me hoje [27 de Maio] um amigo, enquanto me falava de felicidade adiada. Não da minha felicidade, mas da de todos, sem particularizar. Há perguntas que ficam em nós sem resposta. Porque a adiamos, tal como a felicidade, ou porque simplesmente não sabemos responder. Em mim, as duas opções confundem-se. Adio a resposta que desconheço ainda.

Josephine Baker
Às vezes perguntamos o que é que nos liga a alguma coisa ou a alguém, de modo a encontrarmos uma resposta plausível, dentro dos limites do nosso entendimento. Nonsense! Por outro lado, maravilhamo-nos perante o acaso e fazemos de pequenas coincidências desígnios desse. Como receber a fotografia de Josephine Baker num restaurante em Lisboa, onde jantei na Quinta-feira [25 de Maio]? Esta também não é, certamente, daquelas situações em que tudo o que vemos à nossa volta nos remete para o objecto do nosso desejo ou da nossa perturbação. O Nuno um dia dizia que seria preciso um Deus muito mauzinho para ter já traçado um caminho para nós e nós andássemos aqui, qual marionetas, à Sua mercê. A opção é sempre nossa. E é um verdadeiro privilégio poder escolher. Mesmo que determinadas escolhas não nos deixem dormir, nos tragam maldispostos, irritados, revoltados!

Domingo, Maio 21, 2006

Uma pequena nota sobre um poema

Num destes dias, um amigo ofereceu-me um presente raro: um poema de um outro escritor. Li-o, reli-o e voltei a lê-lo outra vez. Surtiu em mim um efeito inesperado. Não soube, no momento, o que pensar sobre o que é que o poema me dizia a mim. Não é uma questão de interpretação do poema como poema que é. Nem falo de uma questão formal, de composição, de ritmo, de rimas... Falo do que o poema diz sobre as palavras que o delimitam em mim, nos meus limites e de forma muito tangível. Fiquei confusa. Atordoada. Existia algo implícito no poema que me dizia respeito e que não estava na literalidade das palavras (e este poema é muito preciso nisso, é o que diz e nada mais). E essa razão oculta pertencia, de certo modo, a quem mo tinha oferecido. À sua forma de olhar para mim e de me tentar compreender. De me conhecer. Continuo sem saber a razão. Pode nem existir uma! Dele posso adivinhar que seja essa a razão: um acto livre, espontâneo, bonito.
Ainda não tinha agradecido o poema. Agradeci-o hoje, porque hoje percebi o que é que o poema me dizia a mim. O que me perturbava tanto... Quando o lia, nessas tantas vezes, era como se eu estivesse dentro dele, aprisionada, ao mesmo tempo que fazia um movimento de sair dele, desmultiplicando-me virtualmente, em que parte de mim olhava para o poema e o lia e via como eu continuava dentro dele, sem poder realmente sair. Tive sempre esta sensação. Hoje, não! Li-o de novo e de fora. Não sei o que me fez sair dele. Ou talvez saiba... Sei que foi precisa coragem. Muita, para o ver desse novo ângulo. Para ver toda a vida de um novo ângulo. Sentada num jardim durante uma tarde infinita, linda.

Terça-feira, Maio 09, 2006

E a cidade encheu-se...

O mistério do Sr. e da Sra. X

Nunca me tinha ocorrido isto, a não ser enquanto preparava a proposta para o meu trabalho no âmbito do seminário do outro José (que tem, no entanto, a casa de Josephine em comum com o trabalho para o seminário d' O José). No final da aula da Molder, da passada Quinta-feira, o Eduardo A. perguntava-me por que é que eu não incluía nos meus trabalhos o estudo de arquitectura contemporânea. Minutos antes, aliás, tinha estado a brincar comigo a dizer que eu ia fazer um dos trabalhos para os seminários da Molder sobre os óculos do Corbu, que a Louise Bourgeois se havia apoderado, quando este, distraído, os deixou em sua casa. Para Louise, os óculos de Corbu são uma dádiva que ela recolhe na sua obra. Nunca vi os óculos do Corbu numa obra de Louise, mas se olhar atentamente decerto que os descubro (mesmo que eles não estejam lá). Sim, a minha paixão por Corbu é sobejamente conhecida. Passei muito tempo com um corvo na cabeça, de modo que as consequências ainda se fazem sentir. Mas não, o meu trabalho para "Estética e Arte Contemporânea" não vai ser sobre os óculos do Corbu. Mas talvez sobre uma outra coisa que também lhe pertenceu e que também doou... E certamente sobre Louise Bourgeois. Tinha uma ideia anterior, mas durante a aula, a nova ideia passou à frente dos meus olhos de forma tão clara que no momento percebi, não que tivesse sido atingida por um raio fulminante, que era aquilo que eu queria realmente fazer. Voltando à conversa com o Eduardo A. Não era ideia que já não me tivesse passado pela cabeça. Respondia-lhe que nesse sentido era muito semelhante a Colomina (a autora que tratara no trabalho de "Estética dos Media"), preferindo os arquitectos modernos aos contemporâneos. Creio que é pelo mistério que encerram, pelo que já não podem dizer, mas que, ao mesmo tempo, podem dizer de outra forma. Os arquitectos contemporâneos podem sempre preencher os espaços vazios, podem sempre apoderar-se do resíduo.
Ontem caí em mim. As palavras do Eduardo A. eram demasiado importantes (o Eduardo A. também é arquitecto), porque traduziam um outro enigma. O enigma que me fascina nas obras dos arquitectos modernos é um outro nas obras dos arquitectos contemporâneos. A começar pelos habitantes da casa que elegi para estudar em simultâneo com a casa de Josephine. Da casa de Josephine sei algumas coisas de Josephine. Da casa do Sr. e da Sra. X sei também algumas coisas do Sr. X, sobretudo. Mas não sei o seu nome, não sei qual o verdadeiro nome do Sr. X (o X foi uma opção minha). Sei a localização da casa, até conseguirei a morada exacta, mas talvez nunca o verdadeiro nome do Sr. X. É uma diferença engraçada. É raro saber-se o nome real dos habitantes das casas dos arquitectos contemporâneos, enquanto se sabia, quase sempre, o nome dos habitantes das casas dos arquitectos modernos (mesmo dos mais famosos), porque as próprias casas recebiam o nome dos seus habitantes. Era uma dádiva do habitante à casa. Ou a casa que recebia o nome era o próprio nome, o próprio habitante. Isto tudo para dizer que a simples alteração de um nome, neste caso do nome de uma casa, diz muito sobre a própria casa ou, mais importante ainda, sobre o que a casa diz sobre ocupar um espaço. Ser uma casa.
Incluo, então, o estudo da arquitectura contemporânea nos meus trabalhos e tento, de certa forma, ultrapassar um medo próprio. Não é só pelo enigma que identifico os objectos do meu desejo, mas também pelo medo (sobre isso ando a aprender com Louise). Obrigada Eduardo A.!

Quarta-feira, Maio 03, 2006

Tudo aquilo que devia deitar para o ar

Ou tudo aquilo que devia gritar bem alto, berrar! Há dias assim, não há volta a dar. E que bom que é sentirmos essa vertigem dentro de nós. Triste é calarmo-nos e deixarmos tantas coisas feias por dizer. As coisas feias também são para serem ditas e bem alto, de preferência. Há sempre alguém que as ache bonitas. Eu, por exemplo, num estado lastimável de ira e cólera. Acredito que as coisas se passem mesmo assim.
Partir pratos. Uma amiga minha passou por uma fase extremamente enriquecedora em que partia pratos. Voluntariamente, claro. E sentia-se sempre muito melhor depois. O pior era o gato! O gato não sabendo partir pratos, não percebia por que é que aquela amável criatura partia pratos. Nem o gato, nem ninguém. Mas o simples acto de deitar um prato para o chão, com toda a força que possuímos e ouvirmos o estilhaço dos mil e um pedacinhos, parece ser reconfortante. Libertador.
Trepar às paredes. Literalmente. A minha sobrinha, quando se aborrece, trepa a qualquer coisa. O que a chateia é a parede ser um obstáculo tão grande à elevação dos seus pézinhos e do seu pequenino corpo. Opta, então, por trepar móveis, escadas (pelo corrimão, claro!), bancos, escadotes, escorregas ao contrário, tudo o que lhe ofereça um mínimo de aderência. Quando está feliz, dança.
Dançar. Contava a Adri no outro dia que o José lhe havia dito que os bailarinos têm uma capacidade fantástica de reflexão, porque dançam. Adoro dançar, todos os dias danço. Exactamente pelo contrário, para me impedir de pensar. Naquele momento, esqueço sempre tudo. O tempo pára (pára mesmo!) e eu deixo de existir. Há quase sempre uma música ou outra que gosto mais de dançar, então, ouço-a vezes sem fim até me sentir confortável nos meus movimentos, ou não, exausta, a precisar de descansar. Estes momentos, curiosamente, precedem os meus outros de leitura ou de escrita. Aí entra, então, a reflexão. Mas por agora não consigo estabelecer uma relação directa.
Fazer um bolo. Talvez das melhores coisas. E comê-lo quente.

Domingo, Abril 30, 2006

O concerto

Fantástico! Excelente! Brutal! Espectacular! Excepcional! Único! Lindo! Fenomenal!
"Yes!"
Como o próprio Erlend gritava de entusiasmo no fim de uma de tantas músicas... lindíssimas! (Sem palavras!). Mais precisamente no fim do refrão que nos havia pedido para cantar: "The sun sets on the war, the day breaks and everything is new..." E "new" prolongava-se eternamente nas nossas vozes...
O concerto dos Kings of Convenience foi, é, será sempre imemorável. Eterno. Como tudo o que cantam. A suspeita confirmou-se. Erlend, ou "o Erlender," como o Bicho ainda eufórico, no final do concerto, já se referia a Erlend, é um tipo divertidíssimo, um grande maluco. Literalmente. Aliás, ele não é grande, é enorme! Altíssimo e o seu metro e muito e muito é loucura pura. Soube-se mal se sentou para cantar as primeiras canções. À terceira, continuavam a chegar pessoas e Erlend ia colocando-as a par: "já cantámos três canções; esta, portanto, é a quarta... o ambiente é tranquilo..." As gargalhas foram gerais. Por esta altura, Erlend continuava sentado, mas não tardou a levantar-se. Erlend tem qualquer coisa nos seus pés que o faz dançar de forma desconjuntada. Mas nunca perde o estilo inconfundível. Não são só os enormes óculos que caracterizam esse seu ar cómico e engraçado de boneco animado (de Snoopy, diz a Susana L.), é, também, a sua forma de dançar. De se arrastar pelo palco em rodopios e malabarismos das suas pernas enormes e do tronco ora meio curvado ora hirto, por entre o movimento dos braços a balançar e do som dos dedos a estalar de encontro ao ritmo. De "getting into the swing... getting into the swing... getting into the swing... "
A primeira grande surpresa aconteceu quando Erlend sai, subitamente, do palco e se junta às pessoas que estavam a assistir ao concerto nas primeiras filas (por ora já ninguém duvidava que estivesse a assistir a um concerto fora do comum, aliás, já todos sabíamos que não estávamos a assistir a concerto algum). Erlend ia ouvir o seu amigo Eirik a cantar. Espanto geral. Aos primeiros acordes, desatámos todos a rir. A sorrir. Eirik cantava de forma esforçada, mas incrivelmente doce, quase naïf, uma das mais conhecidas músicas brasileiras. Desatámos todos a ajudá-lo, enquanto Erlend se movia pelas doutorais, para se juntar novamente a Eirik, e terminar a música em suprema beleza, simulando um maravilhoso trompete. Novamente: todos a rir! Eirik, tão divertido e sempre extremamente oportuno, revelava-nos a nossa simultânea descoberta: ele estava a cantar uma letra em português, cujo sentido não compreendia (eu adorei a forma como pronunciou "felicidade" e mesmo depois da aula da Molder, do que ela nos disse sobre Etty Hillesum, que não devíamos pronunciar, nem utilizar as palavras "felicidade," "Deus," "amor," entre outras, porque os seus significados tinham sido fixados e já nada diziam sobre as palavras, eu adorei ouvir Eirik cantar "felicidade"), porque a tradução inglesa, haviam-lhe dito, era mais uma interpretação do que uma tradução e, por último, que Erlend era o campeão mundial de trompete bocal. Os risos foram constantes durante todo o concerto (aceitemos a palavra, porque não existe nem palavra, nem definição no dicionário para "concerto de Kings of Convenience"). E, por vezes, elevavam-se e tornavam-se na própria música. Ao contrário das palmas e do estalar dos dedos. Houve, logo no início, uma dificuldade em se coordenar o bater palmas e o estalar dos dedos. Erlend preferia claramente a última versão. E dava o tom. E o ritmo.
Por entre as canções, Erlend e Eirik iam pondo-nos a par de algumas das suas ideias sobre a vida. Ideias muito simples, muito claras. Não são essas as ideias de Uma vida? Dizia-nos Erlend que, das vezes que tinha vindo a Lisboa e estado junto ao rio, se tinha apercebido e desgostado com a existência de uma fronteira entre o porto e o rio. O que o aborrecia imenso, pelo que acontece o mesmo na sua terra natal, Bergen. Haviam estragado, completamente, o único e último sítio perfeito para uma pessoa se enamorar!
Contra todas as fronteiras, todas as divisões, todos os limites, Erlend dirigiu-se aos seguranças e pediu para que todos os que quisessem ir para o palco dançar com ele, o pudessem fazer. Saltámos das cadeiras, irrompemos pela sala, desatámos a correr, nisto, a música já se fazia ouvir, Erlend já dançava... e nós no palco como numa qualquer pista de dança! A dançar, a saltar!
I'd rather dance with you than talk with you
So why don't we just move into the other room
There's space for us to shake, and hey, I like this tune
Even if I could hear what you say
I doubt my reply would be interesting for you to hear
Because I haven't read a single book all year
And the only film I saw, I didn't like it at all
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
The music's too loud and the noise from the crowd
Increases the chance of misinterpretation
So let your hips do the talking
I'll make you laugh by acting like the guy who sings
And you'll make me smile by really getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
Getting into the swing, getting into the swing
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you
I'd rather dance with you
I'd rather dance with you
No fim, regressei ao meu lugar, alguns ficaram pelo palco, sentados no chão. Aquele momento devia permanecer assim: único na sua espontaneidade, no silêncio paradoxal de um instante abrupto, sem interferência alguma de um antes ou de um depois. E assim se despediram Erlend e Eirik da Aula Magna.

