sexta-feira, junho 01, 2007

Do que é que precisamos?

Do que é que precisamos para estarmos prontos? Prontos para alguma coisa que nos atormenta, alguma coisa que receamos, que desconhecemos. A alguns dias de ir em viagem, com um destino conhecido, mas um futuro incerto, surgiu esta ideia, que já não é uma ideia, é mais do que isso, talvez uma constatação, que as pessoas têm medo de expor as suas fragilidades. Têm medo de as dizer em voz alta ou mesmo em surdina ao ouvido de uma pessoa querida. Têm medo de muitas coisas e mais medo têm ainda de dizerem que têm medo delas, como se não dizendo, o medo se consumisse a ele próprio, desaparecesse, como se nunca tivesse existido. O dizer, em voz alta ou em surdina, é evocá-lo. É torná-lo presente, demasiado presente, porque pode ser repetido. E mais uma vez, evocado. Outra vez, evocado. E se redobrasse. E se tornasse maior, maior ainda. Ao ponto de ser insuportável. E torna-se ruído. E os ouvidos, os nossos próprios ouvidos, deixam de ouvir. E tapamos as orelhas, abanamos a cabeça e negamo-lo. Para sempre, fechado em nós. Imagino tudo isto.
Mas eu falo demais. Não me contenho e exponho-me no meu lado mais frágil. Não vejo mal algum e cada vez mais acredito que é algo fantástico! Penso que aconteça o mesmo com a intimidade. Como é que pode existir intimidade, quando não conhecemos os medos da outra pessoa? Quando ela se cala. E consente. Sim, o ditado, neste caso, também vale... Lembro-me de Louise e como aprendi tanto com ela sobre o medo e este medo que agora também sinto, que Louise sempre sentiu, de não conseguir dizê-lo, porque cada vez mais as pessoas não o dizem e cada vez mais não o ouvem. Fica o eco. Que depressa se desfaz. Pensamos que algumas pessoas não nos são íntimas e ficamos deslumbrados quando partilham connosco uma experiência que os torna frágeis aos nossos olhos, aos nossos ouvidos. Eu, fico radiante! Os meus olhos transparecem o que dificilmente outras partes do corpo conseguem dizer. Para mim, é intimidade. E entre nós, uma distância enorme. Um silêncio profundo. Como na partilha de uma dor, de um pesar. Mas, depois... Depois, há sempre um medo que se perde. Ou vai desaparecendo aos poucos...
Noutra fase, ressurge com toda a sua força incalculável. Trememos uma vez mais, maltratamo-nos, vacilamos, fugimos (ou pensamos em fugir, só queremos fugir!). Somos frágeis e daí? Não precisamos de não o ser.

2 Comments:

Blogger AnaCAlmeida said...

Obrigada, depois do dia de hoje era mesmo o que eu estava a precisar de ler...
Boa Viagem, que corra tudo muitissimo bem ; )

sexta-feira, junho 01, 2007  
Blogger nrc said...

Palavras bonitas e verdadeiras... Depois do contacto com Louise, também repensei muito o que sabia (ou julgava saber) sobre o medo.
E também preparo uma viagem. Até logo.

domingo, junho 03, 2007  

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