Quarta-feira, Abril 26, 2006

A Casa de Josephine – parte 1

Parte 1, porque antecipo que muito irei escrever sobre a casa de Josephine. Durante os próximos tempos, mudar-me-ei de malas e bagagens para esta casa. E terei que descobrir, como um dia A. escreveu sobre o quarto de S. "as infinitas possibilidades de um espaço limitado" (assumo a total opção de não citar explicitamente o autor). Este espaço limitado não é, porém, semelhante ao pequeno quarto de S. em Paris, se pensar em dimensões... Vejamos: quantos quartos de S. caberiam na casa de Josephine, curiosamente também em Paris (um acaso de que A. gostaria)? Pelas minhas contas, no mínimo, uns duzentos quartos. Mas se esquecer a pequenez do quarto de S. e relembrar o que A. diz sobre esse estranho espaço, consigo aproximar-me, ficar à porta pelo menos, da casa de Josephine. Numa primeira aproximação, tocar à campainha. "Aquele era um quarto de sonho, um quarto cujas paredes se assemelhavam à pele de um segundo corpo à volta dele, como se o seu próprio corpo tivesse sido transformado em mente, um instrumento vivo de puro pensamento." Qualquer coisa muito semelhante já ouvira a José, sobre a casa da Matriona, essa casa, essa personagem de um conto de Soljenitsyne: a casa devém Matriona e Matriona devém casa, indiscernivelmente. As palavras de José ganham uma outra força. Afinal, tudo o que me irá acontecer na casa de Josephine, acontecerá pelo trabalho no âmbito do seminário do José. Contudo, tenho esta impressão, senão uma terrível e cruel angústia, de habitar a casa de Josephine, como S. habitava o seu pequeno quarto ou Matriona a sua casa do meio do bosque. É inevitável. O trabalho apenas ficará completo, terminado, se eu devir - casa de Josephine. Tarefa árdua, pior!, tarefa difícil. Porque, embora A. diga sobre o quarto de S., esse não é o lugar da imaginação. É outra coisa.
Vontade não me falta. A casa de Josephine, como me confidenciou Molder no final da passada aula de sexta-feira, "é lindíssima!" E tenho a certeza que esta qualidade é utilizada por Molder não pelo estilo ou pela linguagem da sua arquitectura ou pelo conjunto de especulações em torno da casa, mas pelo que proporciona a quem a habita. E é único. Ou única. Se pensarmos numa só sensação a percorrer aquelas escadas imensas, largas, e outras, circulares, elípticas, a flutuar pela água, pelos corredores, pelo enorme salão a transbordar de luz... É lindíssima! Sim, é lindíssima! Não obstante nem sequer estar construída. Não vai ser difícil habitá-la. Mas vai ser difícil compreendê-la pelo que é. Tenho uma ideia ainda muito vaga do que pretendo compreender. Tenho, sim, este sentido de que só poderei compreender a casa de Josephine se devir casa e que nesse processo encontrarei os mecanismos para a sua compreensão. É engraçado que o que desejo compreender seja exactamente o que me proporcionará a compreensão. Sim, é muito divertido.
Nos meus primeiros passos na casa de Josephine, após me ser aberta a porta, ter entrado devagarinho, senti uma vontade enorme, quase louca, de fixar determinados momentos em imagens. E as próprias imagens teriam a capacidade fantástica de proporcionar um tal momento de intensidade máxima. Qualquer coisa idêntica ao que Francis Bacon diz sobre as fotografias e o facto de se sentir sempre capturado por estas (em especial pelas de Muybridge, da figura humana em movimento). Explicava a um amigo, talvez um dos que me conhece melhor, como é que eu estava a imaginar estas imagens (e estava a pensar em fotografias como em imagens digitais). Uma das minhas condições é que estas teriam que possuir uma certa "carga dramática." Foi a expressão que me veio à cabeça na altura, mas que não me parece de todo desadequada, ainda que um pouco aquém das minha próprias expectativas sobre as imagens ou sobre a própria expressão. Continuo sem conseguir dizê-lo de outra forma ou de melhor forma. Ainda não atingi esse grau. Também ainda nem sequer comecei a subir as escadas. Mas dizia-me P. que eu continuava na mesma. Tenho pena de não me lembrar das suas palavras exactas, mas diziam qualquer coisa sobre eu ser sonhadora, de andar sempre nas nuvens, etc. A minha resposta não adianta muito mais ao que já muitas vezes escrevi por aqui. Mas, quando à tarde, iniciava as minhas muitas leituras entrecruzadas (contra todo o método que havia defendido no dia anterior, de ser sistemática e pragmática nas minhas leituras, começar numa ponta e acabar noutra, tudo a eito, sem parar, nem vacilar), me deparei com uma pequena nota de rodapé com algumas palavras de um prefácio de Schönberg a uma segunda edição de um volume publicado por Loos. Não foi tanto o que as palavras significavam no sentido da frase, mas um pequeno fragmento. E esse pequeno fragmento era todas as palavras de P. juntas e todas as minhas respostas possíveis, actuais ou mesmo virtuais. Não o vou transcrever, porque correria o risco do seu sentido original se esvair e eu própria perdê-lo. E porque o sentido que despertou em mim é muito idêntico a esse que raramente me abandona e que teimo em perseverar em mim: ser por querer, por desejar, por prazer, por ser, infinitamente... E as coisas são mais bonitas. E a casa de Josephine é lindíssima!

Quarta-feira, Abril 12, 2006

O reencontro

Um dia lindíssimo em Lisboa. Um dia a antecipar o Verão. Nada de especial. No entanto, quando estava à espera do comboio na estação do Oriente, o sol de frente, a ouvir música no ipod, o que já não fazia há algum tempo (há muito tempo, aliás), todo o meu Verão do ano passado surgiu do nada. O mesmo calor no corpo, a mesma música que percorreu o meu Verão. Já nem me lembro há quanto tempo não ouvia Arcade Fire. E, subitamente, aquele sentimento absurdo de nostalgia. Tenho alguma dificuldade em compreender a nostalgia. Hoje, creio que encontro uma desculpa razoável para a aceitar. Duas horas antes, o Hugo telefonara-me. Já está cá, em Coimbra, mais precisamente. Todas as pessoas sabem (ou quase todas) que tenho sempre imensas saudades do Hugo. Nunca confundo saudades com nostalgia, porém. Tenho sempre imensas saudades dos meus amigos e da minha família. Mal me despeço de alguém, como aconteceu há pouco tempo com um amigo muito especial, as saudades atingem-se de imediato. Dizia a esse amigo, que logo após ele ter entrado no carro, junto da minha casa, um sentimento de tristeza tomou conta de mim e acreditei que fosse pelo abraço que me deu. Acredito que os abraços têm mais a ver com despedidas do que dois beijos na face, também. Mas nunca este meu sentimento de tristeza temporário (porque me custa afastar dos meus amigos, custa-me tê-los longe de mim) e as saudades, que sinto sempre tão intensamente, são sintomas de nostalgia. Digo sintomas propositadamente. Não que compreenda a nostalgia como uma doença, mas porque a ligo sempre ao passado. Mesmo que acredite que passado, presente e futuro estejam constantemente a fundir-se e me seja extremamente difícil dissociá-los, a nostalgia reporta-se a um acontecimento específico e a um tempo passado preciso. E se existiram momentos marcantes em mim, pertencem a esse tempo do Verão, e não a um, mas a muitos acontecimentos indissociáveis espacial e temporalmente. Evito lembrar-me de qualquer um. Também não consigo associar a nostalgia a momentos agradáveis. Muito menos como forma de reviver determinados momentos. Nunca são os mesmos momentos. Creio que é pela intensidade que pretendo de cada um que me custe a aceitar revivê-los. Reduzo a nostalgia a um momento passado e a um momento de tristeza pura. E ambos são contrários a mim. Mas hoje, naquele momento preciso em que ouvia a música dos Arcade Fire, deixei-me por uns minutos permanecer nesse lugar absurdo da minha memória. A memória táctil é quase sempre mais poderosa do que a visual. Ou mesmo do que a sonora. E a sonora estava tão perto de mim quanto a táctil. As duas juntas aprisionaram-me nesse tempo passado, nesse lugar absurdo. O Hugo? O Hugo foi um dos meus amigos que esteve sempre comigo, não obstante estar em Pamplona (como já aqui referi).
Agora que regresso a Coimbra, ao mesmo tempo que regresso desse estado desprezível, esqueço novamente tudo. Ainda que escreva sobre ele, nos minutos após me ter atingido, já me abandonou. Já ouço outra música, a temperatura do meu corpo já desceu, o sol quase desapareceu. "Gigantic"! Outro Verão. Esse repete-se este ano. Eu e o Gonçalo aos saltos no fantástico concerto dos Pixies, há dois anos atrás. Dia 20 de Julho: regressamos!

Domingo, Abril 09, 2006

9 de Abril

É um dia difícil. É um dia marcante. A minha avó Luísa faleceu neste dia, há seis anos, para ser mais precisa. E o fado que mais gostava de cantar chamava-se "9 de Abril." Há três anos defendi a minha prova final de licenciatura e acabei o curso. Hoje... hoje pergunto por que é que fico sempre tão transtornada com a proximidade deste dia. E há coisas que teimam em acontecer, como se este dia já não fosse suficientemente importante para mim. Sei que desde há seis anos para cá, a tudo o que quer que aconteça neste dia, eu também lhe atribuo um significado acrescido...
Ontem fazia a minha viagem de Lisboa para Coimbra, que já não fazia há quinze dias, os mesmos quinze dias que ficara fechada em casa a terminar o trabalho no âmbito do seminário da Maria Teresa Cruz, a ouvir o mesmo cd que ouvira durante esses quinze dias e a pensar o que é que faz as pessoas mudar. E esta mudança a que me refiro, não é uma qualquer mudança, não! É uma mudança radical! De um momento para o outro, olhamos para uma pessoa, falamos com ela e percebemos que ela já não é a pessoa que conhecemos. E, pior! Que essa pessoa já pouco nos diz. Uma viagem? Sim, acredito que uma viagem possa provocar uma mudança radical numa pessoa. Eu própria ansiei por isso, quando fui para Barcelona seis meses. Se vim diferente? Sim, Barcelona mudou a minha percepção de muitas coisas e por isso sinto tantas saudades de Barcelona... Imensas! Mas pergunto... com uma iminente viagem, digamos que a... Nova Iorque! Um mês, apenas. Ou cinco dias... Será que uma viagem tem esse poder? Todas as viagens, que fiz até hoje, marcaram-me de uma forma ou doutra e antes de todas elas senti essa necessidade de evasão. Uma evasão que era inseparável de um desejo profundo de mudança. O encontro com o Outro desperta essa vontade em mim. Ou talvez... o encontro comigo mesma, sob outra forma de mim mesma que, até àquele momento, me era desconhecida. O mais engraçado é que, em todas essas vezes, voltei com a mesma vontade de recuperar um momento que imaginava cristalizado durante a minha ausência e, estranhamente, a desejar, ainda mais, uma nova evasão. Normalmente, durante os dias que se seguem ao do regresso de uma viagem, tenho sempre a sensação que pairo no lugar onde me encontro e no tempo que decorre. Como uma presença fantástica. Muito subtil... quase transparente. Intermitente. Creio que seja pela indefinição que me ausento e regresso simultaneamente. Portanto, acredito que uma viagem possa mudar radicalmente uma pessoa. Basta que ela estabilize a sua imagem num intervalo.
De forma semelhante, um encontro também permite a mudança. O encontro com o Outro transforma-se num encontro específico, com condicionantes muito precisas, num contexto inalterável. Com tanta delimitação, a mudança parece ser a única via possível para o encontro não se transformar novamente, mas, desta vez, em desencontro. Mas propiciará uma mudança radical? E sob que circunstâncias é que a mudança deixa de ser uma simples mudança, um simples ajuste, e se transforma em mudança radical? Assusta-me, verdadeiramente, a mudança radical. Ou assusta-me a mudança radical quando perco algo em mim de que tanto gostava. E este algo é quase sempre interior por ser, primeiramente, exterior, porque as operações internas são resultado de outro tipo de relações que envolvem mudanças radicais temporárias. Por essa razão, as operações internas são, também, mais flexíveis e cada pessoa reconhece a sua fantástica capacidade em mudar. Creio mesmo que a mudança radical seja permitida por essa mesma flexibilidade interior. O que é um pouco contraditório com a própria noção de mudança radical. A não ser que considere que a mudança radical só seja possível exteriormente. Ou, por outro lado, que algo do interior tenha permanecido, durante um tempo, camuflado. Não sei o que será pior. E sinto o mesmo quando não sei o que é que faz as pessoas mudar. Embora sinta que determinados acontecimentos devam permanecer na perplexidade, insurjo-me sempre perante a incompreensão. E não estou a pensar que essa incompreensão de certa forma me completaria. Não! Estou a pensar numa coisa muito simples. A mudança radical dá lugar a uma negação. A uma destruição. E quem é que gosta de ver destruídas as coisas de que gosta mais? E quando não são coisas, mas pessoas?
Também há dias que nos fazem mudar. Se radicalmente ou não, não consigo responder. Mas às vezes é bom desprover-lhes o significado. Retirar-lhes o número como significante na sua relação connosco.

Sábado, Março 25, 2006

Deus ibi est

Domingo, Março 19, 2006

O desespero da arquitectura

A relação entre filosofia e arquitectura levou B. a tomar uma posição radical. Ao escrever a sua tese de doutoramento, decidiu cortar definitivamente com todos aqueles discursos, que se tornaram moda, provenientes da filosofia. B. é arquitecto de formação. A sua tese de mestrado era uma tese em arquitectura. De vez em quando, lá faz uns projectos mais ou menos utópicos ou conceptuais, mas acha-se "com os pés assentes na terra", até porque tem um irmão que é engenheiro que lhe vai chateando a cabeça. Não, B. não tem dúvidas que é um tipo que quer fazer arquitectura. Que bom é ter-se essa certeza.
Contava-me B., antes do jantar combinado para eu lhe falar de alguns problemas com que me andava a defrontar no meu mestrado (mal eu poderia imaginar que dele sairia com um problema maior ainda), todo despachado na sua maneira de falar sem parar, que "às duas por três" se deu a pensar em coisas que nada tinham a ver com aquilo que queria fazer. Os conceitos e os discursos filosóficos não serviam para nada a não ser para chatear a cabeça a um tipo. Isso não era com ele. Que se lixe a filosofia! Ele, arquitecto de formação, o que tinha a fazer era escrever uma tese em arquitectura com conceitos de arquitectura. Se para o filósofo, ele aplicava mal o termo "imagem", não lhe interessava, ele assumia-o, com todo o orgulho que um arquitecto pode ter da sua formação. Utilizaria o termo "imagem" à arquitecto.
Não lhe posso deixar de reconhecer alguma razão. Mas levei aquelas suas palavras um pouco a peito, sendo a minha expressão "levar a peito" unicamente significante da minha aflição. Já tinha construído na minha cabeça o meu futuro percurso. Aliás, já o havia descoberto há alguns anos atrás e chateava-me imenso ter que ouvir aquilo agora. Ter que ouvir os desabafos de B. sem que esses me causassem irritação. Ao contar o episódio ao Rui, com quem já não estava há algum tempo, este riu-se e obrigou-me a confessar que também eu algures já lhe tinha dado razão. Se considerar "dar razão" a um primeiro tombo no chão, acredito que sim, dei-lhe no próprio momento em que as palavras atingiram a minha audição. Mas agora que reflicto sobre isso, acredito que não. Foi um acto de desespero. Meu, claro! Dizia-me também B. que já havia tantas pessoas que tinham escrito sobre filosofia e arquitectura, sobre Deleuze e arquitectura, que foram poucas as vezes que se deixou deslumbrar por essas palavras. Acredito, mais uma vez, que tenha razão. Dou-lhe toda a razão.
Mas isso não me interessa para nada. Corbu passava a vida a dizer (durante toda a sua vida e várias, muitas, vezes pela sua vida) que o que lhe interessava era "o peso das coisas". Pensei: a arquitectura a ter um discurso próprio tem de se ocupar de tal forma com "o peso das coisas", que os únicos discursos que pode construir são apenas aqueles que só podem ser dizíveis em peso (para aplicar um termo à arquitecto ou à Corbu). Não quero com isto dizer que pensar em arquitectura com arquitectura seja o único discurso possível. Haverão outros, certamente... Mas também isso não me interessa. O que é que me interessa?
Atingir um nível em que trema à beira do abismo. Os meus pés dificilmente se manterão numa superfície sólida e o meu centro de gravidade inclinar-se-á um pouco para a frente, num movimento de balanço entre o meu corpo e o meu pensamento. Hesitarei, cederei talvez por vezes, por entre movimentos mais bruscos, mas desejarei manter-me nesse balanço. Eis como vejo a relação entre filosofia e arquitectura (muitos já saberão que eu nunca tenho os pés assentes na terra). Pensar arquitectura através de discursos filosóficos é colocarmo-nos à beira deste abismo. A filosofia tem esse processo elíptico em que as ideias nunca são fixas. E a arquitectura ocupa-se do peso das coisas! Mas eu quero chegar a um ponto em que a arquitectura não reconhece a si contornos dizíveis pelo peso das coisas. Quero vê-la a entrar em desespero! Provavelmente, eu é que irei ficar desesperada, mas também isso não me interessa. Já será tão bom chegar a esse limite... E certamente que terei muito a dizer sobre ele. Se será interessante ou não, não sei... Mas o importante é que serei eu a fazê-lo por desejo meu. Porque adoro Deleuze. E adoro Acconci. E Trisha Brown...

Sexta-feira, Março 17, 2006

Nada de estranho

A vida em branco é tão mais evidente quando olhamos para ela e vemos a ausência. Não uma ausência como as minhas ausências, mas a ausência que define uma vida em branco (sim, de certa forma, também é por essa ausência que eu me defino sempre). E sem esquecer (após a aula da Molder): só se conhece uma coisa quando se conhece a não-coisa. A vida em branco é pois a vida que não conhece a ausência (mas quem conhece, reconhece a sua ausência). E esta ausência é tudo!

Coisas estranhas, coisas soltas

De momento, estou ausente da minha inteligência. Aliás, ultimamente tem acontecido muitas vezes ausentar-me, enquanto Susana, da inteligência de Susana (sem querer atribuir qualquer valor, a opção pelo termo é da ciência...). Considero pois que são dissociáveis e daí a minha inteligência permitir que eu me ausente de vez em quando. E nunca o contrário: a minha inteligência nunca se ausenta de mim (o que aparentemente seria mais comum, mas tão pouco a inteligência gosta de lugares comuns). Esta minha ausência tem, porém, uma razão (coisa estranha... não à inteligência, mas a Susana). Tão simples quanto esta: não quero nada, durante uns tempos, com a minha inteligência. Tal como não quero nada com pessoas complicadas (não complexas, complicadas... obviamente são diferentes pessoas e, acima de tudo, pessoas diferentes). E porque me contamina de tal forma com o seu limite que tudo em mim deixa de ser Susana. Parece não fazer muito sentido, mas no momento, neste preciso momento em que me ausento dela, vejo como ela me limita tanto... Talvez assim faça mais sentido.
Uma vontade que tenho já há alguns dias... Não consigo precisar quantos. Não são muitos, mas parecem ter sido. Queria transcrever para aqui algumas notas sobre dois momentos importantes do tempo em que vivi em Barcelona (sim, há três anos! Os tais...). A razão também é simples, ainda que não seja estranha, mas apareça aqui mais ou menos solta, desligada, do tempo, do espaço, de tudo! Mas, mais uma vez, circunscreve-se a uma aparência. Hei-los:
Novembro, 19
Ontem não consegui escrever pois ainda estava emocionada demais, as palavras com certeza não iriam acompanhar o meu estado de euforia. Dia após dia enamoro-me desta cidade: os encantos que possui são infinitos. No Sábado, fomos assistir à passagem de uma película de animação dos anos 20, em simultâneo com o concerto (ao vivo) da sua "banda sonora", no hall do CCCB. Sentados no chão, deitados em almofadas, com pequenos e pontuais focos de luz, sentia-me em casa. Não, ainda não consigo descrever aquele momento. A história de encantar também – passava-se algures numa terra Spirito e era sobre um príncipe, uma princesa, Aladin, magos e bruxos, génios de lâmpada e outros mais, e a música mistura de violinos, baixo e sintonizadores. Lembrei-me, sempre, desde a primeira imagem, até "the end", de ti. As pessoas que estavam ali eram interessantíssimas e queria muito conhecê-las, mas cada vez mais desejo voltar para ti – este sentimento acentua-se com o passar veloz dos dias e do encantamento que vou possuindo pela cidade. Mas é a incompreensão de determinadas coisas, valores e ideias, que acentuam a minha visão daquilo que seria bom para mim. Neste momento, tu!
Novembro, 22
Ontem fomos ao cinema ver "Jonas in the desert", de Peter Semple. Chegámos apressadas a uma sala em tons vermelhos de luz. A tela ainda era branca tal como as toalhas das mesas que ocupavam a pista de uma discoteca mais tarde (soube-o quando exclamei – é bonita!): Nitsa. O filme era independente e nós também, daquele espaço, porque permanecia intocado por nós. As pessoas que o habitavam eram-nos estranhas, embora familiares ao olhar. Repetem-se em eventos deste tipo, consomem cultura alternativa, às vezes podem nem saber porquê... o filme era em inglês. Dizia Jonas que um filme independente era a liberdade de fazer libertar-se das formas e funções do cinema corrente. Era a visão de um homem, a sua expressão isolada como qualquer tela de Van Gogh, Gauguin ou Cézanne. A alternativa era o ser só – no deserto. Mas se a expressão é única, a multiplicidade dos seus frutos não o pode ser. Inúmeras pessoas apareciam a referir o quanto Jonas é especial e influenciou a sua arte. Estou numa fase de redescoberta após um ano de mudança. Várias pessoas, ao longo do ano passado, disseram que eu estava diferente. Não tinha notado, quer dizer, tomava determinadas posições que não eram habituais em mim, mas sentia-me bem. Era um novo hábito, a pele era minha porque a sentia. Neste momento, talvez pela experiência que estou a viver, tento clarificar quem sou e o que quero do futuro, quando regressar, por exemplo. Sempre fui por querer algo – sem o desejo e a paixão não sou alguém. À entrada da Sala Apolo ou Nitsa fixava várias pessoas e houve um rapaz de olhos azuis que deparou, por alguns segundos, o seu olhar no meu. Hoje recordei esse momento algumas vezes, mas não sei ainda qual o significado. Interrogo-me sobre a felicidade aqui: todos os momentos são efémeros, mas trazem um encanto inscrito neles. Tenho saudades, muitas, mas são tantas as coisas que me seduzem também... e sobretudo que vão passar a ser intrínsecas a quem sou.

Em jeito de nota: voltar atrás no tempo não tem significado algum. E ainda bem! O que permanece e o que me fez rescrever hoje estes dois excertos, dá-los a conhecer, é exactamente o mais irrelevante das minhas palavras. O mais banal. E, no entanto, o que ainda me faz pensar. O que ainda me move.
Vinha na viagem (exausta!) a pensar nas minhas ausências. Ouvi um único cd durante a viagem inteira, repetidamente: o último dos Mercury Rev. E uma música em especial mais vezes ainda.
Ain't it amazing when the seasons begin to change
Someone behind the scenes to pull some strings
I struggled with an old angel all nite long
I thought it might be nice if we talked 'til dawn
I never gave you... enough
I could've given you... my love
[E continua...]
Uma outra coisa solta. As aulas da Molder. Algo permanece em mim continuamente. Sempre fui por querer algo. Ou, como o meu pai dizia ao jantar a um amigo da família muito especial, após contar-lhe a história que tantas vezes conta: como é que eu passara a dormir sozinha no quarto com poucos meses de Vida. Acrescentando logo a seguir: "Também é por isso que é a mais independente". Só pude sorrir. Ser independente para o meu pai é exactamente o mesmo que para Peter Semple (coisa estranha...). E é-o na mesma medida que diz que eu não ando neste Mundo, ando noutro. Aí a minha expressão já não é a mesma. Também porque a graça com que diz não é a mesma. Perde toda a graça. Claro que para mim não! São a mesma coisa: ser independente e não pertencer a este Mundo. Ao meu mundo, pertenço de certeza! E nele sou independente. Ou: por ele sou independente! As aulas da Molder são fantásticas! Perturbadoras. Hoje aconteceu... uma coisa estranha. Completamente ausente (mas a ouvir atentamente), senti que algo de errado se passava com quem estava ao meu lado. Olhei e não vi qualquer sinal exterior de problema algum e, no entanto, quando lhe toquei levemente nos braços que encobriam o seu rosto e perguntei se estava tudo bem, constatei o mais horrível dos pressentimentos. Tudo o que Molder nos diz, ataca-nos. E cada um reage de forma diferente, mas, ao mesmo tempo, de forma idêntica. Tudo o que Molder nos diz, diz-nos sobre o nosso mundo. Sim, esse que só nós conhecemos e nos dizemos nele. O mundo que nos segura quando caímos em nós. Esse mundo que, por vezes e para alguns, se torna insuportável ou, pelo contrário, tão confortável que nos impede de regressar. As minhas ausências também têm a ver com isto. Nem tudo o que é estranho, é solto... nem o que é solto, é estranho.
Legenda: Eu, hoje, durante uma ausência.

Segunda-feira, Março 06, 2006

O limite

É engraçado como é que vimos a descobrir o nosso próprio limite ou o limite do corpo próprio. Se por um lado, o nosso corpo contém esse infinito dentro de si e são ilimitadas as suas capacidades, as suas necessidades, os seus desejos, se a sua condição é ser esse infinito, por outro lado, é frágil no seu limite. A sua condição de infinito é, na realidade, muito finita, muito condicionada. Os órgãos, de facto, atrapalham muito. E, depois de conhecer essa sua condição frágil e específica do meu limite, como me apercebi disso! Os órgãos, como Deleuze tantas vezes referiu, são obstáculos físicos a esse infinito transcendental (e por isso criou o "corpo sem órgãos").
Há alguns dias atrás, ou meses atrás, soube do quão perigoso seria aproximar-me de um qualquer limite imposto pela organização do meu corpo próprio. A minha única preocupação parecia ser, naquela altura, a minha dificuldade em dormir aquele número de horas que acredito ser o ideal para o meu funcionamento biológico. Com x horas, fico bem. Ontem, a minha preocupação era se eu poderia continuar a beber café. Com os trabalhos que tenho para fazer, o café tornou-se um aliado imprescindível e privar-me dele seria o fim do mundo. Mesmo que o fim naqueles minutos antecedentes me tivesse parecido demasiado próximo. Mas, como qualquer limite, depois de ultrapassado perde a sua condição de limite. E olhar para ele desse seu outro lado, transforma-se em algo difuso, imperceptível aos nossos olhos. Já não olhamos para ele como limite, mas também não o deixamos de apreender e registar como limite. Aquela zona indiscernível que lhe é intrínseca permite-nos continuar a olhar para ele como limite. Quer o tenhamos ultrapassado ou não. Porque ele perpetua algo de indecifrável, um momento que não se diz por causalidade alguma. Ainda que algumas justificações tentem emergir do horror ao não-se-saber-porquê.
Abano a cabeça perante tamanha sabedoria de algumas pessoas. Não propriamente àquelas de quem a Maria Ana foge a sete pés, mas exactamente àquelas que perceberam que o corpo próprio tem tanto de liberdade, como de prisão. Nos próximos dias, não tenho outro remédio senão mesmo usar uma lima para aço e aos poucos conquistar de novo a minha doce liberdade. Descanso. Por entre um café ou outro.

Quarta-feira, Março 01, 2006

Vida em Branco – parte II

Conforme tinha decidido, na noite seguinte peguei novamente no livro, saltei as duas páginas em branco e recomecei a leitura. As palavras que se seguiram, faziam todo o sentido. Era como se não tivesse saltado parte alguma. O prenúncio tinha ficado duas páginas atrás, a confirmação dava-se duas páginas à frente. E o entusiasmo pela leitura redobrava. Se já existia um estranho mistério oculto nas palavras que lia anteriormente, este adensara-se e recriava uma outra história dentro daquela que eu própria já havia construído. Mas o caos surgiu novamente. E desta vez o sono não obliterou a capacidade de verificar o resto do livro. A suspeita já deveria ter ocorrido, logo após as duas primeiras páginas em branco.
Sucumbi: tinha mesmo que trocar o livro. E despojar-me de toda a afecção que já havia criado por ele. Talvez renasça com um outro livro igual – igual, não! -, idêntico a ele. Amanhã, sim, amanhã, trocarei o livro. A história manter-se-á e a minha leitura far-se-á exactamente a partir daquela primeira página em branco: página 34. Suspeito, no entanto, que se haverá metáfora mais explícita do que o que eu nunca virei a saber sobre a minha personagem real será aquela do livro das páginas em branco. E começo a não gostar de metáforas. Já há algum tempo que venho a desconfiar desse mecanismo da linguagem (é fácil saber porquê...). Mas se aquele livro fala de toda uma vida em branco e aquele, aquele que é meu (mas vai deixar de o ser... ainda que tenta convencer o Senhor da livraria a deixar-me ficar com ele), tem, não duas, mas tantas páginas em branco, não pode existir metáfora alguma. As páginas em branco são mesmo aquela vida em branco. Por mais coisas que tenha a preenchê-la. Por mais viva que se sinta a minha personagem real. Estranhamente paradoxal.

Domingo, Fevereiro 26, 2006

Vida em Branco

Embora ultimamente passe o dia inteiro sentada a ler, custa-me (sobretudo porque as leituras diurnas são, normalmente, na língua de Sua Majestade) deitar sem pegar num livro que em nada tenha a ver com as coisas sérias que ocupam o meu pensamento. Preciso de distracção. Já há algum tempo também que, em vez de pegar numa ficção, pegava numa revista (preferencialmente de música), mais uma vez da terra de Sua Majestade, tão obcecada que estava com a crescente necessidade em aumentar a minha capacidade de leitura e escrita em inglês. Decidi, então, voltar a ler na minha língua mãe. Elegi um autor e um livro.
Ontem, mais tarde do que tem sido habitual, retomei a leitura que tinha deixado pendente pelo sono na noite anterior. Entusiasmadíssima, eis que deparei com duas páginas em branco! Coisa estranha nos dias de hoje, mas familiar à nossa dificuldade em atribuir qualquer erro a uma qualquer máquina. Ri-me! Não podia ser mais conveniente neste dias em que leio Understanding Media de McLuhan (o "guru dos media"). E, ao mesmo tempo, não podia ser mais inconveniente, quando finalmente me imaginava a compreender uma pessoa que me é especialmente querida (ou mesmo várias outras pessoas). Pensei melhor. As duas páginas em branco não são mais do que o espaço que eu tenho vazio na minha memória dessa minha incompreensão. Contêm, exactamente, sem tirar nem pôr, todas as palavras que me diriam como decifrar um dos muitos enigmas da existência dessa outra pessoa.
Inicialmente, pensei em trocar o livro, mas depois olhei para as marcas que tinha colocado junto às passagens mais esclarecedoras (mais intensas, mais cheias de vida, mais literais) em relação a esse alguém que eu começava a vislumbrar nas páginas daquele livro (e não de um qualquer igual a ele). O livro transformou-se no Outro, quando, subitamente, a personagem principal deu lugar a uma outra personagem, uma, especificamente, próxima de mim, parte de mim. O próprio registo autobiográfico do autor impelia-me a acreditar que existe realmente uma pessoa assim, que essa pessoa vive daquela maneira e que, em qualquer situação, aquela pessoa não muda. O livro já era meu. Como é que o poderia trocar?
Tomei uma decisão (já com a luz apagada): continuarei a ler o livro, saltando essas duas páginas em branco, e, no fim, ao acabar de ler a última página, encontrarei essas duas outras páginas que completarão, realmente, a minha leitura. Algures nesta ideia, tornavam-se presentes as palavras de Godard que havia lido durante a tarde. Sobre um filme, é certo, mas e se fossem sobre um livro? Para além das páginas em branco da história da minha personagem real continuarem por preencher (e dessa forma perpetuar a minha incompreensão, deixar o espaço vazio à espera de quaisquer palavras que contradigam todas as outras), testaria, na prática, algumas dúvidas que me têm ocupado o pensamento nos últimos dias, sobretudo na montagem (é literal) do meu trabalho para o seminário da Maria Teresa Cruz. Já só desejo acabar de ler o livro o mais depressa possível.

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

sempre Comigo

Your own personal Jesus
Someone to hear your prayers
Someone who cares
Your own personal Jesus
Someone to hear your prayers
Someone who’s there
Feeling unknown
And you’re all alone
Flesh and bone
By the telephone
Lift up the receiver
I’ll make you a believer
Take second best
Put me to the test
Things on your chest
You need to confess
I will deliver
You know
I’m a forgiver
Reach out and touch faith
Reach out and touch faith


Não vou dizer muito sobre o que muitos têm para dizer. Às vezes as palavras não acrescentam grande coisa. E, no entanto, marcam-nos intensamente. Talvez não tenham sido sequer as palavras que agora relembro e que desencadearam aquilo que se poderá assemelhar à onda Deleuziana (assumo por completo a minha total dependência de hoje em adiante de Deleuze) as mais importantes dessa noite ou desse dia. Incrivelmente, de tão especial que foi o meu dia e a minha noite neste 8 de Fevereiro, não consigo escrever palavra alguma (todas as que aqui estão não passarão de duplas de outras tantas virtuais).
No entanto, sobre o concerto, porque quase que já tenho por hábito fazê-lo, algumas notas simples (não as interpretem com exactidão ou rigor ou mesmo eloquência):
1. Adorei o concerto ou talvez não... sim, adorei. Mas desejei, por vezes, um som mais poderoso, mais arrebatador. Que não deixasse espaço para respirar. O meu elevado e descentrado centro de gravidade também poderá ter contribuído alguma coisa... O som parecia faltar. E o fôlego, consequente ou não, esmorecer. Desaparecer. Por entre alguma nostalgia, também, se calhar...
2. As asas pretas voam até mais alto. Não quero com isto dizer que os momentos mais intensos tenham sido protagonizados por Gore... Mas aquela diferença que muitos apontam em relação à maturidade dos Depeche, se calhar erradamente compreendida pelo título do último álbum, não é assim tão importante. Há uma diferença, mas essa reside em mim mesma (e cada um reconhecerá em si essa diferença).
3. É bom dançar e ver dançar. Às vezes parava por completo. Não abanava nem ombros, nem braços, nem anca, nem pernas... ficava estarrecida, presa ao chão. Mas o meu olhar percorria todos aqueles corpos, tantos metros abaixo do meu ou em redor e, dentro de mim, continuava a dançar. Nunca havia parado. Gahan certamente que mantinha o meu olhar preso um pouco mais e os seus movimentos encontravam nos meus um outro movimento...
Mais palavras para quê? Os momentos mais bonitos merecem ficar por dizer.


P.S. As fotos são do Eduardo.

Domingo, Fevereiro 05, 2006

Os ratos caíram em Lisboa e nenhum gato os apanhou...


Quando soube que os mouse on mars vinham a Lisboa, as palavras da Mok sobre o Sonar - "O melhor concerto foi sem dúvida o dos mouse on mars. Foi brutal..." – não podiam ter vindo à memória em melhor ocasião. Ainda por cima, tudo parecia reunir-se numa alegre composição espontânea: a Mok vinha a Lisboa ver o concerto que os irmãos organizavam - e há quanto tempo é que eu não via a Mok?! Há três anos... por entre gargalhadas no Royale, a medida de tempo para tudo, como diria o Artur, amigo da Mok, um dos que só conhecia de nome das conversas de Barcelona e que tive a alegria de poder conhecer nesta Sexta-feira à tarde, foi tudo há três anos... há três anos que tínhamos estado em Barcelona juntas -, a Raquel e o Pedro estavam por Lisboa e decidiram ir ao concerto, também, e, por último, a aula da manhã da Maria Teresa Cruz sobre esse hipermedium que é o computador, não poderia ter melhor demonstração prática (com todas as implicações audiovisuais, basta ver o site dos ratinhos...)!
Os prenúncios, de facto, não podiam ser melhores! E a expectativa em nada excedeu a constatação real dos factos. É um facto que os tipos são muito bons. O que não pôde ser deduzido da minha condição in loco. Esgotada, não de um dia, mas de muitos que começam a ter consequências sérias no meu corpo, mal consegui dançar e o meus ritmos reduziram-se à combinação binária das sequências em tons de verde que, de vez em quando, lá apareciam nas paredes da sala, alternando com as "bio-sequências". Mas tudo o que o corpo não disse explicitamente, di-lo-ei eu. O lapso temporal entre essa outra sequência e a reflexão na minha memória será inexistente e abolido de início. Não poderia ter sido melhor. E, mesmo entre o meu sim-não (para exemplificar de outra forma), a saída é sempre possível. Neste caso específico, a saída de mim mesma, enquanto corpo, e habitar os outros corpos que sucumbiam energicamente numa sala despovoada.
Eis algo incompreensível. Uma sala despovoada. Num duplo sentido, claro. Se todos desabitaram os seus corpos momentaneamente ou não, não o poderei dizer, mas o nervosismo dos irmãos da Mok afinal tinha algo de verdadeiro. Não pelo concerto, que "foi brutal", mais uma vez, mas por esses corpos que habitam (n)uma cidade com pretensão à universalidade (um sorriso à "Maria Teresa Cruz"; afinal o que é computador senão um medium com pretensão à universalidade?!). Das palavras da Mok sobre o Sonar, lembro-me, também, daquelas que indicavam uma sala a abarrotar em que mal se conseguia dançar ou, simplesmente, estar. Claro que é preciso entender o contexto do Sonar. E a quantidade de pessoas que move. O culto não é um mito, de certeza. Mas em Lisboa, éramos poucos. O que foi fantástico para os que conseguiram dar asas aos seus corpos e levantar voo até Marte! (Também eu, ainda que um peso maldito me obrigara a estar presa ao chão.) Na segunda vez que subiram ao palco, os mouse on mars pediram para escurecerem mais a sala. Segundo o Rodrigo, um ambiente mais escuro ajudaria a intensificar as reacções dos corpos dançantes. Sim, para criar uma superfície lisa (a Deleuziana, claro!) de modo a intensificar a sensação. Ou, simplesmente, porque a abstracção já ia num outro nível. Lisboa deslocara-se definitivamente para um outro lugar. Barcelona, Paris, Nova Iorque, Londres, Berlim... Marte! Não interessa. O espaço eclipsara num instante. Os seleccionados para a viagem tinham sido os privilegiados. Da memória retiniana, ficaram ondas azuis.

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

O fim dos dias

Parece estranho, mas ultimamente tenho andado com aquele sentimento de que não importa o que façamos ou que não façamos, os dias continuam a contar e o melhor que há é acelerarmo-nos a nós próprios e retirar deles exactamente o melhor. Ou, no meu caso, o limite de situações banais que, usualmente, entediam-me até à ponta dos cabelos. Entender o limite do dia próprio como que o limite do corpo próprio afinal não é novidade alguma.
Ontem tive o enorme prazer de ouvir um amigo que há muito não ouvia (sim, foi só ele que falou comigo, mas bastou e o mais curioso é que andava há mais de um mês para falar com ele e tinha exactamente na cabeça a situação em que seria eu a falar e ele a ouvir...). Dizia o Nuno que devemos "entrar a matar", "dizer aquilo que temos a dizer como no último dia da vida" (da nossa ou da de alguém) e que depois a vida prolongar-se-ia "em liberdade". Entender o nosso momento presente como o último dia da nossa vida é tão simples, continuava o Nuno. Quantas vezes não dizemos tudo aquilo que queríamos já há muito dizer e só arranjamos coragem de o fazer quando estamos perante o limite, seja este a morte ou outro... Eu tinha essa ideia que dizia sempre aquilo que pensava e sentia e que não tinha "papas na língua". Mas ontem percebi que não... pois onde está a liberdade de que falava o Nuno? E é verdade... Foram poucas as vezes em que isso me aconteceu, pensei, enquanto continuava a ouvir o Nuno... Nem sequer consigo agora localizá-las no tempo, só consigo localizar a sensação de liberdade, de "prolongamento da vida", como diz o Nuno, no meu corpo. E como é bom sentir isso! Creio mesmo que quando não sinto essa liberdade é porque alguma coisa ficou por dizer. É porque ainda tenho a dizer alguma coisa. Ou que ainda tenho a fazer alguma coisa. No fim, compreendo o meu limite ao contrário. Desfaço o espaço que o circunscreve, invertendo-o. Cada momento não é o último, mas sempre o primeiro. O primeiro dia do fim dos dias. Como há tempos atrás, que se lixe o tempo! E o antes e o depois. E, claro, o presente.

Domingo, Janeiro 15, 2006

O sono das crianças

Finalmente consegui dormir. Ao que parece a solução foi deitar-me às nove e meia da noite, antes dos meus próprios sobrinhos. E depois doze horas de sono ininterrupto. Imagino que ao fim de alguns dias o chá para as insónias também tenha contribuído... mas o importante é que, pelo menos durante algum tempo, vou andar recarregada e sem aquela estranha sensação de que o meu não sono é causado por algo imperceptível. Creio que cheguei mesmo a ficar obcecada com o meu não sono, sobretudo quando os cafés começaram a não surtir efeito. Como na Sexta-feira. Ainda que durma sempre mal em Lisboa, porque não é a minha cama bla bla bla, costumo andar mais ou menos arrebitada nesse dia. Mas nesta Sexta foram precisos quatro cafés para conseguir apenas conduzir e chegar a Coimbra (quando conduzir, para mim, já é café).
Resolvido o problema, retomarei o meu trabalho que já está há demasiado tempo em banho-maria. O número de páginas aumenta, de facto, mas ainda não consigo colocar um ponto final, o justo ponto em que damos connosco com um sorriso nos lábios (no corpo todo) de plena satisfação. E eu não consigo acabar qualquer coisa que faça sem esse limite. É o meu próprio limite. Como eu própria andava em stand-by, impus um outro limite. O José tinha combinado comigo a decisiva conversa sobre o meu futuro trabalho (ou a minha vida nos próximos anos, parte da minha vida!) para esta Quinta-feira passada e eu havia virtualmente colocado um ponto final na proposta de trabalho para o seminário da Maria Teresa Cruz: entregaria a proposta na Sexta e começaria a pensar, depois da conversa com o José, nos trabalhos para as suas cadeiras. Eis que o José não consegue voo e a conversa fica adiada. Toda a minha vida fica adiada. A mala pesada com o computador, os livros e os apontamentos, fica no carro e o ponto final da proposta do trabalho em suspenso até à próxima Quinta-feira (daí também não pode passar). A reacção imediata de alguma frustração não durou muito tempo. Estava tão anestesiada pelo cansaço que a ideia de passear nessa tarde de Quinta por Lisboa, ainda que mal chegasse a qualquer sítio e caísse sentada, era mais agradável do que acabar a proposta sem sorriso nos lábios. Óbvio! Definitivamente, não estava em condições. Se estaria a atingir um outro limite ou não, não cheguei a saber e fico feliz por permanecer na ignorância. Muito feliz! Agora, mãos à obra!
P.S. Recomenda-se o sono das crianças.

Sábado, Dezembro 31, 2005

O último dia do Ano

Fiz uma pausa no meu trabalho e decidi, antes da chegada de todas as palavras novas, dedicar este momento a escrever algumas que eu gostasse de recordar por esse(s) ano(s) fora. Não se trata de retrospectiva alguma sobre o ano que passou, nem pouco guardar os bons momentos dentro de palavras mais ou menos perenes, mas dedicar este momento a alguma coisa, ou no meu caso, a alguém. Ou a duas pessoas: à minha Mãe e a um dos meus melhores amigos, o Hugo. Não que exclua todas as outras pessoas que compõem a minha vida e me compõem a mim... não! São todas importantes, demasiado importantes! Mas este ano marcaram-me fortemente e, de uma maneira muito estranha, andam quase sempre ligadas. Já todos conhecem a minha enorme paixão e admiração pela minha Mãe. Não é de estranhar, por conseguinte, dedicar-lhe este dia e todos os outros que se seguem. Mas neste momento tem um outro significado só compreensível na sua própria força de vida. Só traduzível em si mesma e nunca por meras palavras. O Hugo... O Hugo é um dos meus melhores amigos. Sem dúvida. E agora está distante, embora eu nunca tenha realmente sentido distância alguma. Custa-me ainda muito, imenso!, pensar na relação que existe entre a minha Mãe e o Hugo. Eles próprios não sabem, nem sequer desconfiam, mas hoje parei para pensar nisso mesmo. Porque sinto, ao contrário do que poderia esperar, uma pequena e doce alegria por os reunir em momentos de uma tristeza sufocante ou mesmo agonia...
Abril de 2000: estava em casa do Hugo a fazer a minha página para a plaqueta. Lembro-me de pormenores tão estranhos, como tão reveladores, daqueles dias. Onde tinha o carro estacionado, onde o Hugo tinha o estirador e eu o meu telemóvel pousado. Já dos instantes seguintes a este tocar e ouvir as palavras do meu irmão João me lembro tão pouco. Foi o Hugo quem me deu o primeiro abraço após a morte da minha avó Luísa.
Julho de 2005: o Hugo estava em Coimbra uns dias para... já nem sei bem! E tinha combinado com vários amigos tomar café. Apesar do prenúncio das horas anteriores já demasiado angustiantes, eu não queria perder a oportunidade de estar com o Hugo, não! Vesti-me e saí. Ao descer as escadas de casa, comecei a ouvir os primeiros rumores. Duas vozes familiares e algumas palavras imperceptíveis. Afinal era o meu irmão Miguel e o meu pai a conversarem. Qual o meu espanto por os ver ali, à porta da garagem, encostados ao carro, àquela hora da noite, a falar baixinho. A minha Mãe havia feito a citologia naquela mesma tarde e não foram precisas muitas palavras para saber de que é que eles falavam. Os olhos vermelhos e inchados do meu irmão disseram-me tudo. Voltei para trás, dei uma desculpa qualquer à minha Mãe dizendo-lhe que afinal já não me apetecia sair. Nesse instante, ela soube. Fechei-me no quarto para esconder as lágrimas e a minha Mãe, passado algum tempo e já de camisa de dormir, abriu a porta e disse-me que já sabia. Que soube, mal eu voltei para trás. Que eu escusava de lhe esconder. Eu insisti que não me apetecia sair. Só isso. O Hugo foi o primeiro dos meus amigos a saber. E de Pamplona, para onde regressou passados poucos dias, me telefonou várias vezes... e ficávamos, por vezes, uma hora a falar...
Há poucos dias, tive a enorme alegria de lhe poder dizer que estava tudo bem, que me sentia especialmente feliz após tantos momentos difíceis nos últimos meses. Um dia, um destes dias, irei, de certeza, reencontrá-los de outra forma. É talvez por isso, por esse enorme desejo, que lhes dedico este dia.

Segunda-feira, Dezembro 19, 2005

Como desejo ser também tão silenciosa

Passei a tarde a ouvir o último cd do Jens Lekman. Passei a tarde a tentar perceber-me. A compreender as suas palavras. A compreender-me a mim. A compreender o ritmo por detrás da sua voz. A compreender-me a mim. A compreender o que sinto quando o ouço, o ouço, o ouço... A compreender-me a mim. A surpreender-me a mim. Como ainda o ouço... ainda... ainda... Ainda o ouço. Sempre. E é tão difícil ouvi-lo sempre outra vez. E é tão fascinante ouvi-lo mais uma vez. "Oh you're so silent Jens"! Como te ouço ainda!
Os efeitos são demasiados! Muitos. Fortes. Intensos. Jamais conseguirei quantificá-los e muito menos percebê-los em toda a sua dimensão, em toda a sua clareza, em toda a sua ressonância em mim. Lembro-me do André dizer ao José, durante uma aula, que quando ouvia uma passagem de Schönberg sobre o fim do Mundo, mesmo não percebendo alemão, conseguia ser Schönberg e a música perpassava o seu corpo e ele era Schönberg e o Mundo ia acabar. O mais engraçado é que percebo toda as palavras de Jens, mesmo que às vezes o sentido não seja aquele exacto das palavras, das frases, ou seja mesmo incompreensível, acho a sua loucura extraordinária e como o percebo! E acredito sempre que me percebo a mim. Não consigo parar de ouvir a sua voz no meu corpo. Às vezes muito lentamente até atingir um outro nervo. Outras, magistralmente, irrompendo por todo o meu ser. Explodindo-me para além dos limites razoáveis que ainda me delimitam. Fragilmente, mas ainda são Susana. Mas Jens não fala do fim do Mundo nem do fim de coisa alguma. Embora eu saiba que está sempre lá. Canta sempre o fim. E como o canta. Maravilhosamente bem. Talvez da forma mais bonita que eu conheço. E as lágrimas já não são lágrimas, são pequenas explosões de felicidade. Eternas explosões. Pequenas partículas, que se reacendem em mim, de felicidade. Uma doce melodia. Adormecerei ainda a ouvi-lo. Mesmo que os meus olhos pesem.

Domingo, Dezembro 18, 2005

A Casa de Klee


A "Casa Giratória" de Paul Klee é a casa de sonho de qualquer habitante de uma cidade qualquer. E é a partir dela que nasce a ideia de uma casa que seja, em si mesma, movimento. Na casa de Klee, as portas rebatem-se, as janelas desdobram-se, as escadas descaem e parecem rampas, as faces desmultiplicam-se e multiplicam-se em outras janelas. Novas janelas. A casa de Klee parece daquelas casas desenhadas por seres mais pequenos, que facilmente recusam qualquer parte da casa que os iniba de se movimentarem. A casa de Klee não é, no entanto, naïf. E muito menos imaginada ou impossível. A casa de Klee existe. E, no presente trabalho, recria-se.
Existe, porém, uma casa prévia, que pertence a um dos muitos bairros históricos de Lisboa. A casa prévia à casa giratória (sem metamorfoses) é caracterizada por um tipo comum. Este tipo comum é definido por uma planta rectangular base, comum a três pisos sobrepostos verticalmente, com um conjunto central de escadas e cujas fachadas disponíveis se resumem a duas (uma orientada para a rua e outra orientada para um logradouro). A casa de Klee tem todas as fachadas disponíveis e, por conseguinte, passíveis de várias operações: é ela própria um acontecimento. Mas, no presente trabalho, não existe uma reprodução da casa de Klee, mas uma recriação ou a criação de um dispositivo da casa de Klee numa qualquer casa de um bairro histórico de Lisboa: retira-se uma janela da casa prévia e coloca-se, em seu lugar, uma janela da casa giratória.
A janela da casa giratória é tridimensional, os seus planos desdobram-se e dão lugar a portas que, por sua vez, são rampas e percursos de um banco giratório. E a janela giratória move-se, também ela própria, por uma aparente escada, que se dobra e desdobra. Quando a janela atinge um qualquer nível diferente do seu lugar, este permanece buraco. E recolhendo-se a esse, fica janela, como uma qualquer bay-window. A escada recolhe até um certo momento, ficando pendurada na fachada, a uns metros acima do nível do pavimento, evitando qualquer acto de destruição (quando a escada se desdobra e fica em posição diagonal, não necessita de qualquer "batente" ao nível do pavimento, pois o próprio peso da janela, ao longo da direcção da escada, evita o movimento desta).
O movimento da janela giratória é em si mecânico: a janela desce e sobe ao longo da "escada" através de um sistema semelhante a um elevador. Mas, depois, porque a janela giratória tem esse carácter de jogo, os planos da janela desdobram-se e dobram-se por acção do seu habitante. Um idoso pode ter dificuldade em se movimentar, mas não perdeu a capacidade de brincar!
"Las actividades lúdicas conducirán inevitablemente a una dinamización del espacio. El Homo Ludens [em itálico no original] actúa sobre su entorno: interrumpe, cambia, intensifica; recorre los trayectos y deja trazas de sus actividades.
"Más que una herramienta de trabajo, el espacio se convierte para él en un objeto de juego. Por eso quiere que sea móvil y variable. Como ya no necesita desplazamientos rápidos, puede intensificar y complicar el uso del espacio, que para él es principalmente un terreno de juego, de aventura y exploración".
[Constant, in Andreotti, Libero; Costa, Xavier; Situacionistas, MACBA / Actar, Barcelona, 1996]

Segunda-feira, Dezembro 12, 2005

London and Coimbra as one

Já não há espanto algum quando eu carinhosamente, com um sorriso nos lábios de miúda traquina seguido de uma gargalhada menos estrondosa que a do Pedro, chamo a Coimbra "A Metrópole"! Sobretudo quando estou com aqueles amigos que abanam a cabeça de incompreensão por esta minha "paixão"... Mas ao ler a Wire ontem (provavelmente, a única revista mensal que eu demoro mais de um mês a ler), fiquei de boca aberta! E sorri imediatamente: eis a minha Metrópole no seu melhor!
Na secção das novidades, mais ou menos a meio, aparece a revelação (caída novamente em mim, não é de estranhar tanto assim):
"The Wire's Adventures in Modern Music radio show, which is broadcast from London on Resonance 104.4 FM every Thursday between 9:30-11 pm GMT, has been syndicated do Rádio Universidade De [o "D" maiúsculo é mesmo do texto da Wire] Coimbra 107.9 FM, a college radio station in Coimbra, Portugal. The show is rebroadcast every Tuesday morning between 2-3:30 am local time and is also streamed via the station's Website, www.ruc.pt. To access the stream click the Emissão on line link".
Mais palavras para quê?

Quarta-feira, Dezembro 07, 2005

Things aren't as they seem

In the Wilderness, by Mercury Rev
[Refrain]

In the wilderness... things aren't as they seem
In the wilderness... Life is but a dream
That flows on...

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

O cão dos olhos azuis

Já não me lembro da última vez que fiz esta viagem de comboio (excepto hoje de manhã), já não me lembro de escrever no comboio sequer, esta experiência é ainda mais longínqua no tempo do que a da viagem só por ela. Mas enquanto vinha no táxi para Santa Apolónia, esgotada, com a cabeça encostada ao assento, de olhos fechados com uma fresta na janela a salpicar-me a cara de ar fresco, apeteceu-me imenso escrever. Não obstante o cansaço, tento. Quero mesmo escrever sobre o que de repente assombrou o meu pensamento. Na realidade, assombrou todo o meu ser. Meteu-me, novamente e como já há muito não experienciava, medo. Um cão de olhos azuis. Mas o mesmo cão de que falava há algum tempo atrás. Na altura era informe, apresentava-se-me como desconhecido, sob a luz dos faróis do meu carro à noite, entre o Coelho Branco e a Rainha de Copas. Hoje não, adquiriu uma forma de ser, entre cão e homem, um nome e uma cor de olhos. Os olhos deixaram de ser estranhos, ainda que apenas temporariamente, e obrigaram-me a olhar um todo, um outro todo que existe para além de mim neste momento e no qual eu me reconhecia como sendo eu. Enraivecida, pensei que seria meu o erro em pensar toda essa existência perante aquele ser.
Continua desconhecido, apesar do nome que lhe atribuo – sim, sou eu que lhe atribuo um nome e não ele que se diz por um determinado nome – e assim desejo que continue. Ainda que mande ao ar o Coelho Branco e a Rainha de Copas, desejo continuar por mais um tempo com o meu pensamento livre de ambiguidades. Ser, estar, ficar fora de mim por mais durante um tempo. Mas desconfio que a partir de hoje isso seja difícil, que seja difícil colocar-me face a uma total indiferença perante o desconhecido agora habitado por um cão de olhos azuis. O cão de olhos azuis obriga-me a olhar o mundo de outro modo. Com uns óculos especiais de lentes especiais e efeitos secundários (monocromáticos, porém). Estou mesmo a precisar de dormir, de descansar a minha cabeça, a minha pobre cabecinha.
E se o cão me morder? Fico com os seus dentes marcados na minha pele e grito? É esta incerteza que me prende a um tempo que afinal prefiro que ainda descanse em mim (e este descanso é idêntico ao dos mortos, em paz, sem alterar coisa alguma na existência, na minha calma e doce existência, no meu passar dos dias, na minha vida bonita, demasiado bonita, para ser justa para com ela). Sim, tenho medo de um cão de olhos azuis, mas não tenho medo de viver. Desta vez, as coisas não são assim tão simples. Há algo que escapa, que não compreendo, mas desejo profundamente conhecer, ainda que tenha medo. Existem em mim, naturalmente (neste momento muito específico são-me inerentes, amanhã deixarão de o ser), o desejo e o medo, a atracção e a repulsão por esse cão de olhos azuis. Todas as pessoas têm esse cão a olhar para elas. Eu apenas lhe vi os olhos e percebi a sua cor. A que enche agora a minha existência.

Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Devir-ipod

Bem me parecia que ia acabar por escrever sobre isto. Embora não saiba muito bem porquê... Ontem explicava ao Rodrigo o que é que me andava a acontecer com o ipod, ao mesmo tempo que lhe dizia que ainda não tinha escrito sobre isso, mas que, provavelmente, iria escrever. Claro que não sei se poderei chamar a este estranho acontecimento devir-ipod, mas há, de facto, algo em mim de ipod e no meu ipod algo de mim, que a selecção que ele apresenta durante as minhas viagens a Lisboa está sempre de acordo com o que eu "preciso" de ouvir. Nem sequer me pede licença, coloca as músicas desenfreadamente, ao ritmo que ele acha ser melhor e mais adequado ao momento. E qual o meu espanto, acerta!
Exemplificando: na Quinta-feira tinha uma reunião em Lisboa às cinco e meia da tarde e não consegui sair de Coimbra antes das quatro e meia; sentei-me no carro (pedi-lhe desculpa por ter que fazer a viagem a um ritmo que ele já não conhece; sim, para espanto dos meus amigos – que ainda não acreditam – eu agora ando devagar), liguei o ipod em shuffle e... eis que ele começa a passar the Duke Spirit, Franz Ferdinand, the White Stripes, lcd soundsystem, le Tigre, Arcade Fire... sempre a abrir! Nem sabe o bem me fez e o quanto me ajudou nessa viagem. É mesmo verdade que já não fazia uma viagem de carro assim tão louca desde Julho (sim, consigo precisar a última vez que andei a uma velocidade não recomendada). Embora não tenha conseguido chegar às cinco e meia, o atraso foi menor. Ontem, aconteceu exactamente o contrário (no que respeita à selecção do meu ipod). Saí de Coimbra com todo o tempo do mundo para fazer uma viagem tranquila. Tinha combinado lanchar com o Rodrigo, mas tinha tempo, aliás, acabei por chegar mais cedo do que o previsto e andei sempre nos limites (com bónus) da lei. Mas o mais curioso é que o meu ipod decidiu passar praticamente só the Divine Comedy! Por serem os anos do Rodrigo?! Não sei... Mas a meio da viagem, desatei às gargalhadas, porque já eram coincidências a mais.
Existe, de facto, essa estranha relação entre mim e o meu ipod, sobretudo quando este está em shuffle. Aliás, não é a primeira vez que penso sobre isto e até já apontei, algures lá para baixo, uma coisa do género "a memória shuffle é mais tramada do que isso". O isso não vem agora ao caso, no entanto, a minha opinião mantém-se acerca da memória shuffle. É muito tramada! Nem conto como foi a viagem para cá...

Segunda-feira, Novembro 28, 2005

Depois de dez horas de sono

Estou de volta! Ontem, quando cheguei a Coimbra, ainda pensei em escrever algumas palavras sobre a fantástica noite de Sábado, mas as poucas horas de sono imobilizaram imediatamente qualquer vontade que tivesse em fazê-lo. Acho que, também, não iria conseguir dizer grande coisa, grande de justo e à medida, de tão emocionada que estava. Ainda estou. Portanto, as palavras vão escapar-me mais uma vez...
O João V. decidiu oferecer-me, como prenda de aniversário, um bilhete para a festa da Oxigénio, mais especificamente, para o concerto do Jamie Lidell, para minha felicidade! Vai ser difícil não cair em repetição, porque já foram muitas as pessoas que viram um concerto do Jamie e escreveram sobre ele. Que o Jamie se desdobra em contínuas transformações de si mesmo, já todas as pessoas sabem. Que o Jamie tem uns sapatos engraçados, já todas as pessoas sabem. Que o Jamie cola fita preta na maçã do seu Mac, já todas as pessoas sabem. Que o Pablo Fiasco é um grande maluco, também, já todas as pessoas sabem. O que é que as pessoas não sabem? Não faço a mínima ideia! Mas eu soube, mal começou a cantar, quem era Jamie Lidell. Como canta, como dança, como fala ternamente com o público, como diz timidamente "thank you" com um sorriso de miúdo de cinco anos a receber um enorme chupa-chupa vermelho em espiral e sem qualquer pretensão de artista que sai na capa da Wire ou cujo álbum foi considerado, por muitos, como um dos melhores dos últimos tempos. O Jamie é um rapaz simples. Costuma ele dizer, a quem já teve esse privilégio de conversar com ele enquanto come sopa, que é um rapaz do campo. O Jamie não gosta de cidades, prefere viver numa cidade calma e mais pequena do que numa Metropolis. E isso sente-se. A sua felicidade sente-se nessa simplicidade genuína. E vive em Berlim por isso mesmo. Porque quando sai à rua, encontra os amigos e as pessoas dizem-lhe olá e adeus e bom dia e boa tarde e tudo o que lhes vai na cabeça naquele momento. Porque, como diz, é um rapaz do campo. Simples. Com uma vida simples. Mas muito bonita. Sim, é isso que eu sei. A vida de Jamie Lidell é muito bonita. E está presente nesse tudo que ele faz durante um concerto. Que o Jamie faz tudo, também, já as pessoas sabem. E que é um sonhador, como ele diz, também. "Boy in a bubble". Sim. E eu também. O espaço do Sabotage (sem comentários, para salvaguardar qualquer juízo possível) desapareceu naquele instante em que o Jamie começou a cantar. Ouço agora, também. Não para me servir de inspiração, mas para poder reviver uma vez mais, ainda que de forma diferente, esse momento. O espaço desapareceu, o mundo desapareceu. E eu transformei-me em bola de sabão de superfície tangível a sons, formas, imagens, pequenas partículas que tornavam o ar mais leve (qual fumo?) e os meus sentidos infinitos. Desapareceu tudo! Puf! Num instante! E eu, bola de sabão, flutuei, flutuei... Os sonhos desapareceram, também. Porque deixaram de o ser. Numa bola de sabão e ao som de Jamie Lidell são reais e são possíveis. Porque é um rapaz simples e gosta de palavras simples. O Jamie diz o que tem a dizer, de forma simples, sem metáforas. Sem esconder, por trás de palavras bonitas e complicadas, o que sente. Quando diz "the city it don't like you", é mesmo isso que quer dizer. Qual metáfora, quais influências! Gosta de viver em Berlim. O Eduardo A., antes da primeira aula da manhã de Sexta-feira, perguntava-me a brincar, enquanto eu lhe explicava a letra de "Multiply", se eu iria fazer um trabalho para o seminário do José sobre isso. Sorri: "porque não?!". "Sabes o que é engraçado?" e acrescentei a história do Jamie sobre Berlim e depois a minha pequena reflexão sobre Berlim enquanto cidade e por aí fora... Provavelmente, terei um pouco de Jamie Lidell (ou serei um pouco Jamie Lidell) no trabalho para o José, que um dia nos perguntou por que é que existem músicos e arquitectos (entre outros) inspirados em Deleuze. Faz sentido.
Foi, realmente, um concerto fantástico! E como pensava, não soube dizer senão umas palavras dispersas sobre tudo o que aconteceu. Sobre os dois concertos anteriores, também, não vou conseguir dizer muito. Não me apetece... (o que não é sinónimo de não ter gostado, porque gostei). A não ser: viva o bigode! Se for a expressão de bons músicos, vale a pena!
E agora... algumas imagens, que começam a fazer falta por aqui!




Jackson and His Computer Band

WhoMadeWho


Domingo, Novembro 20, 2005

Porque Amo

Há tantas pessoas bonitas! E eu tenho imensa sorte em conhecer algumas. Muitas! E amo-as.

Sábado, Novembro 19, 2005

O Fim

O começo foi o fim também. Será que chegou a ser mesmo um começo? Hoje duvido muito que tenha sido, duvido que tenha sequer existido. É uma memória, vaga e distante, na atribulação dos dias, dos meus dias. Tenho saudades do que nem sequer existiu. Será possível? Nem letra alguma de JC me conforta: it would be just an another bad cover version. Nem mesmo a solução de Jamie Lidell: "I'm so tired of repeating myself / beating myself up / wanna take a trip and multiply / least go under with a smile". Tinha essa esperança de descansar de mim mesma e do mundo complicado das palavras complicadas, dos gestos complicados e das pessoas complicadas. Tinha essa esperança de, durante duas horas e pouco, mandar tudo ao ar e respirar de novo. "Breathe in. Breath out. Breath in. Breath out" (Pulp). Só isto.
O fim foi devidamente anunciado pelo José. O Pedro está doente. Está muito doente, como ele próprio diz e com gosto em poder dizê-lo. Não sei se gosta de estar doente ou se gosta da ideia de um dia "dar um tiro nos miolos", mas gosta de o dizer. Dizer que está muito doente e que um dia "dá um tiro nos miolos". Curiosamente, após a morte anunciada das aulas do Pedro pelo José, encontrei um livro do Pedro na estante das últimas novidades: "Os corações também se gastam". A capa é prateada e na parte que dobra lá aparece a última imagem do Pedro (antes de cortar o cabelo e parecer ainda mais gordo). As letras do título são a vermelho (porque será?). E o conjunto, o livro, salta à vista. Mais ainda quando se lê o título. Mas o coração do Pedro não está gasto. Está aparentemente gasto, porque ele o quer gasto e que todos o recebam com um coração gasto. O meu, nem pensar! Se o fim nem sequer chegou para esgotar o que nem sequer existiu, como poderia eu alguma vez gastar o meu coração?
A lufada de ar fresco ficará a pairar no ar. Na próxima semana, refarei toda a minha rotina mais uma vez (a antiga também não chegou a ser rotina). E preparo-me para esquecer tudo o que já deveria ter esquecido há muito. Sexta, às nove e meia, lá estarei.

Quarta-feira, Novembro 16, 2005

Sem tempo

O título original era "E se eu explodisse o Coelho Branco e a Rainha de Copas?", mas depois achei melhor voltar atrás, apagar e escrever "Sem tempo", porque é disso que se trata. Que eu queira mandar ao ar o Coelho Branco e a Rainha de Copas também é verdade!
Ontem de manhã, deparei-me com a minha falta de tempo (como tantas outras pessoas por esse mundo fora). É verdade: nunca tenho tempo para nada, queixo-me sempre da falta de tempo, penso em dormir 8 a 9 horas por noite, andar uma hora a pé, ler os livros empilhados em cima do meu estirador ao lado dos outros tantos dicionários, fazer os convites para o almoço de Natal, imprimir as fotografias do casamento da Carla e distribuir pelos meus amigos, deliciar-me com um café à beira-rio ou um chocolate quente, huuummm... E fazer tantos outros projectos e perder-me, perder-me infinitamente no tempo. Não, não penso, nem desejo que o dia tivesse mais de 24 horas, nem que eu pudesse dormir menos (e muito menos em tomar comprimidos para isso), nem que o tempo parasse e eu continuasse a trabalhar, a dormir, a ler, a brincar, a rir, a saltar... não! Seria horrível! Mas explodir o tempo talvez fosse boa ideia! Ainda não sei muito bem como é que poderia fazê-lo, embora já tenha algumas ideias, mais não seja, mandá-lo a... um sítio sempre que me apetecesse ficar mais umas horas quentinha na cama. E o tempo se quisesse, poderia recorrer ao meu relógio e adiantar-me umas horitas. E quando eu fosse andar a pé, obrigava-me a andar ainda mais depressa, em forward, para recuperar (até recuperaria duplamente). Não quero de modo algum acabar com o tempo! Não, também não! Mas torná-lo flexível... Sem aquelas tretas de políticas de gestão ou de organização de rentabilização e flexibilização do tempo! Torná-lo flexível seria multiplicá-lo sem causar danos secundários. Colocar um fragmento neste momento em que preciso de mais um bocadinho de tempo e depois tirar outro fragmento daquele momento em que não preciso de tempo a mais. Como as viagens de comboio! A maior parte das pessoas diz que prefere andar de comboio porque pode trabalhar ou ler ou ver um filme ou ouvir música. De facto, posso fazer tudo isso, mas, para mim, a viagem de comboio é um enorme desperdício de tempo. Tudo o que leio na viagem de comboio, releio outra vez. Tudo o que faço, parece-me ridículo instantes depois. O que escapa ao meu tempo é ouvir música ou ver algum filme, mas mesmo assim, para isso, arranjaria outro tempo. Arranjo sempre. Porque me são imprescindíveis. Mas a viagem não o é. Nas viagens de comboio, por exemplo, encolheria o tempo. Parece-me bem...
Saber-me-ia o tempo de outra forma, se eu pudesse efectuar todas estas operações? Ou melhor, saber-me-ia a alguma coisa o tempo?

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

Maria Ana - parte II

É um privilégio poder aprender sobre a Maria nas minhas aulas de mestrado. Aparentemente, não têm nada a ver uma com a outra - a Maria e as aulas de mestrado de Estética –, mas têm! E muito. Segundo Deleuze, as crianças são puro desejo. A sua condição é desejar continuamente. Dizia-nos o José, na última aula, que quando uma criança vê fogo, deseja ser fogo. E daí a eterna atracção das crianças pelo fogo ou pela água ou por tudo o que se mexe. Existe, também, essa estreita relação entre o desejo e o movimento inerente às coisas. E as crianças são puro movimento. Uma criança quando vê uns óculos, continuava o José, intercalando com um breve sorriso para dar o exemplo contrário ao da maior parte dos filósofos que tendem a referir-se a uns óculos como um objecto estático, como um conceito, não vê os óculos pousados em cima da mesa, nem isolados de tudo o resto. A criança vê os óculos em movimento, vê as possibilidades de movimento que uns óculos podem criar, as hastes a dobrar, as lentes a virar, vê o movimento da luz a perpassar as lentes, vê só movimento. E deseja, por uns instantes, ser óculos. A vida de uma criança é este "devir incessante", acrescentava José.
Tudo a propósito dos desenhos das crianças. Deleuze tem esse fascínio pelas crianças (mais uma razão porque gosto tanto de Deleuze) e diz que a única coisa que falta aos seus desenhos para estes serem arte é a consistência (ou o plano de consistência). Quando a criança desenha, o seu desenho é exactamente um plano de imanência, mas ausente de consistência. Faltam-me ainda muitas e muitas e muitas palavras para tentar explicar o que são esses dois planos e, por agora, também não são importantes as suas definições (se é que existem, porque não podem de algum modo ser estáticas... com um sorriso nos lábios qual José a falar dos filósofos). Mas foi exactamente após estas palavras do José e ao começar a dar um exemplo, que eu me lembrei da Maria e de algo que nunca tinha percebido inteiramente. A Maria adora gatos (e cães e pássaros e sapos e cavalos e tudo e tudo) e quando desenha um gato (vamos ver se sou capaz de demonstrar!), pega num lápis e está continuamente a desenhar o gato ou continuamente a descrever movimentos no seu desenho ao mesmo tempo que nos diz que é um gato. Para a Maria, é muito simples: o gato é os movimentos que ela descreve com o seu braço e que ficam registados na folha de papel como circunferências disformes (enchem a folha inteira!). É o movimento que é, para a Maria, o gato. Quando pára de desenhar, a Maria atira logo a folha de papel para o chão e começa a desenhar outro gato. Já não é aquele gato que ficou registado na folha de papel, agora no chão, que lhe interessa. Aquele já não é um gato, nem o desenho de um gato. É uma folha de papel no chão que daí a uns instantes está a rasgar e a espalhar os pedacinhos pela sala. Eis algo de extraordinário na Maria (e em todas as crianças, claro, mas posso acompanhar a Maria de perto e agora saber por que é que ela é assim... excepcional)!

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Maria Ana

A Maria Ana é uma miúda excepcional! Estranho seria dizer o contrário, uma vez que a Maria é minha sobrinha. Mas isso é aqui um pequeno pormenor, embora deva acrescentar que a minha relação com a Maria é tão especial, que um amigo meu costumava dizer: "Susana, estás a entrar outra vez em delírio mariano!". E continua a ser verdade. Sempre que falo da Maria a alguém, os meus olhos explodem de alegria e raras são as ocasiões, raríssimas, em que consigo conciliar as minhas palavras com tamanho sentimento. É imenso! Acho mesmo que a expressão "delírio mariano" é a que resume melhor esse meu estado quando falo da Maria. Mas, como disse, não era isso que eu queria apontar. É uma outra história.
Do princípio: a Maria Ana é uma miúda excepcional! Como todas as meninas, e meninos também (suponho...), de dois anos, gosta de andar a correr e a saltar, a correr e a saltar, à volta da mesa, enquanto vê o Noddy na televisão. O Noddy, para os que não o conhecem, é um boneco que parece fazer as delícias dos mais pequeninos. Imagino que seja do seu ar de duende encantado, de chapéu azul com um guizo amarelo na ponta e casaco vermelho a combinar com um lenço às bolinhas amarelas. O que de certeza também seduz a Maria é o carro que o Noddy tem. "Uau!", como diz a Maria. Di-lo, aliás, muitas vezes e sobre todas as coisas que, aos seus olhos grandes e redondos, parecem ser sempre fantásticas. O carro do Noddy e, sobretudo, a buzina do carro do Noddy são, de certeza, motivo para tal exclamação da Maria. Um dia obrigou-me a pôr o Noddy no computador. Sabia perfeitamente que podia ver o Noddy no computador e, inclusive, imprimir as imagens do Noddy para depois pintar. Mal ela sonha que o Noddy vem cá, qual estrela pop, ao Pavilhão Atlântico! A Maria sabe até a música de cor... E o nome de todas as personagens... Aqui está o problema! A Maria gosta tanto, mas tanto, da personagem de uma macaca chamada Marta, que julga ela própria chamar-se Marta. "Maria Marta", diz a Maria sempre que alguém lhe pergunta o nome. Se alguém a corrige - "não é Maria Marta, é Maria Ana" – a Maria bate o pé e grita com toda a força que tem: "Maria Martaaaaaaa"! E ela tem aquela vozinha doce, mas toda determinada, a que é impossível resistir. Eu, a brincar, digo ao meu irmão que isto já faz denotar uma certa adulteração na pessoa da Maria. A Maria não quer simplesmente ser Maria Ana. Quer ser Maria Marta. Até pode ser por gostar tanto da macaca, de facto, de vez em quando, lá anda a dizer que "é uma macaca". Mas, poucos minutos depois, está no chão a dizer que é um gato! E tanto macaca, como gato, está só a "imitar" uma macaca ou um gato. Nada demais. No entanto, quando altera o seu nome e recusa o nome que é dela, creio que a Maria está a pensar que pode realmente escolher o seu nome. E tem razão. A Maria conhece-se a si enquanto Maria Marta. Deveria, então, chamar-se Maria Marta. Por que é que não escolhemos o nome pelo qual nos conhecemos a nós próprios? Não o nome pelo qual nos chamam, mas o nome pelo qual nos conhecemos. À medida que vamos aprendendo o nome das coisas, também vamos aprendendo o nosso nome. E este nome pode ser exactamente aquele que elegemos para nos chamarmos a nós próprios. Também isto não deveria ser nada demais.
A alteração do nome pela Maria é, também, evidentemente um sinal da sua forte personalidade. E a Maria tem toda a consciência disso, aliás, reforça isso mesmo com o bater do pé e o ar zangado quando lhe dizem que ela não se chama Maria Marta, mas Maria Ana. E eu confesso: é adorável e às vezes provoco-a de propósito...

Domingo, Novembro 06, 2005

De quem fujo? Do Coelho Branco ou da Rainha de Copas?

O meu tempo voltou atrás. Não, não se trata disso. Mas voltou. Voltou de forma diferente, de uma forma diferente. Dizem que muitas situações se repetem, que a história é cíclica, que volta tudo outra vez. De facto, há sempre algo que volta e neste momento que atravesso existe esse algo que voltou. Custa-me defini-lo, porque permanece ainda informe na minha memória. E digo memória propositadamente. Primeiro, porque vejo nesse algo, algo de um passado não muito longínquo e algo de um presente que remete para esse passado, sem grandes coisas (a minha memória é muito pragmática nisso, ao contrário de... enfim!).
Na realidade não sei de quem fujo. Sei que não é de mim própria, mas é certamente de algo em mim. E do Coelho Branco e da Rainha de Copas, certamente. Mas como o tempo não se repete, nem volta atrás, nem pára, como posso eu fugir do Coelho Branco e da Rainha de Copas? Pelo desconhecido. Neste algo que me atravessa só consigo identificar algo desse tempo que ainda é reconhecível. Ainda por cima quando o Coelho Branco nos pergunta as horas! Ele está ali à nossa frente e não temos como evitá-lo, como desviar dele o nosso olhar e difundir o nosso tempo e o nosso espaço. É inevitável, porém eu fujo. A Rainha de Copas, no entanto, parece-me distante, aliás, continua a parecer-me distante. Mas é mentira. Tal como ela mente a si própria. Pior mentira, essa, não é? E numa esquina, encontro-a. Afinal, a distância era uma questão de "centímetros" de tempo. Em segundos, em instantes, ao virar de uma esquina, aparece-me a Rainha de Copas. Não diz nada, mas revejo no seu olhar todo um outro tempo. Aquele que deveria ser repetido.
As horas no relógio do Coelho Branco não param. Os minutos, esses podem parar. E suspender o meu tempo em lembranças, em memórias. Mas as horas não param. E ainda bem. Porque criam em mim esse sentimento duplo de não querer que o tempo pare e muito menos que volte atrás, mas que a memória, essa sim, possa voltar sempre que me apeteça num minuto suspenso. E me ajude a decidir. Se fujo ou não, já não é a questão. Tenho o Coelho Branco e a Rainha de Copas à minha frente. Já não posso fugir. Mas posso escolher e depois posso voltar atrás, porque o relógio do Coelho Branco pode parar num tempo sem que as horas parem de contar, e escolher de novo. Um outro tempo. Escolher sempre de novo. E a escolha torna-se sempre a melhor. A seu tempo.
Ia para casa Quinta-feira à noite. Não para minha casa, mas para a casa de uns amigos onde fico quando tenho de ficar em Lisboa de um dia para o outro. Não me lembrava muito bem do percurso e estava esgotada. O dia, ou melhor, a tarde tinha sido uma espiral de emoções (não digo sentimentos, mas sim simples, puras e reactivas emoções) e a noite começara por ser tranquila. Parada num semáforo, vi um cão. Um cão de rua (que afinal tinha dono) sob a luz dos faróis do meu carro. Nunca tinha pensado naquilo. Mas, não sei porquê, talvez por uma espécie de antecipação ou de colisão no meu pensamento pelos momentos imediatamente anteriores (o ter-me despedido de vários amigos), parei o meu olhar no olhar do cão. E vi-lhe os olhos. Se já sabia, nunca tinha prestado devida atenção (e de certeza que existem explicações científicas). Os olhos de um cão à noite sob a luz dos faróis de um carro desaparecem e aparecem. Desaparecem, porque se transformam num buraco. E esse buraco transforma-se em luz pura que surge aos nossos olhos como total e o buraco é um buraco e o cão não tem olhos e a luz que surge à superfície é a da profundidade do buraco. Ou, então, a luz enche a circunferência que delimita os olhos do cão com uma matéria ou com um fluxo material, palpável, tridimensional. E é outra coisa, uma matéria que nos é estranha. Os olhos do cão, por uns instantes, que eu não compreendo como um tempo comum a mim e ao cão, são outra coisa. São mesmo outra coisa. Porque os meus olhos à noite sob a luz dos faróis de um carro não são como os olhos do cão. Os meus olhos não suportariam tal luz! Num instante (e aqui o tempo é comum a mim e ao cão), eu fecharia os olhos. Instintivamente. O cão, não.
Na aula da manhã seguinte, o José (que não nos disse para o tratarmos por "Senhor Professor ou José", mas que eu tratarei, só aqui, por José) perguntava-nos o que é que acontece quando nós olhamos para um cão e o cão olha para nós. E isto sem que entre o cão e nós exista uma relação de sentimento, como aquela que existe entre nós e um animal de estimação. Sorri. Afinal a minha experiência da noite anterior não tinha sido assim tão estranha ou louca. A resposta do José não interessa para aqui. Interessa, claro! E muito. Porque as palavras do José são imensamente sábias (custa-me, aliás, atribuir-lhes qualquer ordem de valor). Mas os olhos do cão na noite anterior, sem que eu soubesse, disseram-me outra coisa que só pude compreender no fim da aula do José. O cão, o Coelho Branco e a Rainha de Copas pertencem todos ao meu tempo. O tempo que é só meu e no qual penso e escolho e vivo. Neste preciso momento, estão os três à minha frente.

Terça-feira, Novembro 01, 2005

O retorno (sem conotações)

Tenho uma enorme dor de cabeça há vários dias e ainda por cima deve ter criado por mim um sentimento de pertença porque teima em não me abandonar. E logo hoje que comecei a ler Francis Bacon: logique de la sensation, de Deleuze. Não passei do primeiro capítulo. Já não estou habituada a ler em francês e a dor de cabeça, teimosamente, também não permitiu qualquer esforço da minha parte. Até Sexta, tenho que ler, pelo menos, até ao sétimo capítulo. Pensei, então, que a minha dor de cabeça deveria provir de alguma causa não muito estranha ou alheia à minha rotina nos últimos dias. Excesso de vitaminas? Não creio, alguns ingredientes têm que compensar a ausência de jantar. Ontem havia chovido torrencialmente durante todo o dia, tal como nos dias anteriores. A chuva também teima em caracterizar-me o dia. Mas hoje, de facto, ainda não chovera e o céu até parecia azul, nada que tivesse a ver com a minha dor de cabeça. Falta de ar? Que ideia! Sim, falta de ar, falta de uma respiração mais ofegante, gritante, de passos acelerados ao passo da extraordinária leveza dos meus headphones. Já não andava há tanto tempo! As constantes viagens e as obrigações profissionais têm-me prendido a um assento. Mesmo que corra de um lado para o outro, ele está lá. Mesmo que descanse ou não, ele continua a relembrar-me constantemente que tenho de me sentar. E não posso parar. Ironia, não?! Que se lixe a Figura, vou tratar da outra! Não que tenha uma especial obsessão pela minha figura ou que ande a pé aceleradamente a pensar na balança e no sorriso de ver o ponteiro oscilar entre quarenta e cinco quilos e meio – quarenta e seis quilos, mas porque sinto mesmo falta de ar. Aquele ar que se move enquanto percorro o jardim linear do vale das Flores não é certamente o mesmo que o ar que se move quando me deixo ficar sentada a pensar na Figura. Penso que a minha dor de cabeça é exactamente a minha cabeça a pedir outro ar. Porquê parar? Os efeitos ainda não se notam, a causa, no entanto, desapareceu. Será cedo ainda para dizer que era disto que precisava? Não. Sinto-me renovada! E que bom que é sentir o tempo retornar (sem conotações, Deleuze ficou em cima do estirador).
Um acto tão simples quanto este ou actos tão simples (e tão comuns e tão deliciosamente bons) quanto vestir um fato de treino, calçar umas sapatilhas, pôr o ipod em shuffle... e eis que a vida regressa de outra forma. É um mistério! E como a minha cabeça recusa ouvir determinadas músicas de outrora (que alguns tempos fiquem onde estão) e selecciona outras, diria de hoje?!, que, no entanto, qual dor de cabeça, me redireccionam para essas gavetinhas atemporais da memória. Não interessam os significados originais. O mais certo é que mesmo estes são à partida adulterados e esvaziados de significado. As coisas são o que são. Mas a memória shuffle é mais tramada do que isso. Creio mesmo que não só impede um puro deleite das coisas (porque devem ser o que são), como as torna saturadas de significado. E a cada selecção vem tudo ao de cima outra vez. Contradição, não?! Sim, porque não?
O retorno que devia ser das coisas mais aprazíveis e libertadoras do acontecimento (e se se quiser, aqui até pode existir uma conotação ou outra...) tornou-se num singular momento de alucinação. A culpa, direi eu a ilibar-me a mim própria, foi da música. Ora ouça-se, em modo shuffle ou não.

"Where were you when I fell from grace
Frozen heart, an empty space
Something's changing, it's in your eyes
Please don't speak, you'll only lie
I found treasure not where I thought
Peace of mind can't be bought
Still I believe

I just hang on
Suffer well
Sometimes it's hard
It's hard to tell

An angel led me when I was blind
I said take me back, I've changed my mind
Now I believe
From the blackest room, I was torn
He called my name, a love was born
So I believe

I just hang on
Suffer well
Sometimes it's hard
It's hard to tell

I just hang on
Suffer well
Sometimes it's hard
So hard to tell",
Suffer Well, Depeche Mode

"Yearning for more than a blue day
I enter your new life for me
Burning for the true day
I welcome your new life for me
Forgive me, Let live me
Set my spirit free
Losing, it comes in a cold wave
Of guilt and shame all over me
Child has arrived in the darkness
The hollow triumph of a tree
Forgive me, Let live me
Kiss my falling knee
Forgive me, Let live me
Bless my destiny
Forgive me, Let live me
Set my spirit free (...)",
Man is the Baby, Antony and the Johnsons

"Eleanor put those boots back on,
Kick the heels into the Brooklyn dirt,
I know it isn't dignified to run,
But if you run,
You can run to the Coney Island roller coaster,
Ride to the highest point and leap across the filthy water,
Leap until the Gulf Stream's brought you down.

I could be there when you land
I could be there when you land

So Eleanor take a Green Point three point,
Turn towards the hidden sun,
You know you look so elegant when you run,
If you run, you can run,
To that statue with the dictionary,
Climb to her fingernail and leap, yeah,
Take an atmospheric leap,
Leap and let the jet stream set you down.

Could be there when you land,
I could be there when you land,
Could be there when you land.

So Eleanor put those boots back on,
Put the boots back on and run, run,
Come on over here, come on over here,
Come on over here...",
Eleanor put those boots back on, Franz Ferdinand

E agora: de volta a Deleuze e a Francis Bacon! Em simples rewind que de manhã ficou muito pouco...

Sábado, Outubro 29, 2005

O começo

O começo. Assim iniciava uma aula, o Pedro. Com o que é o começo. Pelo meio dizia-nos que muitos escritores começam a sua obra com apenas uma frase. Porque um escritor nunca sabe o que vai escrever, nunca sabe o que será o fim daquilo que inicia no momento. Arthur Miller construiu uma cabana para escrever a sua obra e durante todo o tempo tinha apenas uma frase na cabeça, uma só, a do começo. Virginia Wolf, idem. Contava-nos, o Pedro. Entre outras coisas. Como os dedos sabem mais de palavras do que a cabeça. Como quando se pensa no que se escreve, sai tudo mal. Entre outras coisas.
Entretanto tínhamos passado, também, a outra pergunta e a outra. Foi uma aula de perguntas, sem respostas. Nem creio que as vá encontrar e muito menos ali. O Pedro não gosta de palavras difíceis. Como o compreendi! Se puder dizer tudo o que quero que o outro saiba e ouça com palavras fáceis, com palavras simples, serei mais feliz. Fica tudo reduzido a si próprio. Sem dramas, sem metáforas, sem imagens, sem crises de histerismo ou de loucura. As coisas e as palavras que dizem as coisas reduzem-se e resumem-se a elas mesmas. Sem grandes artifícios, sem grandes malabarismos frenéticos entre composições frásicas. É aquilo e ponto final.
O Pedro gosta muito de Coimbra. Inclusive, já escreveu sobre Coimbra... "Cidade Estrangeira", recorda-se, entretanto do título do que escrevera em tempos. E gosta do "Portugal dos Pequenitos". Não é "Portugal dos Pequeninos", dizia, mas "dos Pequenitos", o que faz toda a diferença. De facto, faz. E ri-se. Com uma enorme gargalhada, estrondosa: faz uma pausa propositadamente, olha-nos a todos e começa com um primeiro "Ah!" solto e louco, ao mesmo tempo. Sobe imediatamente o tom e é impossível conter o riso perante a sua gargalhada. Num instante, estamos todos a rir sem saber muito bem porquê. Ainda agora me rio só de ouvir a sua gargalhada outra vez. É bonita.
"Descongestionante", dizia o João da aula do Pedro. Eis uma palavra fácil para a descrever. A sensação é muito idêntica. Serviu para desentupir a cabeça de conceitos, de palavras difíceis, de palavrões, de preconceitos. "Tratem-me por Senhor Professor ou Pedro". Fascinante, sem dúvida... Apesar de toda a loucura que o abraça e que lhe faz tremer as mãos ou falar do filho de quinze anos como estivesse a falar de um puto de quatro. Ou que o obriga a fazer pausas demoradas entre as palavras simples e os pensamentos simples para respirar. E a sua respiração ouve-se. Também é extremamente sonora, embora não tanto como a sua gargalhada. E uma faz rir e a outra não...
Foi um excelente começo! A par de um outro que, apesar do seu início ter ocorrido há algumas semanas atrás, ganha outras formas e contornos e nomes. Começamos a conhecer-nos uns aos outros, a saber aquelas coisas simples, ora aí está!, mas muito importantes. E é maravilhoso. Já não faço todas as viagens sozinha. Ontem já me sentei a descansar no café de Santa Apolónia acompanhada
.

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Alguém

Uma das coisas que mais gozo me dá nas minhas viagens periódicas a Lisboa é começar a conhecer determinadas pessoas e saber um pouco delas sem estas sequer suspeitarem. Também eu só dei conta quando, ao pedir um galão num pequeno café em Santa Apolónia, ao meu lado, uma empregada de limpeza loura e alta pedia um café. Foi instantâneo: sorri.
Estávamos em Setembro, eu cansadíssima, descansava um pouco nos bancos desse mesmo recinto do café, à espera da hora do comboio. Ela estava sentada uns bancos à frente e de lado. Eu via-a a três quartos, reparei nela pelas marcas que tinha no corpo, invisíveis porém, de um passado difícil. Segurava um cigarro e contava orgulhosamente à empregada do café que a filha tinha entrado em Psicologia na Universidade de Lisboa, "na pública", dizia com respeito. A filha tinha 25 anos e agora entrava para Psicologia. Estava feliz! O tempo que o cigarro lhe demorava nos lábios não era reflexo algum de nervosismo ou de medo, era de felicidade. Tinha o cabelo apanhado com uma mola atrás da cabeça e tinha acabado de tomar café. Hoje, trazia o cabelo solto e pedia o café quando sorri.
"Quero um café não muito cheio, mas também não muito curto". Sorri, novamente. Segundos atrás tinha estado eu a pedir o meu galão com uma série de exigências. Volto ao início. Começo a construir uma série de histórias sobre várias pessoas de Lisboa. Uma das coisas que mais aprecio no meu dia a dia em Coimbra (apesar de vários amigos não compreenderem esta minha obsessão por uma certa decadência a que a cidade está inerente) é esse sentido de pertença que comungo com a cidade e com as pessoas. Gosto de andar pela baixa, pela praça, pela Universidade e sentir que conheço alguém, que alguém me encontrará subita e inesperadamente e me coloca ali. Em Coimbra, custa-me estar num café sentada sozinha. Em Lisboa, não. Sou exterior, assumo-me como exterior e nem mesmo quando aí vivi me senti menos exterior. No dia em que me despedi de Barcelona, há três anos e meio atrás, ia comprar o pão e era cedíssimo, as ruas ainda estavam muito calmas, e naquele percurso que já me era familiar e comum, pensava como me tinha enganado em relação à felicidade numa cidade como aquela. Adoro-a. Mas lembro-me de apontar algures numa folha solta que não era a cidade, cidade alguma!, que determinava a felicidade no tempo e no espaço. Andava, por aquela altura, envolta nos meus pensamentos acerca da felicidade no (e pelo) espaço e no (e pelo) tempo. Despedia-me da cidade com esse pensamento na mente. Regressava ao lugar em que me sentia presente.
Decidi ir mais cedo para Santa Apolónia. Ainda faltava uma hora para o comboio, mas apetecia-me descansar um pouco. E aproveitava para comprar umas castanhas assadas. Também já conheço o Senhor das castanhas de Santa Apolónia. E também ele me reconhece. Tal como reconhece o meu pai e nem sequer suspeita que aquele Senhor que lhe compra duas dúzias de castanhas para a filha é o meu pai. Também não sei se o meu pai será o único pai a fazê-lo, mas a ele, ele dá-lhe um saco de papel. Já o conhece. Pode parecer leviano dizê-lo, mas não. Há uma parte do meu pai e de mim que aquele Senhor conhece e pode mesmo saber mais do que o que eu penso que ele saiba. Já pode saber, inclusive, os dias em que o meu pai, por exemplo, lhe compra as castanhas e a hora em que normalmente apanha o comboio e o que o traz a Lisboa, sem o meu pai nunca lhe ter dito coisa alguma. Tinha que esperar um pouco. Porque sairiam castanhas quentinhas daí a dois minutos. Tinha tempo, esperei. Enquanto esperava, pude observar o carrinho das castanhas. Uns dias antes, a minha mãe dizia-me que eu tinha que tirar uma fotografia ao Senhor Zé. O Senhor Zé está todos os anos, por esta altura, na praça da República em Coimbra a vender castanhas assadas. Já o conheço há anos, já o trato pelo nome, também. E o carro do Senhor Zé é fantástico! "Tenho mesmo que lhe tirar uma fotografia", pensei enquanto observava o carro do Senhor das castanhas de Santa Apolónia. As castanhas assadas do Senhor Zé são sempre as melhores. Creio que agora saiba porquê... Tudo depende do carro. E o do Senhor Zé é único. Imagino que tenha sido ele próprio a construí-lo e a pintá-lo de azul. Para a próxima pergunto-lhe.

Terça-feira, Outubro 25, 2005

O horror

Não podia ser pior. Arrepio-me sempre que entro por aquela porta. A porta que nunca sei abrir. Sei, mas faço sempre por esquecer como se abre. Talvez porque desejaria nunca ter que a abrir. Mas quase todos os dias a abro. E sei o que me espera três andares abaixo daquele em que a abro. O elevador é mais rápido do que aquele nos edifícios vizinhos. Também não esperam por ele aquelas centenas de pessoas às três da tarde (normalmente...) que depois desatam a correr para não correrem o risco de ficar à espera do outro. O cheiro também não é o mesmo, é diferente. Mas o ar... o ar causa-me náuseas e arrepios, uma sonolência no corpo, uma dormência na cabeça... É raro o dia em que não suba de volta à superfície agoniada pelo que sinto naqueles breves minutos na minha visita àquele local. Também é este um momento fora de mim. Aquela é a realidade de... nem sei quantificar quantas pessoas! Milhares? Sim, deverão ser milhares de pessoas. Mas de algumas conheço-lhes o rosto. O silêncio. O olhar. A espera. E tudo. Tudo por entre uns minutos que parecem ser sempre infinitos ou mesmo inexistentes, porque é um tempo que não se quantifica, é um não-tempo. Daria todo o tempo para nunca mais voltar ali. Ou para que o meu tempo se suspendesse naquele preciso momento em que eu abrisse a porta, me transformasse em bola de sabão, flutuando no ar me dissolvesse por entre as pequenas partículas, que ainda restam, de alegria naquelas vidas. Aquelas não gosto eu de observar. Desvio-lhes o meu olhar. Tenho medo. Muito medo de olhar para elas e ver todo o seu horror. Pressinto-o e imagino-o muito maior, infinitamente maior, naquilo que elas me diriam. Pelo olhar, pelo silêncio. Mas seria certamente imenso. Uma olho-a em particular e a dor é inefável. Só consigo... aguentar. Dificilmente. Mas ajuda pensar: falta pouco. Em breve esquecerei todo aquele mundo, voltarei a ignorar todo aquele horror e a julgar que há coisas que só acontecem aos outros. Não o digo com ironia, nem com desprezo... apenas com vontade de nunca mais abrir aquela porta. Dói demasiado. E naquele falso jardim, três andares abaixo, não há coelhos a saltar.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

20.10

Outro dia importante. Outro dia em que as palavras ficam muito aquém do que se espera delas. Não das minhas, delas próprias... Deveriam ser elas próprias a festejar este dia e eu com elas. Porque de certo modo também eu não posso existir sem elas, sem a sua presença e existência absolutas. Serei incapaz, por isso mesmo, de as proferir com leveza e destreza suficientes para tudo dizer quanto e como foi este dia.
No fim, a Madalena perguntava-me com uma estranha certeza de que teria sido óptimo, como é que tinha sido este meu dia. "Calmo", respondi-lhe. Mas agora vejo como fui injusta com ele e comigo própria. "Foi fantástico!", deveria ter-lhe dito. Porque foi.
Espero sempre suspeita por este dia. Tem-me sido marcado por razões mais distintas, que nunca sei o que hei-de esperar dele. E se de facto fora calmo este, houve determinados momentos em que me desdobrei em estados antagónicos. A felicidade de ouvir determinadas vozes e a angústia sufocante de encontrar as palavras certas para lhes responder e a surpresa de encontrar alguém, no meio de um mundo de nada, que disse pouco mais do que o que eu já sabia - que o meu avô era imensamente bom - mas me fez recordar o sabor agridoce das lágrimas e de um momento fora de mim. Tive ausências neste dia, também. Essa ausência no momento em que me deixei levar pelas recordações demasiado ténues e enuviadas do meu avô. "Sim, ele já morreu há muitos anos, era eu muito nova", respondia àquela Senhora a quem o meu avô tinha ajudado a fugir de casa dos pais e a casar com o ainda marido, porque os pais a maltratavam, a batiam, a impediam de ser feliz... "Eu era muito nova..." Dizia no dia em que o tempo muda tão pontualmente para mim. E, depois, todas essas ausências, insignificantes porém (aliás, descobrimo-las insignificantes no preciso momento em que denotamos a sua ausência), de outras palavras, de outras vozes. Afinal, redescubro-me sempre neste dia.

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

As três irmãs Luísa, Lurdes e Laura

Uma tinha ar de escritora ou até de pintora. Extremamente bem arranjada, sofisticada não obstante os setenta e poucos anos que aparentava. Lábios pintados de um rosa claro mas opaco, uma pérola em cada orelha, o cabelo arranjado. Ao seu lado, a irmã mais nova, mais recatada, mais discreta. Tinha uns óculos pendurados no peito, os mesmos brincos de pérola, permaneceu quase sempre de olhos fechados, a dormitar. De vez em quando, degustava uma pastilha de chocolate. Era a mais gulosa. À sua frente, o pacote de pastilhas de chocolate e o pacote de Mentos de menta. A terceira irmã viajava de costas. Vi-lhe, inicialmente, apenas o cabelo nos mesmos tons dos das outras duas irmãs e as pernas cruzadas denotando um certo ar de sofisticação e ao mesmo tempo de autoridade (era a irmã mais velha), confirmado pelos apliques dourados nas hastes dos óculos de sol de massa castanhos. Os óculos de sol da primeira irmã eram mais simples, também de massa, mas pretos e com um formato rectangular ultramoderno. As duas primeiras irmãs eram tão diferentes e, no entanto, tão idênticas. As semelhanças físicas eram tremendas. Se não fosse a diferença de idades visível, podia mesmo indagar se não seriam gémeas. Mas depois eram tão diferentes. A primeira vestia um fato de saia e casaco castanhos e uma camisola fina de malha em tom pérola por baixo. Atenta à moda ou porque já seu costume, uma pregadeira em forma de flor com as pétalas em âmbar na lapela do casaco. A segunda irmã era sem dúvida mais pragmática: umas calças castanhas e um casaco impermeável. Além dos brincos, não tinha qualquer outro adorno. Nem lábios pintados, nem mãos arranjadas. A terceira irmã, continuava, a revelar-se-me de costas. Os lábios, num movimento delicado do torso, apareciam pintados também, embora num tom mais sumido. As mãos, no entanto, destacavam-se. Entrelaçadas uma na outra, mais ou menos ao nível dos seus olhos, o tom prateado das suas unhas deixava transparecer um outro cuidado e, no entanto, uma posição de quem já tinha visto tudo na vida e pouco queria saber para além de estar e divertir-se com as duas irmãs. Nenhuma das outras irmãs tinha as unhas pintadas. As mãos cuidadas, mas nuas.
Sentia-me fascinada a olhar as três irmãs, a desvendar a cada gesto um pouco do que eram ou do que transportavam em si. Lembrava-me daquela peça de Peter Handke "A Hora Em Que Não Sabíamos Nada Uns Dos Outros" e de como eu sempre gostara de observar as pessoas, os seus movimentos, o seu olhar, tendo muitas vezes que distrair o meu com outras coisas para não criar suspeita. Mas era inevitável. As três irmãs haviam prendido o meu olhar desde o primeiro instante em que me sentei num lugar que não era o meu naquela carruagem. E tornaram a minha viagem muito mais divertida.
Tinham apanhado o comboio no Porto. Iam a Lisboa visitar um amigo que tinha uma colecção de arte sacra fantástica. Até há poucos dias, não suspeitavam sequer o seu interesse por esse tipo de arte e foi uma surpresa enorme quando descobriram. O Pestana demonstrava sempre uma certa repugnância, resmungando entre dentes quando o assunto vinha à tona, pelos temas do Sagrado. As irmãs sorriam entre si maliciosamente, nada diziam, mas tudo pensavam. Elas, por outro lado, interessavam-se por esses temas, porque sempre haviam estado presentes ao longo da sua educação. Os pais colocaram-nas, desde cedo, num colégio interno de freiras, embora não processassem fé alguma. Mas reconheciam-lhes, às freiras, certas qualidades de boas preceptoras e desejavam a melhor educação possível para as suas filhas. Cada uma aceitou à sua maneira. E cada uma é diferente da outra.
Chegámos ao Oriente. As três irmãs levantaram-se calmamente e dirigiram-se para a porta. Certamente que apanhariam o metro para o Chiado
.

Sábado, Outubro 15, 2005

Uma tarde de Sábado e quase uma noite de lua cheia

Nunca pensei que poderia ser assim o meu reencontro com Deleuze. Desde ontem que percebi que aconteceria muito em breve, porque passarei a ler e reler os seus textos lindíssimos. Mas dificilmente esperava que esse reencontro sucedesse hoje e de forma tão bonita. Uma perfeita tarde de Sábado, vou até ao centro comercial mais próximo (sim, como tantas outras pessoas que povoam esses sistemas aos fins de semana, mas que nem mesmo o aspecto de labirinto do jardim da Rainha de Copas, me deixa particularmente feliz por ter que o habitar por breves, mas densos, instantes) comprar uma prenda de aniversário para a minha cunhada (sabia também que já a deveria ter comprado, até porque nestes sítios, ao contrário do que pretendem simbolizar, não abunda a diversidade, no seu sentido, claro, de diferença), aproveito para ver as novidades na Bertrand, que agora adoptou esse conceito Fnac com um toque de hospitalidade portuguesa (cantos e recantos para todos os tempos e momentos) quando o encontro, ao virar de uma página do livro de Eduardo Prado Coelho. Um reencontro indirecto, é certo, mas que me fez crer que estava verdadeiramente na sua presença. Do seu pensamento. As palavras de Eduardo Prado Coelho conseguiram emocionar-me na sua simplicidade de resumir toda uma vida e a vida, o conceito mais extraordinário de Deleuze. O sim à vida, à alegria. Em todas as suas complexidades e desdobramentos. Não quero reproduzir as palavras exactas de Eduardo Prado Coelho, têm que se descobrir. Essa é uma experiência íntima. A minha foi.
A minha opção torna-se cada vez mais presente. Há... quantos anos? Creio que há três anos... iniciei um outro percurso na minha formação. Não, não quero dizer "na minha formação", mas talvez antes "na minha cabeça". Entretanto, peguei no carro e fui até outro centro comercial e parada num semáforo pensei: como é que aquelas palavras me podiam ter exaltado de tamanha alegria e eu pensava-as, pensara-as sempre, na sua aplicação mais quotidiana possível e observava, daquele semáforo vermelho, as pessoas a convergir para um espaço alienado de tudo quanto aquelas palavras poderiam significar para mim e eu desejava aplicar a esse mesmo espaço quotidiano, da vida de todos. A velha questão torna-se proeminente: por que é que os arquitectos se interessam tanto pela filosofia e, neste século especificamente, por Deleuze e Derrida? Escapa-me qualquer coisa. Será essa que tentarei encontrar nos próximos tempos? Parece-me, e essa ideia não veio nesse momento parada no semáforo vermelho, que há um desfasamento qualquer entre realidades. Mal arranquei, sucumbi os meus pensamentos novamente à prenda para a Fátima.

Sexta-feira, Outubro 14, 2005

14.10

Continuo a saltar de felicidade, ando aos pulos desde as três e pouco da tarde! Que felicidade...
14 de Outubro transformou-se naqueles dias que nos perseguem ano após ano. Relembrar-me-ei dele várias vezes no futuro. Já me era marcante este dia e hoje tornou-se mais ainda. O sorriso ainda não abandonou o meu rosto, nem o meu coração. E para já, nem sequer quero pensar no que vou ter que cumprir e a que me propus. Por agora, quero apenas deliciar-me com o momento... É tão bom propormo-nos a algo e o momento chegar quando menos se espera (embora eu ansiasse já há muito por ele) e depois gozarmos essa pequena alegria no nosso corpo: uma pequena cócega na barriga e um marshmallow a desfazer-se na boca.

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

Follow the rabbit and flowers will grow under your feet

Estava imensamente aborrecida. Mais um daqueles dias em que tinha que ir a Lisboa fazer uma coisa qualquer. Eu até gosto desses dias, da viagem calma de comboio, da tranquilidade do bolo de chocolate junto a uma ténue linha de água e do frenesim das sete horas da tarde. E do regresso. Gosto sempre imenso sem nunca desejar voltar e desejando sempre do regresso. Era um dia especial também. Daqueles em que temos de fazer um telefonema que nos custa, esse em que vacilamos a voz, esquecemos as palavras e sentimo-nos fora de nós, sem conseguir controlar o mais pequeno movimento do nosso cérebro. Antecipamos sempre o momento e eis que ele surge pior ainda do que poderíamos sequer ter imaginado (assim foi).
A contar os minutos, a convencer-me a mim própria de que tinha que o fazer, telefonar-lhe. Descia lentamente a avenida da Liberdade, sem grande vontade de dar um passo que fosse em relação a esse tempo próximo, muito próximo. Lembrei-me! Já tinha passado pela enorme porta da estação do Rossio, mas volto atrás. Um rodopiar de apenas dois passos, também. Entro. Afinal queria ver uma das exposições da bienal da experimenta que faltava "experimentar". E, por uns instantes, abstraí-me do tique-taque tique-taque...
Um coelho! A correr pelo chão assim que o tento apanhar! E flores! A nascer e florescer mesmo debaixo dos meus pés... Corro para um lado, volto para o outro, apressadamente, quero ver o coelho saltar mais uma vez. Rio-me! Com uma larga gargalhada solta e espontânea! (Nem imagino o que alguém possa pensar se ouvir... fez eco!)
Um clic! na minha cabeça. Tantas vezes que ando à volta com essa ideia de alteração de um espaço na experiência da intimidade... e um espaço que faça sorrir, ainda por cima! Pareceu-me (quase) perfeito. Imaginei um mundo inteiro assim. Com coelhos a saltar e flores a nascer por debaixo dos pés! Não seria perfeito? Não, sei que não... Mas um mundo inteiro em que o espaço desaparecesse por debaixo dos pés, enquanto nascia outro acompanhado de mim. Da minha tristeza, da minha alegria. Sei que há espaços assim, não quero, nem penso nesse virtual de que (quase) todos falam e de que (quase) todos pensam que é apenas um espaço gerado por computadores ou o espaço cibernético ou mesmo um espaço futuro desconhecido de que se tem uma vaga ideia através de formas estranhas e informes... Tento sempre pensar num espaço virtual aqui. Aquele que será sempre virtual no momento exacto em que me coloco face a ele e me desdobro para compreender as suas mais estranhas faces. Gosto de sorrir! Gosto muito de sorrir...

O coelho da Alice

Dizem-me que ando sempre com a cabeça no ar, que não tenho os pés assentes na terra. Como posso responder? "Obrigado, mas não obrigado". Ouvi a frase ontem, mais especificamente "Thanks, but no thanks". A alteração não muda o sentido, às vezes poderia alterá-lo, mas desta vez não. A todos os que me dizem essas frases feitas de alguém muito sisudo em dias cinzentos de chuva, respondo com um enorme sorriso e de voz bem aberta "eu gosto de ser assim". Bem... talvez nem seja uma questão de gosto. De modo de vida? Também não me parece... De sobrevivência? Nem pensar! Não tenho que atribuir significado algum à minha existência em cada dia que passa. Posso simplesmente de gostar de ser um pouco Alice. Ainda que este país não seja propriamente aquele das Maravilhas... Mas posso recriar um outro país, acreditar noutras coisas para além daquelas que todos discutem e com as quais todos se preocupam. Posso optar, e esta sim é uma opção com significado, por viver fora de mim. Quem é que nunca o desejou?